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Samo Gudo alerta que África deve investir na pesquisa em saúde para evitar dependência

O director-geral do Instituto Nacional de Saúde desafia o Governo e os países africanos a investirem na ciência, inovação e tecnologia para deixar de depender das potências mundiais para a produção de vacinas e outros medicamentos contra as doenças que afectam o continente. Eduardo Samo Gudo falava nesta quinta-feira, em Maputo, durante uma mesa-redonda sobre liderança científica, financiamento e cooperação em saúde.

O Centro Cultural Moçambique-China acolheu, nesta quinta-feira, o quinto simpósio da Fundação Manhiça, no âmbito da celebração dos 30 anos do Centro de Investigação de Saúde de Manhiça.

O director-geral do Instituto Nacional de Saúde, que foi  moderador num dos painéis de debate, destacou, à margem do evento, a necessidade de os países africanos investirem mais na pesquisa científica em saúde, para controlo de várias doenças.

“Nós temos de investir na ciência, na inovação, no desenvolvimento tecnológico. Nós não podemos continuar à espera, quando aparece uma doença nova, não podemos continuar à espera que seja o norte global, os países do ocidente, os países ricos, que desenvolvam o teste, o diagnóstico, desenvolvem o medicamento, o tratamento e desenvolvem a vacina para a prevenção. Nós temos de começar a identificar as nossas próprias soluções, nós queremos assegurar que possamos nos preparar, prevenir e ter capacidade para responder aos desafios actuais e futuros”, disse Eduardo Samo Gudo.

A covid-19 e, mais recentemente, o Ébola são os melhores exemplos do que não pode ser feito.

“Usou-se o actual surto de Ébola na República Democrática de Congo, que é causada por uma nova variante, que ainda não dispõe de vacina. E as primeiras vacinas, como o continente não tem capacidade de desenvolver novas vacinas rapidamente, como o norte global, os países do ocidente, as primeiras vacinas que vão ser desenvolvidas pelo ocidente, elas só começarão a ser testadas daqui a dois meses. Entre o início da testagem da vacina, se ela funcionar e ser aprovada, pode levar até seis meses ou mais. Então, ou nós investimos hoje na ciência, na inovação, no desenvolvimento etnológico da saúde, ou vamos perpetuar uma dependência do ocidente e vamos ficar à espera que eles desenvolvam para que nós possamos ter acesso.”

O passo urgente a ser dado é reconhecer que orçamentar a pesquisa é um investimento para o desenvolvimento, defende Pedro Alonso, ex-director do Programa de Malária na Organização Mundial da Saúde. 

“Tivemos a epidemia de Ébola em 2014, depois outra em 2018, e agora temos outra. Estamos sempre atrasados. E, para seguir em frente e gerar os produtos que nos permitam responder adequadamente aos novos desafios, no caso das doenças em emergência, precisamos de ter investimentos em avanço. E isso não é só referente à capacidade de pesquisa, mas também ao envolvimento da indústria, que foi a origem da BDCTP (parceria público-pública focada na investigação e no desenvolvimento clínico). E essa indústria é raramente encontrada no continente. Então, como vamos trabalhar para ir para o próximo passo, além de ter capacidade clínica e capacidade de pesquisa, que é um grande primeiro passo, para ter capacidade no continente,  incluindo a indústria, e capacidade de gerar novos produtos para nos permitir antecipar e responder adequadamente aos desafios?”

A epidemiologista Quarraisha Karim diz que a África deve impor-se no mundo.

“Nós fazemos escolhas sobre se estamos no menu ou se estamos na mesa. Para estarmos na mesa, precisamos de ter a evidência, precisamos de ter uma voz na mesa, e precisamos de influenciar na política globalmente. E fazemos isso contribuindo para as regras, aconselhando lideranças em organizações multilaterais e instituições, mas também sendo parte de uma rede de centros de excelência em saúde”, explicou a epidemiologista de doenças infecciosas, cofundadora e directora-científica associada da CAPRISA.

Os painelistas discutiam à volta do tema “Liderança científica, financiamento e cooperação global face às ameaças emergentes”.

Fonte: O País

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