Se a criatividade é representada muitas vezes como uma lâmpada acesa, nesta era dos emojis, o meio-campo da Seleção teve um brilho anormalmente fosco durante o Mundial 2026.
O ocaso foi percetível in loco durante a competição, mas também nas estatísticas. Os números demonstram que, apesar do miolo luso estar preenchido com alguns dos melhores jogadores do mundo, estes não se apresentaram ao melhor nível durante o Campeonato do Mundo.
Roberto Martínez aproveitou a dinâmica trazida por João Neves e Vitinha do Paris Saint-Germain e apostou no duo de início em quatro dos cinco jogos realizados. Apenas contra a Colômbia houve diferenças, com Rúben Neves a render João. Bruno Fernandes foi titular nas cinco partidas.
Trata-se de um trio que veio de uma época fenomenal - Neves e Vitinha foram novamente campeões franceses e europeus, com grande importância no sistema pressionante e de alta posse de bola de Luis Enrique. Já Bruno foi considerado o melhor jogador da Premier League, ao serviço do Manchester United, num ano em que o clube não disputou competições continentais.
Ainda assim, a junção deste trio não teve o efeito desejado. E podem ser apresentadas várias razões para isso - diferença de contexto dos clubes para a Seleção (com outros colegas e outro treinador), cansaço, falta de entrosamento, questões mentais... cada um terá a sua interpretação. Porém, os números são indesmentíveis.
Segundo os dados recolhidos pelo Sofascore, o parceiro estatístico do Maisfutebol, o rendimento dos três baixou bastante em comparação com a performance nos clubes, especialmente no que à criação de oportunidades diz respeito.
Olhemos inicialmente para a média de passes-chave por jogo. A diferença é gritante. João Neves teve 0.82 no PSG, Vitinha 1.36 e Bruno 3.86 no Man. United. Um número anormal, diga-se de passagem. Na Seleção, João Neves e Vitinha tiveram ambos 0.40 e Bruno 1.20.
Se analisarmos as grandes oportunidades criadas por jogo, a tendência é igual. João Neves destaca-se neste capítulo por ter ficado a zeros. Outra métrica que está de mãos dadas com esta são os passes no último terço e, pasme-se, também aqui os três ficaram abaixo do rendimento nos clubes.
Corroborando a sensação geral de que a Seleção Nacional prezava a segurança em posse em detrimento do rasgo, com Ricardo Quaresma a acusar a equipa de jogar com lentidão e com demasiados passes laterais. Vitinha e Bruno Fernandes tiveram menos passes para a frente do que nos clubes. João Neves inverteu a tendência e teve ligeiramente mais.
Outra forma de comprovar isso é ver a precisão de passe dos médios lusos. Foi altíssima... mas pouco trouxe ao jogo ofensivo. João Neves teve 95.7 por cento, Vitinha 95 e Bruno 85.9. Uma percentagem maior do que nos clubes. Curiosamente, o organizador de jogo, teve um menor número médio de passes completados do que no clube (de 90.5 para 76.0).
É este o retrato de um meio-campo seguro na posse, mas sem criatividade, nem capacidade de ligar-se ao trio ofensivo, composto normalmente por João Félix, Cristiano Ronaldo e Pedro Neto. E mais uma prova de que, no futebol, o todo é a soma das partes.

Fonte: CNN Portugal




