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Guerra No Irão Ameaça Cadeias Globais De Produção Alimentar E Reacende Crise Dos Fertilizantes

Resumo

A guerra no Irão está a evidenciar a vulnerabilidade do sistema alimentar global devido à dependência dos fertilizantes nitrogenados produzidos a partir do gás natural. O encerramento do Estreito de Ormuz interrompeu uma importante rota de comércio de fertilizantes, levando a um aumento significativo dos preços e afetando a segurança alimentar mundial. Cerca de um terço do comércio global de fertilizantes passa por esta via estratégica, causando impactos em fábricas de fertilizantes na Ásia do Sul e levando grandes exportadores como China e Rússia a restringir exportações. A dependência energética na produção agrícola está a gerar preocupações sobre custos de produção, produtividade e preços globais dos alimentos, com a ONU a alertar para possíveis crises de fome e inflação alimentar, especialmente em países importadores líquidos de fertilizantes e alimentos.

A guerra no Irão está a provocar uma reflexão cada vez mais profunda sobre a vulnerabilidade estrutural do actual sistema alimentar global, expondo a forte dependência da agricultura mundial em relação aos fertilizantes nitrogenados produzidos a partir do gás natural.

O alerta surge num contexto em que o encerramento do Estreito de Ormuz, provocado pela escalada do conflito, interrompeu uma das mais importantes rotas globais de comércio de fertilizantes, afectando directamente preços agrícolas, cadeias de abastecimento e perspectivas de segurança alimentar mundial.

Segundo a análise, aproximadamente um terço do comércio global de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz — corredor estratégico cuja paralisação provocou uma subida abrupta dos preços da ureia, de cerca de 490 para mais de 700 dólares por tonelada.

A crise está igualmente a afectar fábricas de fertilizantes na Ásia do Sul, altamente dependentes de gás importado do Golfo, ao mesmo tempo que grandes exportadores como China e Rússia começaram a restringir exportações para proteger os seus mercados internos.

Agricultura Mundial Continua Fortemente Dependente Do Gás Natural

O conflito voltou a evidenciar um aspecto frequentemente subestimado do sistema alimentar moderno: a profunda ligação entre energia fóssil e produção agrícola.

A produção de fertilizantes nitrogenados depende fortemente do gás natural através do processo Haber-Bosch, utilizado para produzir amónia — componente essencial da ureia e da maioria dos fertilizantes utilizados mundialmente.

Segundo o documento, cerca de metade da produção alimentar global depende directamente deste tipo de fertilizante, já que o nitrogénio é um nutriente necessário em praticamente todas as campanhas agrícolas.

Na prática, a actual crise está a demonstrar que choques energéticos passaram também a ser, automaticamente, choques alimentares.

O problema tornou-se particularmente sensível porque ocorre numa altura em que decorre a campanha agrícola do Hemisfério Norte, elevando receios sobre custos de produção, produtividade agrícola e preços globais dos alimentos.

ONU Alerta Para Impactos Sobre Fome E Inflação Alimentar

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) classificou a situação como “um choque sistémico que afecta os sistemas alimentares globais”.

Ao mesmo tempo, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas estima que a manutenção prolongada dos elevados preços energéticos poderá empurrar mais 45 milhões de pessoas para situações de fome aguda.

O impacto tende a ser particularmente severo para países importadores líquidos de fertilizantes e alimentos, sobretudo economias africanas e asiáticas mais vulneráveis às oscilações internacionais dos preços energéticos.

Além da pressão directa sobre fertilizantes, a crise está igualmente a elevar custos logísticos, transporte marítimo e produção agrícola industrial, agravando receios de uma nova vaga global de inflação alimentar.

Debate Sobre Dependência De Fertilizantes Ganha Nova Dimensão

A actual crise está também a provocar um debate mais estrutural sobre o modelo agrícola dominante nas últimas décadas.

Segundo a análise, o problema não se resume apenas à necessidade de restaurar o abastecimento global, mas sim à urgência de reduzir a dependência estrutural da agricultura em relação aos fertilizantes sintéticos.

“We need to reduce the amount of synthetic fertilizer the world needs in the first place”, defende o texto.

Entre as alternativas apontadas está o biochar — material rico em carbono produzido a partir do aquecimento de resíduos agrícolas sem oxigénio — capaz de melhorar retenção de nutrientes nos solos e reduzir necessidades de fertilizantes sintéticos entre 20% e 40%, segundo estudos científicos citados no documento.

O artigo refere igualmente outras alternativas emergentes, incluindo agricultura de precisão, fertilizantes microbianos, práticas regenerativas e sistemas agrícolas mais eficientes no uso de nutrientes.

Fertilizantes Passam A Ser Questão Estratégica Global

Depois da pandemia, da guerra na Ucrânia e da crescente fragmentação das cadeias globais de abastecimento, fertilizantes, energia e alimentos começam a ser tratados cada vez mais como activos estratégicos ligados à segurança nacional e económica.

A análise sugere que o actual modelo agrícola global permanece excessivamente vulnerável à concentração geográfica de energia, fertilizantes e rotas marítimas estratégicas.

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI), mesmo o aumento da capacidade de produção global tende a continuar concentrado em regiões com gás natural barato, o que mantém elevado o risco sistémico associado à concentração da oferta.

Crise Reacende Debate Sobre Produção Local De Fertilizantes

Para África — e particularmente para países como Moçambique — a crise reacende igualmente o debate sobre a necessidade de maior produção local de fertilizantes e melhor aproveitamento industrial do gás natural.

Moçambique possui reservas significativas de gás natural que poderiam, no futuro, servir não apenas para exportação energética, mas também para desenvolvimento de uma indústria nacional de fertilizantes, agro-indústria e segurança alimentar.

Num contexto global cada vez mais marcado por choques geopolíticos, inflação alimentar e vulnerabilidade logística, especialistas defendem que fertilizantes deixaram de ser apenas um insumo agrícola e passaram a constituir um activo estratégico central para soberania económica, estabilidade social e resiliência alimentar.

Fonte: O Económico

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