Resumo
A escassez de nadadores-salvadores no início da época balnear é um problema estrutural em Portugal, que não se resolve apenas com melhores salários, mas requer intervenção do Estado, segundo a Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores e concessionários de praia. O presidente da federação, Alexandre Tadeia, destaca que a falta de nadadores-salvadores é recorrente há mais de uma década, afetando a segurança nas praias. Embora o número de nadadores aumente ao longo do verão, muitos acabam por abandonar devido às condições de trabalho desgastantes. Tadeia defende uma nova estratégia para a profissão, criticando o modelo atual de contratação pelos concessionários. Tanto a federação como os concessionários concordam que é necessário investir em vigilância para garantir a segurança nas praias.
Alexandre Tadeia, presidente da federação, disse à agência Lusa que a escassez de nadadores-salvadores no início da época balnear oficial é uma situação que se repete “há mais de uma década, sobretudo em junho, quando muitos profissionais, maioritariamente estudantes universitários, estão em período de exames”.
“Nós temos um problema crónico em Portugal, e já estrutural, de falta de disponibilidade de nadadores-salvadores no arranque da época balnear. É algo que tem mais de 10 anos. Portanto, é algo já recorrente, que leva a que muitas praias não consigam ter os dispositivos de segurança que deveriam ter nesta altura do ano, disse Alexandre Tadeia.
O presidente da Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores (Fepons) explicou que, embora o número de nadadores-salvadores aumente ao longo do verão, a realidade traz outros problemas.
“Em julho já temos nadadores suficientes, mas a grande maioria a trabalhar muitas horas extraordinárias”, afirmou, acrescentando que essa sobrecarga leva muitos a abandonar a atividade.
“Todos os anos perdemos metade dos nadadores-salvadores que trabalham na época balnear, porque essas condições de trabalho são muito duras”, reconheceu, lembrando que, apesar de existirem muitos profissionais formados, a adesão ao trabalho é limitada. Alexandre Tadeia referiu haver “mais de cinco mil pessoas com curso, mas não estão disponíveis para trabalhar, e alguns nem sequer querem exercer”.
Para o presidente da Fepons, o problema não está apenas na remuneração, considerando que “não é por pagar mais” que estão a ter mais nadadores-salvadores, mas que os problemas estão a outro nível, nomeadamente na “falta de incentivos, condições de trabalho e estratégias de retenção”.
O presidente da federação defendeu uma mudança de paradigma com “uma nova estratégia para a profissão”, criticando o modelo atual baseado na contratação pelos concessionários numa lógica que considerou “muito comercial” e desajustada da realidade.
Alexandre Tadeia sublinhou ainda que o investimento em vigilância teria impacto direto na segurança, uma vez que, “quando o espaço é vigiado, há baixa mortalidade”, sublinhando ser aí que deveria haver investimento.
Também do lado dos concessionários de praia há concordância quanto ao problema estrutural existente, com Paula Vilafanha, presidente da federação, a reconhecer à Lusa que “sempre houve dificuldades”, mas alertando para um agravamento recente.
“Os problemas têm vindo a agravar-se nos últimos quatro anos”, afirmou, apontando a forte dependência de estudantes universitários como uma das principais razões.
“A assistência a banhistas depende, em grande medida, de jovens universitários. Como estão em exames em maio, junho e até julho, é natural que não tenham disponibilidade”, explicou.
Além disso, considerou que a profissão é “muitas vezes apenas temporária”, tendo em conta que se um jovem está na universidade “já tem o seu futuro planeado. A função de nadador-salvador acaba por ser parênteses na sua vida”.
Paula Vilafanha destacou também o aumento da pressão sobre os profissionais, lembrando que as praias “têm cada vez mais afluência e mais atividades, o que exige um nível de resposta cada vez maior”, acrescentando que isso torna a função “ainda mais exigente física e operacionalmente”.
“Este setor está a ser desconsiderado pela tutela. Estamos à espera há mais de dois anos de um pacote legislativo essencial, incluindo a Lei de Bases da Prevenção do Afogamento”, criticou a responsável ao apontar falhas ao nível da organização e da legislação.
A responsável defendeu também melhores condições no terreno, ao alertar para a falta de “coisas básicas, como postos de praia com equipamentos adequados”, denunciando que “muitos são obsoletos”.
À semelhança de Alexandre Tadeia, também Paula Vilafanha considerou que o fator salarial não é determinante, frisando não se poder “falar de salários baixos na generalidade dos casos”, mas sim de “falta de condições, regulamentação e estabilidade” para exercer a profissão.
A época balnear, a nível nacional, decorre entre 15 de abril e 31 de outubro, mas a maioria dos municípios inicia o período de vigilância a partir de 1 de junho, embora as autarquias sejam livres de começar a época balnear antes ou depois dessa data.
Fonte: TVI






