InícioRevistaEconomiaEXPULSAR IMIGRANTES PODE CUSTAR CARO À ECONOMIA SUL-AFRICANA

EXPULSAR IMIGRANTES PODE CUSTAR CARO À ECONOMIA SUL-AFRICANA

Por: Gentil Abel

Durante vários anos, a África do Sul consolidou-se como um dos principais destinos de trabalhadores migrantes da África Austral. Milhares de moçambicanos, zimbabweanos, malawianos e cidadãos de outros países atravessaram as fronteiras em busca de emprego e melhores condições de vida. Muitos encontraram oportunidades na construção civil, agricultura, mineração, comércio e serviços, sectores que ajudaram a impulsionar a economia sul-africana e, ao mesmo tempo, garantiram o sustento das suas famílias nos países de origem.

Entretanto, os recentes episódios de violência, manifestações e ataques contra cidadãos estrangeiros coloca em causa essa realidade. Desde o início dos ataques, mais de 1.300 moçambicanos regressaram ao país, sendo que mais de 600 retornaram apenas entre os dias 1 e 4 de Julho. Em resposta, o Governo moçambicano anunciou medidas para promover a reintegração social e económica destes cidadãos, incluindo o levantamento das suas qualificações profissionais e a sua integração em programas de formação e mobilidade laboral para países parceiros.

Os dados revelam que a maioria dos repatriados possui experiência profissional. Entre eles encontram-se centenas de pedreiros, artesãos, pintores, electricistas, carpinteiros e canalizadores. São trabalhadores que adquiriram competências ao longo dos anos e que desempenhavam funções importantes na economia sul-africana.

No entanto, a situação também convida a uma reflexão sobre os efeitos económicos que a saída destes trabalhadores poderá provocar na África do Sul. Embora alguns movimentos anti-imigração defendam que a redução da presença de estrangeiros abrirá mais oportunidades para os cidadãos sul-africanos, vários economistas e organizações laborais têm chamado a atenção para possíveis impactos negativos dessa estratégia.

A experiência demonstra que muitos imigrantes não ocupam apenas postos de trabalho. Em diversos casos, também são proprietários de pequenos e médios negócios que geram emprego, pagam impostos e dinamizam o comércio local. Quando essas empresas encerram ou são destruídas durante episódios de violência, os prejuízos não recaem apenas sobre os seus proprietários. Trabalhadores sul-africanos também perdem os seus empregos, o Estado arrecada menos receitas fiscais e a actividade económica sofre uma desaceleração.

Um dos sectores mais afectados poderá ser o comércio regional. Joanesburgo é reconhecida como um importante centro de abastecimento para comerciantes provenientes de vários países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Se o receio da violência continuar a afastar compradores estrangeiros, a procura por mercadorias poderá diminuir, afectando empresas grossistas, transportadoras, mercados e toda a cadeia logística que depende deste movimento comercial.

Ao mesmo tempo, sectores como a construção civil, agricultura, minas e serviços poderão enfrentar dificuldades para substituir trabalhadores experientes. Muitos dos moçambicanos que regressaram desempenhavam funções técnicas e operacionais que exigem prática e conhecimento. A substituição dessa mão-de-obra poderá não acontecer de forma imediata, sobretudo em actividades que já enfrentam escassez de profissionais qualificados.

Esta realidade faz recordar um momento recente vivido em Moçambique. Durante o período das manifestações, várias empresas e estabelecimentos comerciais foram alvo de saques e actos de vandalismo. Muitos investidores enfrentaram perdas significativas e alguns empresários estrangeiros optaram por reduzir ou suspender as suas actividades no país. Na altura, diversos analistas alertaram que os prejuízos não se limitariam aos danos materiais. A redução do investimento, o encerramento de negócios e a perda de postos de trabalho acabariam por afectar a própria economia moçambicana.

Guardadas as devidas diferenças entre os dois contextos, existe um ponto em comum: quando a instabilidade afasta investidores, trabalhadores e empresários, as consequências tendem a ser sentidas por toda a economia. O impacto não recai apenas sobre quem sai do país, mas também sobre quem permanece, seja através da redução da actividade económica, da diminuição da arrecadação fiscal ou da perda de oportunidades de emprego.

Por isso, a questão da imigração deve ser analisada para além do debate político e social. Trata-se igualmente de um assunto económico. Num contexto em que a África do Sul enfrenta desafios relacionados com o crescimento económico e o desemprego, preservar um ambiente de estabilidade e segurança pode ser um factor importante para manter a confiança dos investidores e garantir o funcionamento de sectores que dependem da mão-de-obra migrante.

Por outro lado, Moçambique enfrenta agora um desafio diferente. O regresso de centenas de trabalhadores exige respostas que vão além da assistência imediata. A iniciativa do Governo de identificar as qualificações profissionais dos repatriados e promover a sua certificação representa um passo relevante para facilitar a sua integração no mercado de trabalho nacional ou em programas de mobilidade laboral para outros países.

Por fim, os acontecimentos recentes mostram que a estabilidade económica e social dos países da região está cada vez mais interligada. A circulação de trabalhadores, mercadorias e investimentos beneficia tanto os países de origem como os de destino. Quando essa dinâmica é interrompida por episódios de violência e insegurança, os efeitos ultrapassam as fronteiras e atingem toda a região.

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