A gestão de Cristiano Ronaldo foi um dos grandes temas da apresentação de Jorge Jesus como selecionador nacional nesta sexta-feira, como seria de esperar. Jesus mostrou vontade em incluir o astro português no grupo, dizendo que «nunca vai ser um problema», mas também deixou um aviso: «Desde que ele perceba onde ele pode chegar e eu também, uma relação entre treinador e jogador».
Lembrando que foi «facílimo» treinar Cristiano Ronaldo, apesar do seu conhecido ego, Jesus ilustrou como utilizou o avançado com pinças. «No campeonato, na última época, substituí-o 16 vezes, nunca houve confusões quanto ao papel de cada um de nós».
E ainda elogiou a capacidade física do avançado... no Al Nassr. «Comigo fazia oito quilómetros por jogo - comigo fazia - como um ponta-de-lança. E com velocidade acima dos 25 km/h. O Cris tinha dados para poder contar com ele. E quando achava que não tinha de jogar, não jogava. Nem o levava. Nem para o banco ia», completou.
Mas o Maisfutebol decidiu ir mais a fundo para analisar a frieza dos números. Em primeiro lugar, olhemos para o número de jogos em que Ronaldo participou. Disputou 37 de 49 partidas possíveis, mas nem todas por opção. Jorge Jesus optou por manter Ronaldo fora da ficha de jogo em sete de 11 jogos na Champions 2, a segunda competição asiática de clubes.
Ronaldo jogou principalmente na reta final da competição – foi titular nos «quartos», «meias» e na final perdida com os japoneses do Gamba Osaka. No campeonato, na luta pelo tão aguardado título, Ronaldo ficou de fora por opção apenas duas vezes, em fevereiro. Uma lesão afastou-o de outros dois jogos, bem como do estágio de março da Seleção Nacional.
Depois, há que fazer uma pequena correção a Jesus. Ronaldo foi rendido 17 vezes no total e não 16. 12 no campeonato, uma vez na Supertaça saudita e três na Champions 2. Nenhum treinador tinha substituído Ronaldo tantas vezes numa temporada, ao longo da longa carreira do madeirense.
Na maior parte das vezes, 14 para sermos mais concretos, a substituição aconteceu já no último quarto de hora. A única vez que saiu ao intervalo foi contra o Al Zawra, na Champions 2, numa goleada por 5-1 (em que CR7 não marcou).
Ronaldo foi indiscutível nas primeiras 14 jornadas com Jorge Jesus, disputando os 90 minutos. 14 jornadas em que o capitão marcou precisamente o mesmo número de golos, mais uma assistência, num arranque de temporada fulgurante. Foram 11 vitórias consecutivas, até chegar um mau momento de forma coletivo – quatro jogos sem vencer entre a 12.ª e 15.ª jornadas.
Podíamos pensar que Jorge Jesus tirou Ronaldo de campo apenas quando este já tinha marcado, mas não é verdade. O experiente técnico retirou o avançado de campo em seis jogos em que o goleador não tinha picado ainda o ponto.
Mas há um ponto de continuidade – só por uma vez é que Ronaldo saiu com a equipa a perder. Num dérbi com o Al Hilal em que Rúben Neves marcou o último golo (3-1). Também saiu num empate precisamente com o mesmo adversário. Porém, o Al Nassr ganhava quando Ronaldo saiu, surgindo o empate nos descontos. Portanto, Jesus retirava normalmente o capitão de campo apenas quando a vitória estava praticamente assegurada.
Mas fomos ainda mais a fundo. Além de olhar para a utilização, analisámos também as diferenças nas principais estatísticas de ataque apresentadas pelo goleador entre o Al Nassr e a Seleção Nacional, ao longo da temporada 2025/26, com ajuda do SofaScore. Tendo em conta, claro está, que existem necessariamente muitas diferenças de contexto entre as duas situações.
Mesmo o mais cético em relação às estatísticas poderá concordar que o veredito é cristalino – Ronaldo teve melhores indicadores ao serviço do clube. Pondo em perspetiva os 30 jogos realizados na Liga saudita e os 12 na Seleção, contando com o Mundial 2026, Ronaldo teve maior preponderância em jogo com Jesus, do que com Martínez.
No Al Nassr foi mais utilizado, com 87 minutos em média por jogo, teve melhor média de golos (0.93 vs 0.67), mais remates (5.37 vs 4.67), mais toques na grande área (6.50 vs 5.08), melhor concretização de oportunidades claras (51.1 por cento vs 41.2) e duelos ganhos (40.8 por cento vs 37.8). Parece mais ou menos óbvio que Ronaldo deu-se melhor no contexto de clube do que na Seleção.
O mapa de calor, que mostra as posições ocupadas por um jogador no campo, mostram que, no Al Nassr, Ronaldo teve uma presença maior na grande área adversária e na meia-esquerda do último terço, onde o avançado gosta de descair preferencialmente, para tentar o remate. Na Seleção, a presença foi mais limitada à marca de grande penalidade e nos arredores da área.

Fonte: CNN Portugal




