João Pereira, treinador português que orientou o Casa Pia durante praticamente época e meia e alcançou a melhor pontuação do clube na Liga, reflete sobre a passagem no emblema lisboeta. Despedido à 11.ª jornada em 2025/26, Pereira mantém um bom relacionamento com os dirigentes do clube, mas não deixa de considerar o desfecho como «precipitado».
Em entrevista ao Maisfutebol, o técnico admite que aquilo que talvez tenha corrido pior tenha sido a «gestão de expectativas» e admite o impacto negativo da conciliação do treino com o curso UEFA Pro, exigido pela Liga. Ainda por cima, Pereira teve de frequentar o curso… em Espanha, por falta de vaga em Portugal.
Fora do ativo, mas sem «perder o sono», o jovem técnico decidiu apenas ingressar num novo clube quando já tivesse concluído o grau máximo de treinador, para estar no seu «todo» junto ao banco de suplentes. Diz estar preparado para um novo desafio – utilizando qualquer sistema tático.
PARTE I – João Pereira tirou curso com De La Fuente: «É um senhor, convivemos sem filtros»
PARTE II – «Casa Pia acabou no mesmo lugar que quando nos despediu, no play-off»
PARTE III - «Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»
Maisfutebol: Sobre o Casa Pia. Enquanto não tinha o curso UEFA Pro, em que medida é que se sentiu limitado? Por exemplo, durante o jogo sentia que não tinha a mesma influência dentro de campo? Foi também por isso que quis terminar o curso antes de voltar ao ativo?
JP: Sim, foi claramente por isso. Também pelo facto de ter de ter uma segunda inscrição — rapidamente tive de resolver isso a pedido da Federação, tinha um mês para o fazer. Acabei por me inscrever na Académica de Coimbra, que é um clube com o qual tenho relação, o clube da minha cidade, de Coimbra. As pessoas acabaram por me ajudar bastante, neste caso o David Caiado [diretor desportivo] teve uma importância muito grande. Acabei por ter uma segunda inscrição e já não podia ter uma terceira. Mas mesmo que a tivesse, ou se pudesse fazê-lo, a decisão teria sido a mesma, na medida em que era extremamente importante e prioritário para mim terminar o curso, derivado de não poder ser eu, no meu todo, enquanto treinador. Muitas vezes sentado e não poder estar a viver o jogo nos 90 minutos de uma forma mais interventiva, mais assertiva, para os próprios jogadores poderem sentir o treinador mais de perto, seja no sentido de arranjar soluções, seja no sentido de apoiar.
O segundo fator: o facto de, ao estar ainda a terminar o curso, ter de me ausentar mensalmente e, por vezes, não estar presente em dois ou três treinos. E, obviamente, se me perguntarem se prefiro estar presente em todos os treinos, claro que sim. Porque dois ou três treinos acabam por ser uma ausência significativa depois naquilo que é o desenrolar da semana — e não só da semana, mas daquilo que é o processo todo desde o início da pré-época. Podem passar-nos coisas ao lado dos olhos que podem ser depois importantes para a tomada de decisões, ou para percebermos o porquê de determinadas situações acontecerem e não estarmos por dentro das mesmas. Obviamente, a liderança acaba por ser diferente também, e o foco acaba por ser esse: o estar presente ou não. Foi o fator que acabou por levar a que quisesse terminar o curso e ter isso como prioritário.
E depois uma terceira nuance: tudo aquilo que é a identidade do treinador. Estar presente todos os dias é diferente de não estar presente todos os dias, porque é no rigor, é na coerência e na disciplina, o tal processo de que muitas vezes falamos, para conseguirmos ter a tal identidade. Eu considero que não foi possível desenvolver o trabalho que foi feito na primeira época da mesma forma que na segunda também por isso.
MF: Reparei aqui nesta resposta e também noutra entrevista que fez recentemente em que fala de determinadas situações que aconteceram na sua ausência. Gostava de perceber se isso foi alguma coisa de balneário ou se foi alguma coisa a nível de direção?
JP: Não, de direção tudo impecável, tudo muito saudável. Eu guardo uma estima muito grande pelo Tiago Lopes [CEO] e pelo Pedro Correia [ex-diretor-geral] também. Foram pessoas que acreditaram muito, foram pessoas que apoiaram muito. Até ao dia de hoje o Casa Pia tem sido extremamente correto comigo. Ao fim ao cabo, acabaram por ser eles a acreditar no salto, na altura, do Alverca para o Casa Pia. Toda a conquista foi feita em conjunto, na primeira época e depois na segunda. Penso que aquilo que acabou por correr menos bem foi, possivelmente, a gestão de expectativas. Agora, se contei ou não com o apoio da direção, contei sempre. Mas isso vem desde o Alverca, com o próprio Dr. Ricardo Vicintim [ex-presidente] e o Mateus Ornelas, que hoje está no Paços de Ferreira, e o José Maria Gallego, na altura no Amora. As coisas acabaram por ser sempre construídas em conjunto. É a minha forma de trabalhar, tenho prazer em trabalhar com as direções. É nessa simbiose que acredito que os clubes podem ter sucesso: no trabalho conjunto entre a equipa técnica, a direção desportiva e o presidente.
MF: Mas se não foi da parte da direção, terá sido algo a ver com o balneário?
JP: Não, nada a nível de jogadores. Aliás, já houve conversas com o Casa Pia sobre isso. Se repararmos, a nossa equipa técnica acabou por sair a cinco pontos do sétimo lugar, onde estava o Sp. Braga, e a três pontos do oitavo lugar, ocupado pelo Vitória. Acredito que hoje se possa olhar para essa decisão [despedimento] de uma forma diferente. Eu considero que, olhando internamente para o nosso trabalho — e não relacionado com jogadores ou com a direção, pois o ambiente era muito saudável com ambos —, não foi por aí. Obviamente, nem todos os jogadores estavam contentes, porque só jogam 11. Isso é uma verdade que nunca irá mudar, a não ser que alterem as regras das substituições para o formato do futsal. Faz parte do futebol. Tenho a certeza de que foi uma decisão precipitada, porque acredito que iríamos fazer uma boa época. O Casa Pia acabou por terminar da mesma forma que estava quando nos despediu: no lugar de play-off, num ano em que estávamos a curta distância dos lugares cimeiros da tabela.
MF: E, entretanto, enquanto terminava o curso, recusou abordagens de clubes da Liga. Sente-se tranquilo com essa decisão?
JP: Sim, porque foi determinado, juntamente com os meus empresários, que essa seria a decisão: não entrar a meio da época passada e estar pronto para a seguinte, sabendo que é fundamental escolher o projeto certo no momento certo. O facto de não estar no ativo neste momento não me tira o sono, porque me dá tempo para concluir processos que quero finalizar, fruto da formação que fiz em Espanha. Permite-me explorar ferramentas e aperfeiçoar a criação dos meus próprios métodos de trabalho. Não estou parado. Aproveitei também para aperfeiçoar idiomas. Já falava francês, mas melhorei bastante, e a ideia é ser um treinador que fale fluentemente inglês, espanhol e francês. Isso tem um impacto enorme na comunicação diária com os jogadores, seja na condução do treino ou numa reunião individual. O jogador sente-se mais confortável e abraçado quando o treinador consegue comunicar no seu idioma.
MF: Além do curso, pergunto-lhe: ser treinador em Portugal a um nível elevado, nas ligas profissionais, sem ter tido uma carreira de ex-jogador de alto nível, torna o caminho mais complicado? É preciso batalhar mais do que os outros?
JP: Não vejo as coisas dessa forma. Acho que há diferentes perfis de treinadores e cada projeto sabe o que procura. É tudo muito relativo. Tive a oportunidade de conviver com muitos ex-jogadores e a verdade é que, se por um lado eles acrescentam em certos aspetos, por outro podem não estar tão preparados para outros. Um treinador que não tenha sido jogador de elite pode perfeitamente integrar na sua equipa técnica alguém que traga essa experiência. Além disso, essa bagagem varia muito. Uma coisa é um jogador como o Juliano Belletti, que ganhou a Liga dos Campeões e disputou Mundiais; outra é alguém que jogou na II Liga e nem sempre era titular.
No meu caso, joguei apenas na terceira divisão. Penso que quem não vem desse contexto profissional de topo consegue olhar para tudo sem estar "contaminado" com o que as coisas eram antigamente. Os balneários e a sociedade de hoje são completamente diferentes de há uns anos. Falamos, por exemplo, do estilo de liderança de um Alex Ferguson, que hoje seria impossível de aplicar. O futebol mudou, os balneários mudaram e os treinadores têm acesso a muito mais ferramentas para gerir essas dinâmicas.
MF: Sentiu em algum momento que a sua idade foi um obstáculo, nomeadamente a lidar com jogadores mais velhos?
JP: De todo. Isso aconteceu desde o Amora ao Alverca e ao Casa Pia, e nunca foi um entrave; muito pelo contrário. Permite uma proximidade e uma sensibilidade maiores em relação aos estilos de vida, aos hobbies e à forma de criar empatia.
MF: É uma relação mais horizontal e menos vertical, talvez.
JP: Claramente. Sabendo que há limites e regras para cumprir, do jogador com mais estatuto ao com menos estatuto. Aliás, muitas dessas regras são acordadas em conjunto. O sucesso da nossa caminhada deve-se em grande parte aos homens e jogadores que tivemos. Eles apoiaram-nos no dia a dia, ajudando nas decisões e passando-nos a perceção do desgaste físico, das preferências de treino ou do plano para os estágios. Muitas dessas escolhas eram feitas em conjunto.
MF: Aproveito a deixa para falar de um ex-jogador seu que se tornou recentemente treinador: o José Fonte, que iniciou a carreira no Sunderland. Como foi trabalhar com ele e que ensinamento acha que ele leva da sua passagem como seu atleta?
JP: Penso que a organização e o rigor nas lideranças, demonstrados nos mais pequenos detalhes. A soma dos detalhes é o que torna uma liderança coerente e sustentada por todos ao redor. Ele irá guardar isso, bem como a sensibilidade para lidar com jogadores de culturas e idiomas diferentes.
MF: Ter um capitão como o José Fonte no Casa Pia era o verdadeiro privilégio da "extensão do treinador em campo"?
JP: Sim, foi uma liderança muito fácil. O grupo de capitães do Casa Pia foi determinante. Todos eles eram diferentes — o Fonte, o Leonardo Lelo (que depois fez muita falta ao sair), o Ricardo Batista —, mas complementavam-se para criar um ambiente especial. Com o José Fonte, tínhamos muitas conversas sobre vivências e metodologia de treino. Ele vinha com frequência ao meu gabinete para debatermos ideias. Essa simbiose ajudou-nos a manter um grupo saudável e altamente competitivo.
MF: Quanto ao sistema 3-4-3 que apresentou no Casa Pia: foi uma ideia pensada logo na pré-temporada de 2024/25 ou já vinha do Alverca? Pretende manter esta identidade no futuro?
JP: Hoje sinto-me preparado para trabalhar qualquer sistema, seja o 4-4-2, o 4-3-3, o 3-5-2 ou o 3-4-3. No meu percurso como adjunto no FC Porto usávamos o 4-3-3; no Sp. Braga, o 4-4-2; no Amora, alternávamos entre o 3-5-2 e o 3-4-3; no Alverca, jogámos a maior parte do tempo em 4-4-2 e só mudámos para o 3-4-3 na fase final para equilibrar a equipa. No Casa Pia, adotámos o 3-4-3 porque já existia uma identidade e um historial recente do clube nesse sistema que a direção não queria perder. Contudo, adaptávamos: defendíamos muitas vezes em 4-4-2 quando queríamos ser mais pressionantes e mudávamos para o 3-5-2 a atacar.
O sistema futuro dependerá sempre do projeto e do perfil dos jogadores. Se a equipa pedir uma linha de quatro ou dois avançados, assim faremos. O nosso princípio é respeitar as individualidades para potenciar os atletas e, só depois, montar o puzzle tático. É um erro considerar o 3-4-3 um sistema defensivo: com ele, fomos o melhor ataque no Alverca, a equipa com mais produção ofensiva no Amora e, no Casa Pia, batemos o melhor registo de golos marcados do clube na Primeira Liga. O mais importante é a intenção e a agressividade ofensiva: a forma como olhamos para a baliza e atacamos os espaços. Queremos um futebol atrativo. Tivemos jogos menos conseguidos do ponto de vista estético, mas fomos vencer ao terreno do Braga e batemos o Benfica em Rio Maior, a praticar um futebol positivo e ofensivo contra adversários de exigência máxima.
PARTE I – João Pereira tirou curso com De La Fuente: «É um senhor, convivemos sem filtros»
PARTE II – «Casa Pia acabou no mesmo lugar que quando nos despediu, no play-off»
PARTE III - «Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»
Fonte: TVI






