Tal como Ricardo Costa, João Nuno ou Armando Sá, João Pereira é mais um treinador português que teve de tirar em Espanha o nível máximo de treinador, o UEFA Pro, por não garantir entrada em Portugal. Apenas com 20 vagas por edição e com uma periodicidade que chegou a ser de dois em dois anos, Espanha tornou-se uma alternativa para os técnicos lusos.
No caso de João Pereira, não é algo novo – tirou o grau UEFA A na Escócia. E a mais recente experiência permitiu-lhe conhecer por dentro a metodologia de trabalho do selecionador espanhol Luis de la Fuente, que veio mais tarde a ser campeão mundial. Pereira apelida-o de «senhor», um elogio que estende a toda a equipa técnica, e destaca a abertura dos mesmos, que partilharam muito do seu trabalho: «Convivemos sem filtros, sem segredos»
Impressionado pela «organização altíssima» da equipa técnica espanhola, o curso deu para conhecer outras estrelas que atuaram naquele país – Juliano Belletti, Álvaro Negredo ou José Callejon. Fora do ativo, mas «sem perder o sono» por isso, João Pereira conta em entrevista ao Maisfutebol que tem aproveitado o tempo para aprender francês e explorar ferramentas de inteligência artificial – que em Espanha já começam a ser utilizadas no treino.
PARTE I – João Pereira tirou curso com De La Fuente: «É um senhor, convivemos sem filtros»
PARTE II – «Casa Pia acabou no mesmo lugar que quando nos despediu, no play-off»
PARTE III - «Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»
Maisfutebol: Gostava de começar pela sua conquista mais recente, o curso UEFA Pro. Sei que teve de fazê-lo em Espanha porque não havia vaga em Portugal. Como foi essa experiência?
João Pereira: Foi muito enriquecedora. Eu já tinha tido a oportunidade também de fazer fora outro curso na Escócia e considero que eles têm uma abordagem completamente diferente. Não é por acaso que, coincidência ou não, acaba por ser a seleção espanhola a ganhar o Mundial. Depois, também o facto de terem inúmeros treinadores espanhóis em finais na última época, assim como os dois selecionadores que disputaram a final [do Mundial]. Quando se está lá dentro, percebe-se o porquê. Por toda a abordagem que eles têm a nível formativo, a metodologia de trabalho, estarem um passo muitas vezes à frente daquilo que são as novas ferramentas e, quase que em primeira mão, facultarem isso também aos formandos.
MF: Acha que o número de vagas em Portugal devia ser repensado?
JP: Obviamente que teria muito gosto ter feito o curso em Portugal, uma vez que é o meu país. O ruído gerado à volta disto acabou por ser algo positivo, na medida em que se começou a ver algumas mudanças naquilo que era a quantidade de cursos de treinadores, desde o UEFA A ao UEFA Pro. É algo que me deixou, de certa forma, agradado. Desagradado perante a minha situação, mas agradado perante a situação dos meus colegas, olhando mais para aquilo que é a comunidade de treinadores e depois também aquilo que é a coerência do próprio Presidente da FPF [Pedro Proença], pois acabou por ser extremamente coerente ao dizer que ia modernizar a Federação e acabou por fazer algumas alterações.
MF: Que curso fez na Escócia? E que metodologias é que foram partilhadas consigo em Espanha?
JP: O UEFA A. Não se prende só e apenas com aquilo que é o conteúdo partilhado. Há uma exposição muito grande ao facto de termos de falar inglês, neste caso na Escócia, e consequentemente o treinador desenvolve uma ferramenta comunicacional, que é o conseguir melhorar o seu inglês. No Casa Pia acabou por ser uma mais-valia, seja em termos de comunicação, de liderança, de transmissão de conteúdo. E agora em Espanha, o meu nível de espanhol acabou por, modéstia à parte, desenvolver-se bastante. Neste momento tenho mais capacidade para usar mais termos específicos, até palavras que eu nem conhecia, sejam elas mais técnicas ou menos técnicas.
Mais especificamente em relação às novas metodologias, o que eu considero é que a forma como eles olham para o jogo e para o treino, a capacidade para sistematizar e interligar tudo, penso que estão um passo à frente. Os exercícios de treino, a monitorização de dados GPS, terem o medicamento certo para a doença certa, ou seja, conseguirem, perante um problema, rapidamente arranjar uma solução. E depois, a forma como estão a trabalhar com a inteligência artificial no sentido de automatizar processos. Essa acaba por ser uma das vantagens de, neste momento, eu não estar no ativo: porque tenho tempo e consigo diariamente melhorar aquilo que são processos de automatização de trabalho, seja da equipa técnica, seja do próprio treinador no meu dossiê. E eles facultaram-nos algumas ferramentas. Está a ser até algo divertido, porque tenho tempo para poder explorar isso, e acredito que quando voltar ao ativo serei um treinador muito mais forte.
MF: Jorge Jesus dizia ainda há poucas semanas que o grande segredo do treinador hoje em dia é a recuperação - a maneira de encurtar a recuperação física dos jogadores, e que há certas equipas técnicas que têm essa capacidade e outras não.
JP: Sim, não tenho dúvida nenhuma. Porque efetivamente, se o jogador não estiver recuperado, não consegue apresentar o potencial máximo. E a recuperação abrange várias questões: desde a questão da alimentação, à questão do sono, à questão dos próprios exercícios a nível de recuperação, sejam mais localizados ou mais generalizados, a própria hidratação... Tudo isso até à recuperação mental do ponto de vista psicológico também. E até aí, voltando atrás no tema, a própria Federação Espanhola já está um passo à frente naquilo que são os automatismos desde cruzar dados relacionados com o próprio exercício de treino — seja ele para potenciar capacidades, seja ele para recuperar jogadores —, mas mesmo do ponto de vista psicológico também algumas ferramentas já automatizadas, seja para dinâmicas de grupo, seja a nível individual, a nível setorial, a nível coletivo…
MF: Como é que funcionam essas ferramentas a nível psicológico, só por curiosidade?
JP: Aqui poderíamos falar de várias ferramentas: desde o ChatGPT, que já acaba por ser algo precário, desde a Claude, que neste momento acaba por ser uma ferramenta que está um passo à frente, e muitas outras específicas ao treino. Até na sistematização do treino - com isso posso pegar em três épocas desportivas (Alverca e Casa Pia) e conseguir olhar para o quadro inteiro, perceber tudo aquilo que foi feito nas três épocas, cruzar toda essa informação e, a partir daí, conseguir ter uma assertividade maior depois na tomada de decisão, perante aquilo que fizemos. É o tal laboratório de que muitas vezes o Jorge Jesus fala, que o treino é uma arte, não é uma ciência exata, mas acaba por ser uma arte.
Depois até do ponto de vista da análise do jogo há melhorias significativas. Como aconteceu num jogo contra o Sporting, que foi muito falado, em que eu analisei 14 jogos em velocidade aumentada, hoje há a possibilidade de, em vez de estar a gastar três dias para analisar 14 jogos em velocidade aumentada, muito possivelmente gastar um dia para conseguir analisar esses mesmos 14 jogos. Essas ferramentas conseguem eliminar-me o ruído, conseguem encontrar padrões de uma forma automatizada em que eu quase nem tenho de ter intervenção. Aquilo que eu recebo é o produto final, e isso faz com que consigamos ganhar tempo.
MF: É mais um adjunto virtual. Gostava de voltar um bocadinho atrás: como é que os formadores da RFEF reagem ao facto de terem lá portugueses presentes? Já é normal, já fazem parte da "família"?
JP: Já é normal e recebem-nos muito bem, tratam-nos muito bem. Até têm, de certa forma, a humildade para quererem também aprender connosco, quererem beber daquilo que já foi o nosso processo formativo, do nosso contexto — seja de Liga, seja de II Liga. Há muita recetividade porque também entendem que não vimos de Espanha, muitas vezes temos viagens, alguns de nós tínhamos um enquadramento profissional também de uma forma ativa e a partir daí são pessoas que se moldam muito bem à situação de cada um. Não no sentido de nos darem as coisas de mão beijada. E até mesmo o facto de todos nós termos níveis diferentes na fluência do espanhol.
MF: E quantas vagas, só para termos termo de comparação? Se em Portugal eram 20, quantas vagas havia em Espanha para este curso do UEFA Pro?
JP: Eram 20 também. No curso UEFA A, penso que eles tiveram à volta de 40 vagas. O interessante é termos tido a oportunidade de conviver com jogadores como o Álvaro Negredo, o José Callejón ou o Érik Lamela, que estavam no curso UEFA A. Eu, no meu caso, tinha o Alberto Bueno, o Juliano Belletti, o Antonio Barragán, que foram jogadores de alto nível. Cria-se toda uma mescla. Os momentos de convívio que tivemos, que foram bastantes e com alguma exaustividade, desde as tarefas que tivemos de realizar em conjunto a momentos mais privados, fosse num jantar, fosse num momento de convívio, estarmos no mesmo hotel e podermos conviver e contar-se uma história, um episódio. Saímos mais ricos enquanto treinadores.
MF: E em específico de Luis de la Fuente, que recordações ou conselhos é que tem mais em mente? Qual foi a impressão com que ficou dele, ainda antes de ele ser campeão europeu?
JP: É um senhor. Mas não só o Luis de la Fuente, como também toda a equipa técnica: o Juanjo [treinador-adjunto], o Pablo Peña [analista], o Carlos Cruz [preparador físico], o treinador de guarda-redes [Miguel Ángel España]... Nós tivemos a oportunidade de conviver com todos eles de uma forma muito específica, sem filtros, sem segredos. Apresentavam efetivamente tudo aquilo que cada um realizava dentro das especificidades da sua função na equipa técnica. O Luis de la Fuente com um pouco mais de cariz de liderança: a forma como gere egos, a forma como gere um balneário, a forma como seleciona os jogadores, a forma como cria emparelhamentos entre posições — ou seja, o extremo com o lateral, por exemplo do Ferran Torres e do Lamine Yamal.
Depois, o Juanjo trabalha muito do ponto de vista da metodologia. Claramente ficou percetível a organização e a metodologia de trabalho desta equipa técnica, que é altíssima. Das mais altas que eu vi. Não consigo dizer que é a mais alta, mas está no top-3 de todas as formações que tive. E rapidamente se percebeu que, para se obter sucesso — depois de terem conquistado o Mundial e já terem conquistado o Campeonato da Europa —, é a única forma de se ter sucesso, e eu cada vez mais acredito nisso. Porque a forma como eles desenham tudo aquilo que é o modelo de jogo, como interligam tudo o que é o modelo de jogo com o modelo de treino, como têm a base de dados toda criada relacionada com a bateria de exercícios, e depois interligam com o Carlos, o preparador físico, na recuperação física dos jogadores… até como pensam as questões climatéricas onde vão jogar. Tudo isso já têm tudo tão consciente e de uma forma tão percetível que não é uma surpresa para quem bebeu dessa mesma metodologia ver que Espanha foi campeã.
PARTE I – João Pereira tirou curso com De La Fuente: «É um senhor, convivemos sem filtros»
PARTE II – «Casa Pia acabou no mesmo lugar que quando nos despediu, no play-off»
PARTE III - «Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»
Fonte: TVI






