Por: Alfredo Júnior
A Fundação Mozambique LNG está a implementar em Cabo Delgado um programa de energias renováveis que prevê a instalação de 28 mil sistemas solares domésticos em agregados familiares fora da rede eléctrica nacional, complementado por iniciativas de irrigação solar e mobilidade eléctrica destinadas a estimular o empreendedorismo e a criação de rendimento entre jovens.
A iniciativa, denominada “Energia para Avançar” (EPA!), integra um programa mais amplo de energias renováveis lançado pela Fundação Mozambique LNG nos distritos de Balama, Montepuez e Namuno. De acordo com a Fundação, o projecto combina electrificação doméstica, instalação de sistemas solares em infra-estruturas públicas e utilização produtiva da energia para apoiar actividades económicas locais.
A meta de 28 mil sistemas solares está direccionada para famílias que permanecem fora da rede eléctrica convencional. O programa prevê igualmente a instalação de 50 sistemas solares em infra-estruturas públicas, sobretudo centros de saúde e escolas, além de soluções destinadas à agricultura e a pequenas empresas.
A componente de empreendedorismo juvenil apresenta uma abordagem diferente. Em vez de limitar o apoio à disponibilização de energia para consumo doméstico, o projecto procura transformar a energia em instrumento de geração de rendimento. Jovens seleccionados recebem formação prática para desenvolver negócios associados a soluções energéticas, incluindo bombas de água solares e meios de mobilidade eléctrica.
O primeiro bootcamp do EPA! terminou a 1 de Junho, em Montepuez, com 17 participantes, dos quais nove mulheres e oito homens. Segundo a Fundação, os formandos foram preparados através de uma metodologia de “aprender fazendo”, com foco na criação e gestão de pequenos negócios e na utilização de tecnologias de energia renovável para gerar rendimento. A formação deverá prosseguir nos distritos de Balama e Namuno.
A aposta na energia produtiva surge num contexto de forte défice de acesso à electricidade em Cabo Delgado. Segundo dados apresentados pela própria Fundação, enquanto a taxa nacional de electrificação atingiu 60,1% em 2024, a cobertura da província era de apenas 26,6% em 2023. A diferença ajuda a explicar por que razão o acesso à energia continua a constituir uma barreira à actividade económica em muitas comunidades rurais.
A agricultura é uma das áreas que poderá beneficiar directamente da iniciativa. Até ao final de Maio, 50 bombas de água solares com kits de irrigação já estavam instaladas e em funcionamento na província, estando prevista a instalação de mais 25 no mês seguinte. As soluções pretendem reduzir a dependência de métodos manuais de irrigação e permitir que pequenos produtores aumentem a capacidade de produção.
A mobilidade eléctrica constitui outro eixo do programa. A Fundação pretende utilizar este tipo de equipamento como ferramenta de geração de rendimento para pequenas empresas e jovens empreendedores. A Epsilon Energia Solar, uma das entidades responsáveis pela implementação do EPA!, confirma que participa no fornecimento de soluções de energia solar e mobilidade eléctrica aos beneficiários.
Para além da distribuição dos equipamentos, o programa prevê uma componente de manutenção. A Fundação informa que foi estabelecida em Cabo Delgado uma empresa moçambicana de serviços energéticos para assegurar assistência técnica e manutenção de longo prazo aos sistemas instalados em famílias e infra-estruturas públicas.
Esta componente é particularmente relevante porque a sustentabilidade de programas de electrificação fora da rede depende não apenas da instalação inicial dos equipamentos, mas também da capacidade de assegurar reparação, substituição de componentes e assistência técnica quando surgem avarias.
A iniciativa decorre igualmente de uma maior articulação entre a Fundação e as autoridades provinciais. A Fundação Mozambique LNG e o Conselho Executivo Provincial de Cabo Delgado mantêm um Comité Directivo criado ao abrigo de um memorando de entendimento assinado em Março de 2025. O mecanismo pretende alinhar os projectos da Fundação com as prioridades provinciais nas áreas de saúde, educação, diversificação económica e infra-estruturas.
A iniciativa ocorre num momento particularmente importante para Cabo Delgado, província que procura recuperar a actividade económica depois de anos marcados pelo conflito armado, deslocações populacionais e dificuldades de acesso a serviços básicos. A Fundação Mozambique LNG está associada ao consórcio Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, que tem no centro da sua actividade um dos maiores projectos de gás natural do país.
Neste contexto, a utilização de energias renováveis para apoiar famílias e pequenos negócios pode contribuir para diversificar os benefícios económicos associados aos grandes investimentos realizados na província. Mas o impacto dependerá da capacidade de transformar os equipamentos em actividades económicas sustentáveis.
O desafio será, por isso, maior do que instalar 28 mil sistemas solares ou distribuir equipamentos de mobilidade eléctrica. Será necessário garantir que os beneficiários tenham formação adequada, acesso a mercados, capacidade de manutenção dos equipamentos e condições para transformar energia em produção e rendimento.
A própria estrutura do EPA! aponta nessa direcção ao combinar formação, tecnologia e empreendedorismo. O objectivo declarado não é apenas aumentar o acesso à electricidade, mas permitir que a energia funcione como instrumento para fortalecer a agricultura, criar pequenos negócios e gerar fontes de rendimento.
Para Cabo Delgado, onde a baixa cobertura eléctrica continua a limitar o desenvolvimento de muitas comunidades rurais, a iniciativa representa uma tentativa de responder simultaneamente a dois problemas: o défice de acesso à energia e a escassez de oportunidades económicas para a população jovem.
O verdadeiro resultado do programa, contudo, será medido não pelo número de kits entregues, mas pela quantidade de famílias efectivamente electrificadas, negócios criados, empregos gerados e rendimentos sustentáveis produzidos a partir das soluções disponibilizadas.
Se esses resultados forem alcançados, a energia solar poderá deixar de ser apenas uma alternativa à ausência da rede eléctrica e passar a funcionar como uma infraestrutura económica para milhares de famílias e jovens de Cabo Delgado.






