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Moçambique Leva Leilão Internacional de Gemas Para Dentro do País e Procura Reter Mais Valor

Moçambique prepara-se para realizar, pela primeira vez, um leilão internacional de gemas dentro do território nacional, numa iniciativa que poderá representar um novo passo na tentativa de capturar internamente uma parcela maior do valor económico associado aos recursos minerais produzidos no País.

O leilão está previsto para decorrer em Outubro, na cidade de Nacala, província de Nampula, no âmbito da Conferência sobre Adição de Valor com Base em Minerais e Recursos Energéticos Disponíveis — CAVAME-d, programada para 19 a 24 de Outubro.

Segundo informações avançadas pelo director-geral do Instituto Nacional de Minas — INAMI, Olavo Deniasse, ao jornal Notícias, a iniciativa deverá começar como uma experiência gradual, sem pretender impedir ou substituir imediatamente os leilões que actualmente são realizados fora de Moçambique.

A intenção é construir confiança entre compradores internacionais, titulares de licenças mineiras e organizadores dos leilões, demonstrando que o País dispõe das condições de segurança, logística e operação necessárias para acolher transacções desta natureza.

O Ministério dos Recursos Minerais e Energia — MIREME — confirma que o programa da CAVAME-d inclui a Feira de Gemas de Nacala — FAGENA, durante a qual será realizado o primeiro leilão internacional de gemas no País, aproximando produtores, investidores e compradores e procurando acrescentar valor aos recursos ainda antes da sua saída de Moçambique. 

A Novidade Não Está na Gema, Mas no Local Onde o Mercado Acontece

Moçambique não está a entrar agora no mercado internacional de gemas.

Os rubis provenientes de Montepuez, em Cabo Delgado, são comercializados internacionalmente através de leilões desde 2014. O primeiro leilão de rubis da Montepuez Ruby Mining — MRM — promovido pela Gemfields ocorreu em Singapura naquele ano. O Gemological Institute of America descreveu então o evento como um momento potencialmente transformador para o comércio mundial de rubis. 

A diferença fundamental da iniciativa anunciada para Outubro é geográfica e económica:

o comprador internacional deverá deslocar-se a Moçambique para participar no mercado.

Essa alteração aparentemente simples pode mudar a distribuição dos benefícios gerados pela cadeia comercial.

Quando uma gema moçambicana é extraída localmente, mas classificada, apresentada, negociada, leiloada e comercializada através de centros internacionais, uma parcela relevante dos serviços associados à transacção é prestada fora da economia que produziu o recurso.

Ao trazer o leilão para Moçambique, parte dessa actividade pode passar a ocorrer internamente.

Gemas Já Demonstraram Capacidade Para Gerar Receitas Elevadas

A dimensão internacional dos rubis moçambicanos ajuda a perceber o potencial económico existente.

A Gemfields indica que a Montepuez Ruby Mining já acumulou aproximadamente US$1,2 mil milhões em receitas de leilões desde Junho de 2014. A empresa descreve Montepuez como a maior mina produtora de rubis do mundo. 

Só no primeiro leilão Trade Select da empresa, realizado entre 22 e 29 de Junho de 2026, foram gerados US$23,1 milhões, com a venda de 348.409 quilates, correspondentes a 93,2% do volume oferecido. 

Outro leilão realizado em Fevereiro deste ano tinha gerado cerca de US$53 milhões, com um preço médio de US$279 por quilate vendido. 

Os números mostram que a questão para Moçambique não é provar a existência de procura internacional pelas suas gemas.

Essa procura já existe.

A questão passa a ser quanto da economia criada em torno dessas pedras pode permanecer no País.

Nacala Quer Transformar Compradores em Consumidores de Serviços

É precisamente nesta perspectiva que Olavo Deniasse enquadra o impacto esperado.

Segundo o director-geral do INAMI, os participantes internacionais não deverão apenas deslocar-se a Moçambique para comprar gemas.

Precisarão de alojamento, alimentação, transporte, serviços aeroportuários, segurança e outras actividades. Alguns poderão prolongar a permanência para conhecer destinos turísticos.

A realização do leilão cria, assim, a possibilidade de transformar o mercado de gemas num evento económico com efeitos sobre sectores que aparentemente estão fora da mineração.Essa ligação constitui uma das diferenças entre extrair um recurso e construir uma economia em torno do recurso.

No primeiro caso, o valor concentra-se predominantemente na produção e exportação.

No segundo, outros sectores passam a participar na cadeia e a captar uma parcela da despesa gerada.

Aeroporto de Nacala Escolhido Pela Segurança e Logística

O leilão deverá decorrer nas instalações do Aeroporto Internacional de Nacala, segundo a informação avançada por Olavo Deniasse.

A escolha está relacionada com as características particulares do negócio.

Gemas de elevado valor exigem procedimentos de segurança, controlo de acessos, transporte protegido, facilidades para movimentação internacional dos participantes e condições logísticas capazes de reduzir riscos durante as transacções.

O aeroporto oferece, segundo o responsável, condições consideradas adequadas à realização de uma operação desta dimensão.

A escolha de Nacala possui também uma dimensão territorial.

O Governo escolheu a cidade para acolher a CAVAME-d, evento através do qual pretende apresentar oportunidades de investimento em transformação mineral, utilização doméstica do gás natural, logística, infra-estruturas e serviços especializados. 

Nesse sentido, o leilão passa a integrar uma discussão mais ampla sobre industrialização e adição de valor aos recursos naturais.

Da Exportação da Pedra à Exportação de Maior Valor

A estratégia anunciada pelo Governo parte de uma questão que atravessa grande parte das economias africanas ricas em recursos naturais.

O País pode possuir o recurso, mas uma parcela significativa do valor final pode ser criada posteriormente noutras geografias.

Nas gemas, a cadeia não termina na mina.

Depois da extracção existem processos de selecção, classificação, avaliação, lapidação, certificação, comercialização, design, joalharia, distribuição e venda ao consumidor final.

Quanto mais etapas dessa cadeia forem realizadas fora do País produtor, menor tende a ser a parcela do valor total capturada internamente.

O leilão não resolve sozinho esta equação.

Mas pode constituir uma das peças.

Ao desenvolver capacidade doméstica para comercialização, Moçambique começa a aproximar-se de segmentos da cadeia onde ocorrem formação de preços, contacto directo com compradores e prestação de serviços especializados.

O Leilão Também É Um Mecanismo de Descoberta de Preço

Existe uma segunda dimensão económica importante.

Um leilão internacional competitivo funciona como mecanismo de descoberta de preço.

Diferentes compradores avaliam a qualidade, raridade, cor, tamanho e potencial comercial dos lotes e apresentam propostas concorrentes.

Essa informação ajuda produtores e vendedores a perceberem quanto o mercado está efectivamente disposto a pagar.

Quando esse processo ocorre dentro de Moçambique, o País ganha também maior proximidade com a própria formação do valor dos recursos que produz.

Isto pode contribuir para desenvolver conhecimento especializado em avaliação, classificação e comercialização de gemas — competências que dificilmente surgem apenas através da extracção mineral.

A longo prazo, a vantagem poderá estar menos em realizar simplesmente um leilão e mais em criar capital humano e institucional associado ao mercado internacional de pedras preciosas.

Primeira Experiência Não Pretende Fechar Mercados Externos

Um dos aspectos mais prudentes da posição apresentada pelo INAMI está no carácter gradual da iniciativa.

Olavo Deniasse deixou claro que o primeiro leilão não significa impedir a realização de certames no estrangeiro.

A intenção é começar, aprender com a experiência e criar confiança.

Essa abordagem é particularmente relevante num mercado internacional em que os compradores já dispõem de centros comerciais estabelecidos, redes logísticas próprias e procedimentos de aquisição conhecidos.

Mudar hábitos comerciais não acontece simplesmente por decisão administrativa.

Será necessário demonstrar que participar num leilão em Moçambique oferece condições comparáveis ou vantajosas em matéria de segurança, previsibilidade regulatória, transporte, pagamentos, alfândegas, acesso internacional e organização dos lotes.

A confiança terá de ser construída transacção após transacção.

Um Mercado Recorrente Seria Mais Importante do Que Um Evento

O próprio director-geral do INAMI aponta para esta ambição: criar condições para que, no futuro, um número crescente de leilões internacionais possa ocorrer normalmente em Moçambique.

É provavelmente aí que deverá ser avaliado o alcance estratégico da iniciativa.

Realizar um único leilão possui valor simbólico.

Criar um centro recorrente de comercialização de gemas possui valor económico estrutural.

Um mercado regular pode justificar o aparecimento de empresas especializadas em logística, seguros, avaliação, certificação, segurança, lapidação e serviços financeiros.

Pode também criar previsibilidade suficiente para operadores internacionais estabelecerem representações, parcerias ou actividades no País.

A partir desse momento, deixa de existir apenas um evento.

Começa a formar-se um ecossistema de mercado.

Há Um Precedente Histórico em Nacala

A intenção de posicionar Nacala como espaço de comercialização internacional de pedras preciosas não é inteiramente nova.

Já em 2016, autoridades de Nampula anunciaram uma feira internacional de pedras preciosas na cidade, com o objectivo de criar espaço de comercialização para operadores nacionais e aproveitar as vantagens proporcionadas pelo porto de águas profundas e pelo aeroporto internacional. 

Dez anos depois, a proposta regressa com uma ambição adicional: não apenas expor e comercializar pedras, mas realizar formalmente um leilão internacional.

A evolução sugere que o desafio não reside apenas em conceber a iniciativa.

Reside em transformá-la numa instituição regular e comercialmente sustentável.

Novo Quadro Legal Aumenta a Importância da Adição de Valor

O leilão surge também num momento em que Moçambique procura alterar a forma como gere economicamente os seus recursos minerais.

O MIREME refere que a CAVAME-d decorrerá num contexto de novo quadro legal aprovado em 2026 e actualmente em regulamentação, concebido para aumentar competitividade, transparência, investimento e desenvolvimento sustentável do sector. 

A conferência pretende apresentar aos investidores projectos baseados no processamento local de minerais e utilização doméstica de recursos energéticos.

O leilão de gemas encaixa nessa mesma lógica.

Nem toda adição de valor precisa de significar transformação industrial pesada.

Comercializar melhor também é adicionar valor económico.

Se o recurso é extraído em Moçambique, mas todo o processo comercial de maior sofisticação ocorre noutro país, existe uma parcela da cadeia que a economia doméstica deixa de captar.

Da Mina ao Mercado

É nesta perspectiva que o primeiro leilão internacional em território nacional poderá ter importância superior ao número de pedras vendidas ou à receita da primeira edição.

O desafio é aproximar duas pontas que durante muito tempo estiveram geograficamente separadas:

a mina e o mercado.

Moçambique já demonstrou possuir recursos capazes de ocupar posições relevantes no mercado mundial de gemas. Os rubis de Montepuez constituem uma das evidências mais fortes dessa capacidade, com receitas acumuladas de leilões que atingiram cerca de US$1,2 mil milhões desde 2014. 

O passo que agora se procura experimentar é fazer com que compradores internacionais deixem de encontrar a pedra moçambicana apenas em Singapura, Bangkok ou outros centros especializados e passem também a encontrá-la no próprio País de origem.

Se funcionar, o ganho não estará simplesmente em mudar o endereço de um leilão.

Estará em trazer para Moçambique parte dos negócios, conhecimento, serviços, contactos comerciais e despesas que acompanham a gema antes de ela seguir para o mercado internacional.

A primeira experiência de Outubro deverá, por isso, ser lida menos como um ponto de chegada e mais como um teste à possibilidade de construir, em território nacional, uma nova componente da cadeia de valor mineral.

O País já possui as pedras.

A próxima ambição é fazer com que uma parcela crescente do mercado criado por essas pedras também passe por Moçambique.

Fonte: O Económico

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