Por: Alfredo Júnior
Moçambique deverá receber, nos próximos 12 a 18 meses, mais de um milhão de doses de vacina contra a febre aftosa, numa operação destinada a reforçar a protecção do efectivo bovino e garantir a continuidade da vacinação nas zonas consideradas de maior risco.
O anúncio foi feito pelo director nacional-adjunto de Sanidade e Biossegurança, Abel Chilundo, que explicou que já existem acordos para a aquisição das vacinas, mas que as entregas serão feitas de forma faseada devido à capacidade de produção do fabricante.
“Temos já acordos de mais de um milhão de doses que vão ser entregues de forma faseada”, afirmou o responsável, citado pela Lusa.
A nova aquisição deverá reforçar sobretudo a vacinação nas províncias de Manica e Tete, embora a estratégia nacional de controlo da doença abranja igualmente outras zonas consideradas vulneráveis, incluindo Maputo e Gaza.
Segundo dados divulgados esta semana pelas autoridades, Moçambique dispõe actualmente de cerca de 400 mil doses de vacina contra a febre aftosa em reserva. A disponibilidade existente, conjugada com as novas entregas previstas, deverá permitir manter a campanha de imunização sem uma interrupção significativa no abastecimento.
O reforço surge depois de o Governo ter lançado, a 29 de Abril, a campanha nacional de vacinação animal de 2026. A iniciativa prevê a imunização de cerca de 2,4 milhões de bovinos contra a febre aftosa, além da vacinação contra outras doenças, incluindo o carbúnculo hemático, o carbúnculo sintomático e a dermatose nodular.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) participa na campanha, tendo disponibilizado 62 mil doses de vacina contra a febre aftosa para reforçar a capacidade de resposta, particularmente nas zonas de maior risco das províncias de Maputo e Gaza.
A campanha enfrentou, contudo, constrangimentos logísticos. Em Junho, o Governo decidiu prolongar o período de vacinação, depois de a chegada faseada das vacinas dificultar o cumprimento do calendário inicialmente previsto.
Na altura, o ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, explicou que a disponibilidade parcelada das doses não permitiu cumprir integralmente o plano de vacinação dentro do prazo inicialmente estabelecido. O Executivo anunciou igualmente a intenção de retomar e reforçar a produção nacional de vacinas, com o objectivo de reduzir a dependência de fornecedores externos.
A necessidade de assegurar reservas regulares de vacinas ganha maior importância perante o agravamento dos problemas de sanidade animal. Dados oficiais divulgados em Abril indicavam que Moçambique registou 542 focos de doenças animais em 2025, mais 63% do que no ano anterior, tendo as doenças provocado a morte de cerca de 25 mil bovinos.
Embora estes números incluam várias patologias e não apenas a febre aftosa, evidenciam a pressão sobre o sistema nacional de sanidade animal e os riscos económicos enfrentados pelos produtores pecuários.
A febre aftosa é uma doença viral altamente contagiosa que afecta animais de casco fendido, incluindo bovinos. Para além dos prejuízos directos provocados pela redução da produtividade e pelas restrições à movimentação de animais, a ocorrência de surtos pode comprometer o comércio de carne e outros produtos de origem animal.
Por essa razão, a estratégia de controlo não depende apenas da vacinação. As autoridades têm insistido na necessidade de reforçar a vigilância epidemiológica e o controlo da circulação de animais, sobretudo nas zonas fronteiriças.
A dimensão regional do problema ficou evidente esta semana, quando Moçambique e o Essuatíni anunciaram o reforço da cooperação no combate à febre aftosa e a outras doenças animais transfronteiriças. O entendimento prevê maior troca de informação epidemiológica e coordenação das medidas de prevenção, numa tentativa de reduzir o risco de propagação entre os dois países.
A chegada de mais de um milhão de doses representa, assim, um reforço importante da capacidade de resposta, mas também expõe um dos principais desafios da campanha: garantir que a disponibilidade das vacinas seja acompanhada por uma distribuição eficiente e pela capacidade de chegar aos produtores, particularmente nas zonas rurais e fronteiriças.
Com a pecuária a representar uma importante fonte de rendimento e subsistência para milhares de famílias, o controlo da febre aftosa ultrapassa a dimensão sanitária. A eficácia da vacinação terá impacto directo na protecção dos efectivos, na produtividade dos produtores e na capacidade do país de reduzir as perdas económicas provocadas por surtos de doenças animais.







