O Conselho de Segurança da ONU abordou nessa terça-feira a relação entre guerras e fome, na busca por ações preventivas.
Agir quando as luzes de alerta estiverem piscando
Ao abrir o debate, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lembrou que pelo menos 266 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar aguda no ano passado.
Ele afirmou que “sistemas alimentares essenciais, bem como as vidas que eles sustentam, estão sob ataque”.
O líder da ONU pediu ao Conselho que proteja fazendas, sistemas de abastecimento de água, mercados, armazéns, portos e rotas de abastecimento e aja antes que a fome ultrapasse formalmente o limiar da catástrofe.
Ele pediu que o Conselho “atue quando as luzes de alerta estiverem piscando.”
Conflitos e violência são atualmente os principais fatores da fome em 12 dos 13 focos de insegurança alimentar considerados mais preocupantes pelas Nações Unidas.

Uma menina de três anos de idade é tratada por desnutrição aguda grave em um hospital em Tawila, na região de Darfur, no Sudão
Círculo vicioso
O diretor interino do Programa Mundial de Alimentos, WFP, Carl Skau, visitou a Somália na semana passada e conheceu uma família com quatro filhos que teve que abandonar a fazenda onde vivia depois que grupos armados chegaram exigindo pagamentos.
Eles caminharam cerca de 100 km até um campo para deslocados. Uma das crianças morreu no caminho.
No debate do Conselho de Segurança, Skau disse que o sofrimento desta família é um exemplo de um fenômeno mais amplo que se desenrola em zonas de guerra.
Ele chamou a situação de “círculo vicioso entre conflito e fome”, no qual a guerra provoca a fome e a fome, por sua vez, cria condições para mais violência.
Evolução preocupante
Na Somália, agricultores são expulsos de suas terras. No Sudão, mercados foram atingidos por drones e mísseis. No Haiti, a violência das gangues isolou comunidades inteiras.
De Gaza ao Mali e a Mianmar, trabalhadores humanitários foram impedidos de chegar às pessoas necessitadas.
Em conjunto, essas crises apontam para uma evolução preocupante na relação entre guerra e fome. Os próprios sistemas alimentares, fazendas, portos, mercados, instalações de armazenamento e rotas de transporte marítimo, estão cada vez mais envolvidos em conflitos.
Por isso, as consequências econômicas se estendem muito além dos campos de batalha.
Três gargalos marítimos
Cada vez mais, um ataque com mísseis contra um porto ou uma embarcação comercial pode elevar o preço dos alimentos a milhares de quilômetros de distância.
O Mar Negro é um exemplo. Rússia e Ucrânia são grandes exportadores de grãos, e a intensificação dos ataques interrompeu uma artéria crucial do comércio mundial de alimentos. Segundo o WFP, o transporte de grãos pelo Estreito de Bósforo caiu 40% em relação ao ano anterior.
Ao mesmo tempo, ataques contra embarcações comerciais prejudicaram o comércio no Mar Vermelho. Já o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de um quinto do petróleo mundial e um terço do comércio global de fertilizantes, foi afetado por restrições e fechamentos que impulsionaram os preços das commodities.
Skau descreveu essa convergência como uma crise envolvendo três gargalos marítimos: o Mar Negro, o Mar Vermelho e o Estreito de Ormuz. As interrupções nesses pontos se propagam pelos mercados interligados de energia, fertilizantes e alimentos, transformando guerras distantes em aumento de custos para países fortemente dependentes de importações.

Vendedoras no mercado de Cotacachi, Equador
Consequências serão sentidas nas próximas colheitas
Para os países ricos, isso pode significar alimentos mais caros. Para países que já vivem no limite, pode representar menos refeições.
No Sudão, disse Skau, os custos dos alimentos básicos aumentaram quase 40% desde fevereiro. A alta dos combustíveis afeta em cadeia a irrigação, o transporte e a moagem dos grãos, enquanto as interrupções nas exportações de fertilizantes ameaçam as próximas safras na África e na Ásia.
Isso significa que as consequências dos conflitos atuais podem só se tornar plenamente visíveis nas futuras colheitas.
Recrutamento de jovens
E, quando as famílias já não conseguem colocar comida na mesa, alertou Skau, o desespero pode criar oportunidades para que grupos armados e redes criminosas recrutem jovens vulneráveis.
Esse é o ciclo reconhecido formalmente pelo Conselho de Segurança em 2018, quando adotou por unanimidade a Resolução 2417 sobre conflito e fome.
Sete anos depois, afirmou Guterres, “o círculo vicioso continua girando”.
Fonte: ONU







