O Governo está a mobilizar recursos financeiros para reduzir os impactos de uma possível seca sobre famílias e actividades produtivas em 27 distritos de sete províncias, perante as previsões de ocorrência do fenómeno El Niño durante a campanha agrícola e a época chuvosa de 2026-27.
O alerta do Instituto Nacional de Meteorologia aponta para diferentes níveis de risco, desde seca ligeira e moderada até situações classificadas como severas, exigindo preparação antecipada das autoridades.
Entre os territórios mencionados encontram-se distritos das províncias de Tete, Manica, Sofala, Inhambane, Gaza, Maputo, Nampula e Cabo Delgado, bem como a cidade da Beira.
O Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional está a concluir a mobilização de recursos para realizar, em Setembro, uma avaliação destinada a apurar a população potencialmente afectada, as condições de produção, a disponibilidade de alimentos e as necessidades de assistência.
“Em Setembro, iremos ao terreno para uma avaliação que poderá durar seis semanas. Este estudo ajudará a melhorar a planificação da resposta ao fenómeno”, explicou Isabel Trindade, directora do Serviço Central de Informação de Segurança Alimentar e Nutricional no SETSAN, citada pelo Notícias.
Alerta Antecipado Procura Evitar Resposta Tardia
A mobilização antes da materialização plena da seca representa uma mudança importante na gestão do risco climático.
Tradicionalmente, parte significativa dos recursos é disponibilizada depois da perda das colheitas, morte de animais, redução das fontes de água e agravamento da insegurança alimentar.
Nesta fase, as famílias já consumiram reservas, venderam activos, reduziram refeições ou abandonaram áreas de produção. A recuperação torna-se mais cara e demorada.
As acções antecipadas procuram utilizar previsões climáticas e indicadores de risco para intervir antes de os danos atingirem níveis críticos.
Esta abordagem pode incluir distribuição de sementes de ciclo curto e tolerantes à seca, abertura e reabilitação de fontes de água, apoio à conservação de pastagens, protecção de animais, transferências monetárias e aquisição preventiva de alimentos.
A intervenção antecipada não elimina a seca, mas pode impedir que um choque climático se transforme numa crise económica e nutricional de maior dimensão.
Campanha Agrícola Enfrenta Risco De Menor Precipitação
Em Moçambique, o El Niño está normalmente associado à redução e irregularidade das chuvas em partes das regiões sul e centro.
O risco não se limita à quantidade total de precipitação. A distribuição ao longo da campanha é igualmente determinante.
Pode chover em volume aparentemente significativo, mas em períodos curtos e separados por intervalos prolongados. Se a falta de água coincidir com a germinação, floração ou formação dos grãos, as perdas podem ser elevadas.
As culturas de sequeiro, que dependem directamente da precipitação, apresentam maior exposição. Milho, feijões, amendoim, mapira e mexoeira constituem fontes essenciais de alimentação e rendimento para famílias rurais.
A redução da produção afecta primeiro os agregados agrícolas, mas transmite-se posteriormente aos mercados urbanos através da menor oferta e do aumento dos preços.
A avaliação do SETSAN deverá determinar que culturas, áreas e grupos populacionais enfrentam maior risco, permitindo orientar os recursos para onde os impactos poderão ser mais intensos.
Produção Menor Pode Elevar Preços Alimentares
Uma seca generalizada reduz a disponibilidade de alimentos nos mercados locais e aumenta a dependência de produtos transportados de outras províncias ou importados.
Quando várias regiões são afectadas simultaneamente, os preços podem subir devido à competição por volumes limitados, maiores distâncias de transporte e custos adicionais de armazenamento.
O impacto é mais intenso sobre famílias de baixo rendimento, que destinam uma parcela elevada do orçamento à alimentação.
Nos meios rurais, a situação pode ser agravada pela dupla perda de produção e rendimento. As famílias deixam de colher para consumo próprio e, simultaneamente, perdem excedentes que seriam vendidos para financiar outras despesas.
A subida dos preços também pode influenciar a inflação nacional e condicionar a política monetária, sobretudo quando coincide com aumentos dos combustíveis ou desvalorização cambial.
A seca apresenta, deste modo, uma dimensão macroeconómica. Pode afectar agricultura, comércio, transporte, indústria alimentar, importações, inflação e finanças públicas.
Pecuária E Água Podem Ser Afectadas Antes Das Colheitas
A escassez de chuva reduz a disponibilidade de pastagens, água superficial e reservas para consumo animal.
Os criadores podem ser obrigados a percorrer distâncias superiores, comprar alimentação ou vender animais antecipadamente para evitar perdas.
Quando muitos produtores vendem ao mesmo tempo, os preços do gado podem cair, reduzindo o valor dos activos familiares. Posteriormente, a menor disponibilidade de animais pode elevar os preços da carne e dificultar a recomposição dos efectivos.
Poços, lagoas, furos e pequenos sistemas de abastecimento também podem apresentar menor disponibilidade.
A competição entre consumo humano, agricultura e pecuária tende a aumentar à medida que as fontes diminuem. Mulheres e crianças podem enfrentar deslocações mais longas para procurar água, com implicações para saúde, educação e actividade económica.
Investimentos preventivos em furos, pequenas barragens, sistemas solares de bombagem, retenção de água e manutenção das infra-estruturas podem produzir benefícios mesmo depois do episódio climático.
Distritos Apresentam Diferentes Níveis De Risco
O boletim do INAM organiza os distritos em fases de preparação distintas, de acordo com a probabilidade e a intensidade previstas.
Entre as áreas mencionadas com risco elevado encontram-se Changara, Marara, Mágoè e Mutarara, em Tete; Machanga e a cidade da Beira, em Sofala; Guro, Machaze e Macossa, em Manica; Govuro e Panda, em Inhambane; e Chókwè, em Gaza.
O risco moderado foi identificado em territórios como Chibuto, Chiúre, Moamba, Machaze e Memba.
Muanza, Tambara, Cahora Bassa, Chibabava, Caia, Chemba, Guijá e Magude aparecem entre os distritos associados a risco ligeiro.
As classificações podem ser actualizadas à medida que as previsões se tornam mais precisas e são combinadas com dados sobre humidade dos solos, início das chuvas, produção agrícola e disponibilidade de água.
A existência de diferentes níveis recomenda uma resposta proporcional. Distritos em risco severo necessitam de medidas operacionais imediatas, enquanto os restantes exigem monitoria, preparação logística e condições para ampliar rapidamente a assistência.
El Niño Pode Persistir Até Março De 2027
A ACAPS inclui Moçambique entre os países com maior risco de impactos humanitários causados ou agravados pelo El Niño entre Julho de 2026 e Março de 2027.
A organização aponta para o possível agravamento da insegurança alimentar, escassez de água, desnutrição e necessidades de saúde.
As previsões internacionais indicam que o actual El Niño poderá atingir intensidade forte ou muito forte, colocando-o entre os episódios mais intensos observados desde 1950.
O risco em Moçambique é ampliado pela acumulação de choques. Em 2026, o País já enfrentou cheias, ciclones, destruição de infra-estruturas e deslocações populacionais, enquanto o conflito no norte mantém necessidades humanitárias elevadas.
Uma nova seca poderá afectar comunidades que ainda não recuperaram os seus activos, campos, estradas e fontes de rendimento.
Esta sequência reduz a capacidade das famílias de absorver novos choques e aumenta o volume de recursos necessário para evitar uma deterioração das condições de vida.
África Pode Perder Até US$ 20 Mil Milhões
O Banco Africano de Desenvolvimento estima que um El Niño de intensidade excepcional poderá provocar perdas económicas entre US$ 10 mil milhões e US$ 20 mil milhões no continente.
Anthony Nyong, responsável climático da instituição, alertou que as economias mais afectadas poderão perder entre 1% e 2% do Produto Interno Bruto.
As perdas resultam da redução da produção agrícola, danos em infra-estruturas, escassez de água, interrupção de actividades económicas e aumento das necessidades humanitárias.
Para os países com limitado espaço orçamental, os choques climáticos criam uma escolha difícil entre financiar a emergência, manter o investimento público e cumprir o serviço da dívida.
A mobilização de financiamento climático antes do desastre pode reduzir esta tensão. Fundos de contingência, seguros paramétricos, linhas de emergência e mecanismos internacionais de adaptação permitem disponibilizar recursos quando determinados indicadores climáticos são atingidos.
Avaliação De Setembro Deve Medir Pessoas E Meios De Vida
O levantamento anunciado pelo SETSAN será fundamental para passar de uma classificação meteorológica para uma estimativa económica e social.
O risco de seca não produz o mesmo impacto em todas as famílias. A exposição depende do acesso à irrigação, reservas alimentares, rendimento, número de animais, distância dos mercados, fontes alternativas de emprego e funcionamento das redes de protecção social.
Uma avaliação completa deverá identificar quantas pessoas poderão necessitar de apoio, durante quanto tempo e através de que modalidade.
Em determinados locais, a prioridade poderá ser a distribuição de água. Noutros, sementes, alimentação animal, transferências monetárias ou apoio nutricional.
Também será necessário distinguir famílias que perderão parcialmente a produção daquelas que poderão enfrentar interrupção quase total dos meios de subsistência.
Esta diferenciação melhora a eficiência da despesa pública e reduz o risco de concentrar recursos em áreas mais visíveis, mas não necessariamente mais necessitadas.
Resposta Pode Proteger Mercados Locais
As transferências monetárias são frequentemente utilizadas em situações onde os mercados continuam abastecidos. Permitem que as famílias comprem alimentos e mantenham alguma procura no comércio local.
Quando não existe oferta suficiente, porém, a injecção de dinheiro pode aumentar os preços sem melhorar a disponibilidade. Neste caso, poderá ser necessário combinar transferências com distribuição de alimentos e apoio à logística.
A compra de produtos a agricultores de regiões não afectadas também pode aproximar a resposta humanitária da economia nacional, evitando dependência excessiva das importações.
O planeamento deverá considerar estradas, armazéns, transportadores, capacidade de conservação e funcionamento dos mercados distritais.
A seca não afecta apenas a produção. Pode interromper toda a cadeia que liga produtores, comerciantes, transportadores, processadores e consumidores.
Financiamento Antecipado Reduz Custo Da Emergência
A mobilização de fundos antes da época de maior risco oferece ao Estado a possibilidade de contratar bens e serviços com antecedência, posicionar reservas e preparar equipas locais.
Quando as aquisições são realizadas durante a emergência, a procura elevada pode aumentar os preços de alimentos, sementes, transporte e equipamentos.
A antecipação permite negociar contratos, identificar fornecedores e distribuir responsabilidades entre instituições nacionais, províncias e distritos.
Também cria tempo para combinar recursos públicos com financiamento de parceiros de desenvolvimento, fundos climáticos e organizações humanitárias.
O objectivo económico não é apenas financiar assistência. É proteger activos produtivos e impedir que famílias vendam animais, equipamentos ou terras para comprar alimentos.
Preservar esses activos reduz o tempo e o custo da recuperação depois da seca.
Seca Exige Resposta Ligada À Produção
A preparação para o El Niño precisa de combinar segurança alimentar imediata com medidas destinadas a manter a capacidade produtiva.
Apoiar famílias sem proteger sementes, solos, animais, água e instrumentos agrícolas pode resolver necessidades temporárias, mas deixar os produtores sem condições para a campanha seguinte.
Da mesma forma, fornecer insumos sem assegurar informação climática, assistência técnica e acesso ao mercado pode conduzir a novas perdas.
O alerta para 27 distritos oferece uma janela para organizar a resposta antes do agravamento. A avaliação de Setembro deverá indicar a dimensão financeira, os grupos prioritários e os instrumentos mais adequados.
A eficácia da mobilização será determinada pela rapidez com que os recursos chegarem às comunidades e pela capacidade de evitar que uma redução das chuvas se transforme numa quebra prolongada da produção, subida generalizada dos preços e deterioração da segurança alimentar.
Fonte: O Económico



