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Dólar Mantém Ganhos Limitados Entre Sanções Ao Irão E Recompras De Dívida

O dólar norte-americano apresentou ganhos limitados nesta terça-feira, 25 de Agosto, enquanto os investidores avaliavam o novo pacote de sanções contra o Irão, a ampliação das recompras de títulos de dívida pelo Tesouro e a trajectória futura da política monetária dos Estados Unidos.

O índice que mede o desempenho do dólar perante seis das principais moedas mundiais recuou marginalmente para 98,96 pontos durante a negociação asiática, depois de ter avançado 0,16% na sessão anterior.

A recuperação afastou temporariamente a divisa dos mínimos de três meses, mas não foi suficiente para estabelecer uma trajectória de valorização mais consistente.

O comportamento reflecte forças contraditórias. As sanções contra o Irão podem aumentar a procura preventiva por dólares entre países e empresas expostos ao sistema financeiro norte-americano. Ao mesmo tempo, as recompras de dívida pelo Tesouro, as preocupações com o défice e as dúvidas sobre a prioridade atribuída ao controlo da inflação continuam a limitar o interesse pela moeda.

Sanções Podem Gerar Procura Preventiva Por Dólares

O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira uma nova campanha de sanções contra o Irão e advertiu que países e empresas deverão interromper relações comerciais com Teerão ou enfrentar o risco de exclusão do sistema financeiro baseado no dólar.

A possibilidade de perder acesso às transacções em moeda norte-americana pode produzir uma procura imediata por dólares entre instituições que antecipem restrições futuras.

Ray Attrill, responsável pela estratégia cambial do National Australia Bank, explicou à Reuters que esta expectativa poderá estar a provocar uma ligeira inversão da fraqueza observada no final da semana passada.

Na prática, empresas e países susceptíveis de serem abrangidos pelas medidas podem procurar aumentar as suas reservas em dólares antes de eventuais limitações. Este comportamento cria procura de curto prazo e oferece algum suporte à moeda norte-americana.

O efeito de médio e longo prazos pode, porém, assumir uma direcção diferente. O uso recorrente do acesso ao dólar e ao sistema de pagamentos como instrumento de política externa pode incentivar alguns países a diversificarem reservas, desenvolverem mecanismos alternativos de liquidação e ampliarem operações em outras moedas.

As sanções podem, desta forma, gerar dois movimentos simultâneos: procura imediata pelo dólar devido à necessidade de assegurar liquidez e maior procura por alternativas destinadas a reduzir a exposição futura ao sistema financeiro dos Estados Unidos.

Recompras Procuram Melhorar Liquidez Do Mercado

O mercado obrigacionista norte-americano encontrou algum apoio depois de o Tesouro anunciar o aumento do volume das recompras de títulos de longo prazo.

A partir de 9 de Setembro, o Tesouro deverá duplicar a dimensão das operações destinadas a adquirir títulos com menor liquidez, procurando melhorar o funcionamento do mercado depois de os rendimentos das maturidades mais longas terem atingido os níveis mais elevados em quase duas décadas.

As recompras não representam uma redução directa da dívida pública, nem equivalem a um programa de compra de activos da Reserva Federal. O Tesouro compra determinadas obrigações e continua a emitir dívida através dos leilões regulares, procurando substituir títulos menos líquidos por referências com maior negociação.

O objectivo principal é melhorar a liquidez e reduzir distorções entre diferentes maturidades. Ainda assim, a possibilidade de utilizar parte do saldo de caixa do Tesouro para financiar as operações foi interpretada por alguns investidores como sinal de uma intervenção mais activa na curva de rendimentos.

A reacção do mercado foi moderada. O rendimento das obrigações norte-americanas a dois anos manteve-se em 4,246%, enquanto a taxa das referências a dez anos se situou em 4,704%.

Os níveis elevados indicam que as preocupações com inflação, défice orçamental, emissão de dívida e independência da Reserva Federal continuam presentes. A redução dos rendimentos foi insuficiente para alterar significativamente a remuneração exigida pelos investidores para financiarem o Governo norte-americano.

Política Orçamental E Monetária Condiciona O Dólar

A relação entre as decisões do Tesouro e a política da Reserva Federal tornou-se um dos principais temas do mercado cambial.

Quando os investidores entendem que as autoridades estão a procurar limitar os rendimentos da dívida sem uma redução equivalente do défice, cresce a percepção de que parte do ajustamento poderá ocorrer através de uma moeda mais fraca ou de inflação mais elevada.

Este posicionamento alimentou a chamada aposta na desvalorização monetária, favorecendo activos como o ouro e o Bitcoin e reduzindo a procura pelo dólar.

Sim Moh Siong, estratega cambial do OCBC, observou que a incerteza sobre a forma como a Reserva Federal responderá às condições económicas, combinada com dúvidas sobre o compromisso prioritário com o controlo da inflação, está a limitar os ganhos da divisa.

Os mercados aguardam agora o primeiro discurso de Kevin Warsh, enquanto presidente da Reserva Federal, no simpósio de política económica de Jackson Hole, previsto para sexta-feira.

Os investidores procurarão indicações sobre a subida recente dos rendimentos, a trajectória das taxas de juro e a independência da instituição perante a Administração do Presidente Donald Trump.

Um discurso orientado para o controlo da inflação poderá apoiar o dólar, sobretudo se reduzir as expectativas de cortes nas taxas de juro. Uma mensagem mais tolerante em relação à inflação ou mais preocupada com os custos do financiamento público poderá prolongar a fraqueza da moeda.

Euro E Libra Permanecem Próximos De Máximos

O Euro avançou ligeiramente para 1,1668 dólares, mantendo-se próximo do máximo de três meses alcançado na semana passada.

A capacidade da moeda europeia para permanecer acima de 1,16 dólares traduz, em grande medida, a fragilidade recente da divisa norte-americana. O desempenho também estará ligado às perspectivas de política monetária do Banco Central Europeu, ao crescimento da Zona Euro e à exposição económica do bloco às sanções contra o Irão.

A Libra Esterlina valorizou 0,1%, para 1,3639 dólares, perto do nível mais elevado em seis meses. A moeda britânica tem beneficiado do recuo do dólar e da expectativa de que o Banco de Inglaterra mantenha uma orientação prudente perante as pressões inflacionistas.

A permanência do Euro e da Libra perto dos respectivos máximos mostra que a recuperação do dólar ainda não alterou a tendência instalada nas últimas semanas.

Yen Perde Grande Parte Dos Ganhos Da Intervenção

O Yen valorizou ligeiramente para 159,21 unidades por dólar, mas já devolveu uma parte significativa dos ganhos registados após a intervenção das autoridades japonesas no mercado cambial.

A moeda continua afastada do mínimo de várias décadas, situado em torno de 164 unidades por dólar. Contudo, a sua trajectória evidencia as limitações das intervenções cambiais quando não são acompanhadas por uma alteração persistente dos diferenciais de juros.

Enquanto os rendimentos norte-americanos permanecerem elevados e a política monetária japonesa conservar taxas comparativamente baixas, os investidores mantêm incentivos para financiar posições em Yenes e adquirir activos denominados em dólares.

A intervenção pode reduzir temporariamente a velocidade da desvalorização e elevar os custos das posições especulativas, mas a estabilização duradoura da moeda exige mudanças nas expectativas sobre os juros ou na orientação do Banco do Japão.

Dólar Canadiano Reflecte Tensões Comerciais

O Dólar canadiano manteve-se praticamente estável em 1,3844 unidades por dólar norte-americano, depois de ter recuado 0,6% na sessão anterior.

A moeda foi afectada pela ameaça dos Estados Unidos de aumentarem as tarifas sobre produtos canadianos, após o fracasso das negociações comerciais.

O Canadá mantém uma elevada integração com a economia norte-americana. Novas barreiras comerciais poderão limitar exportações, reduzir o investimento e deteriorar as perspectivas de crescimento, criando riscos adicionais para a moeda.

O comportamento do Dólar canadiano continuará igualmente associado ao preço do petróleo, uma das principais exportações do país.

Moedas Da Oceânia Registam Ganhos Moderados

O Dólar australiano e o Dólar neozelandês avançaram cerca de 0,1%. A moeda australiana negociou em 0,7157 dólares norte-americanos, enquanto a neozelandesa se situou em 0,5965 dólares.

Os investidores aguardavam a publicação das actas da reunião de Agosto do Banco de Reserva da Austrália, procurando indicações sobre a evolução das taxas de juro e a avaliação dos riscos inflacionistas.

As duas moedas são particularmente sensíveis ao crescimento chinês, aos preços das matérias-primas e ao sentimento dos mercados emergentes. Um dólar globalmente mais fraco tende a favorecer ambas, desde que não seja acompanhado por uma deterioração acentuada da actividade económica mundial.

Dólar Confronta Duas Leituras Do Risco

O desempenho da moeda norte-americana está a ser determinado por duas interpretações distintas.

A primeira considera que as sanções, as tensões geopolíticas e a incerteza comercial podem aumentar a procura pelo dólar como activo de segurança e principal moeda do sistema financeiro internacional.

A segunda concentra-se na dimensão da dívida pública dos Estados Unidos, na subida dos custos de financiamento, nas recompras de obrigações e nas dúvidas sobre a independência da Reserva Federal. Nesta leitura, as intervenções destinadas a moderar os rendimentos podem reduzir a confiança no valor de longo prazo da moeda.

O índice do dólar em torno de 98,96 pontos mostra que nenhuma destas forças assumiu ainda domínio claro. A evolução das sanções ao Irão, a reacção dos rendimentos da dívida e o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole deverão determinar se a moeda recuperará dos mínimos recentes ou retomará a trajectória de desvalorização.

Fonte: O Económico

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