Por: Gentil Abel
Waldemar Fernando de Sousa está de regresso ao Banco de Moçambique, desta vez para assumir a liderança da instituição. O economista foi nomeado, esta segunda-feira, 31 de Agosto de 2026, pelo Presidente da República, Daniel Chapo, para substituir Rogério Zandamela no cargo de Governador do banco central.
A nomeação coloca novamente o nome de Waldemar de Sousa no centro das atenções, sobretudo pela sua passagem anterior pelo Banco de Moçambique e pela ligação processual que manteve com o caso das chamadas “dívidas ocultas”. Antes de chegar ao cargo máximo da instituição, Waldemar de Sousa já tinha desempenhado funções de administrador do Banco de Moçambique. Foi nesse período que o seu nome acabou relacionado com o processo que envolveu a contratação de empréstimos externos pela ProIndicus, EMATUM e MAM.
O antigo administrador chegou a ser indicado como declarante no processo principal das “dívidas ocultas”, devido à posição de chefia que ocupava no banco central quando as operações foram realizadas. No entanto, essa participação acabou por não acontecer. Sendo que, em Janeiro de 2022, o juiz Efigénio Baptista decidiu que Waldemar de Sousa não seria ouvido como declarante. A decisão teve em conta o facto de o antigo administrador já estar constituído arguido num processo autónomo, sob responsabilidade da Procuradoria-Geral da República.
A situação processual de Waldemar de Sousa estava relacionada com a sua actuação no Banco de Moçambique. O Ministério Público acusou-o, juntamente com o antigo governador Ernesto Gove e a ex-administradora Joana Matsombe, de abuso de cargo ou função no contexto da contratação dos empréstimos.
Segundo a acusação posteriormente divulgada pelo jornal O País, os antigos responsáveis do banco central não teriam realizado a análise técnica exigida para a contratação dos empréstimos. Entre os actos associados ao processo estavam a assinatura e emissão de autorizações cambiais e administrativas necessárias para que as empresas estatais envolvidas pudessem obter financiamento junto de bancos internacionais. A ligação ao processo já tinha sido noticiada anteriormente. Em Novembro de 2020, o Canal de Moçambique informou que Waldemar de Sousa fazia parte do grupo de antigos dirigentes do Banco de Moçambique arrolados pelo Ministério Público num processo autónomo relacionado com as dívidas da ProIndicus, EMATUM e MAM.
No entanto, a existência de um processo ou de uma acusação não permite concluir, por si só, que tenha havido condenação. Ser arguido significa ocupar uma determinada posição dentro de um processo judicial e não representa automaticamente uma declaração de culpa.
É justamente esta distinção que acompanha a nova nomeação. Ao escolher Waldemar de Sousa para dirigir novamente o Banco de Moçambique, a decisão presidencial coloca em evidência o seu percurso profissional, mas também o passado processual relacionado com uma matéria que envolveu a própria instituição.
Assim sendo, a nomeação abre espaço para o debate sobre os critérios utilizados na escolha de titulares para cargos de elevada responsabilidade pública. O Banco de Moçambique ocupa uma posição central na estabilidade monetária e financeira do país, tornando a liderança da instituição particularmente relevante.
A questão que se coloca não é apenas a existência de um processo no passado, mas também a forma como esse percurso deve ser considerado no momento de avaliar a confiança, a responsabilidade e a capacidade de alguém para voltar a ocupar uma posição de liderança na mesma instituição.
Por fim, Waldemar de Sousa assumirá oficialmente as novas funções esta quarta-feira, 2 de Setembro, numa cerimónia orientada pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo. Para além da mudança na liderança do banco central, a nomeação representa também o regresso de uma figura que já ocupou funções de administração na instituição e cujo percurso esteve ligado a um dos processos financeiros mais mediáticos do país. A nova direcção do Banco de Moçambique ficará ainda marcada pela nomeação de Felisberto Dinis Navalha para o cargo de Vice-Governador.






