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MOÇAMBIQUE ENTRE OS PAÍSES DA ÁFRICA AUSTRAL COM MAIOR RISCO FACE AO EL NIÑO 2026/27

Por: Alfredo Júnior

Moçambique está entre os países da África Austral classificados pelas Nações Unidas como estando em situação de “muito elevada preocupação” perante os possíveis impactos do El Niño 2026/27, ao lado de Madagáscar e Maláui. O alerta surge numa altura em que a região se prepara para a principal época agrícola e as previsões apontam para a possibilidade de um episódio de El Niño de intensidade muito forte, com potencial para agravar a seca, reduzir a produção agrícola, aumentar a insegurança alimentar e provocar novas deslocações populacionais.

Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o fenómeno deverá persistir entre Julho de 2026 e Março de 2027, existindo uma probabilidade superior a 90% de atingir uma intensidade muito forte. A África Austral está entre as regiões que poderão sentir de forma mais significativa os efeitos sobre a precipitação e a produção agrícola, numa altura em que vários países ainda procuram recuperar dos impactos de eventos climáticos extremos registados nos últimos anos.

Para Moçambique, a preocupação ganha maior dimensão devido à forte dependência da agricultura em relação às chuvas. Uma redução prolongada da precipitação pode afectar as sementeiras, comprometer o desenvolvimento das culturas e reduzir os rendimentos das famílias que dependem da agricultura de sequeiro. O Instituto Nacional de Meteorologia já havia alertado para a possibilidade de precipitação abaixo da média entre Outubro de 2026 e Janeiro de 2027, período que coincide com uma fase importante do calendário agrícola nacional.

A experiência recente da região mostra que os efeitos podem ser significativos, o El Niño de 2023/24 esteve associado a uma das piores crises de seca registadas na África Austral nas últimas décadas e, segundo as Nações Unidas, mais de 30 milhões de pessoas na região necessitaram de assistência humanitária devido aos impactos daquele episódio. O novo alerta surge depois de uma época marcada por chuvas intensas, cheias e ciclones associados ao fenómeno La Niña, deixando algumas comunidades com capacidade limitada para enfrentar um novo choque climático.

A sucessão de eventos extremos pode aumentar a vulnerabilidade das famílias rurais, agricultores que perderam culturas, animais ou meios de produção devido às cheias e ciclones podem ter menos recursos para enfrentar uma eventual redução das chuvas. A situação torna-se ainda mais complexa quando se considera que muitas famílias dependem de uma única época agrícola para garantir alimentos e rendimento durante grande parte do ano.

Os efeitos de uma eventual quebra da produção também poderão ultrapassar as zonas rurais. Uma menor oferta de produtos agrícolas pode pressionar os preços dos alimentos e reduzir o poder de compra das famílias, sobretudo das que já enfrentam dificuldades económicas. O Programa Mundial para a Alimentação alerta que episódios fortes de El Niño podem provocar perturbações nos sistemas alimentares e aumentar rapidamente o número de pessoas em situação de insegurança alimentar quando atingem comunidades já fragilizadas.

Moçambique enfrenta ainda outros factores de vulnerabilidade que podem agravar os efeitos de um novo choque climático. No norte do país, particularmente em Cabo Delgado, milhares de pessoas continuam deslocadas devido ao conflito armado, enquanto outras comunidades enfrentam os impactos recorrentes de ciclones, cheias e secas. Uma eventual crise alimentar provocada pelo El Niño poderá aumentar a pressão sobre as comunidades de acolhimento e sobre serviços básicos como saúde, água, educação e assistência alimentar.

As deslocações constituem outro motivo de preocupação, quando a falta de chuva destrói culturas, reduz a disponibilidade de água e afecta as fontes de rendimento, algumas famílias podem ser obrigadas a procurar melhores condições noutras zonas. Num país que já enfrenta deslocações provocadas pelo conflito e por fenómenos climáticos extremos, um novo movimento populacional poderá aumentar a pressão sobre comunidades que já possuem recursos limitados.

É por isso que as organizações humanitárias defendem uma resposta antecipada, a lógica é agir antes de a crise atingir o seu ponto máximo, através da distribuição atempada de sementes mais resistentes às condições climáticas adversas, protecção do gado, armazenamento de água, apoio financeiro às famílias vulneráveis e reforço dos sistemas de aviso prévio. A FAO e o Programa Mundial para a Alimentação defendem precisamente este tipo de acção antecipatória para reduzir as perdas antes que os efeitos do fenómeno se tornem mais graves.

Para Moçambique, o desafio passa por transformar as previsões meteorológicas em medidas concretas no terreno. A preparação poderá envolver o reforço dos sistemas de monitoria climática, apoio aos pequenos produtores, promoção de culturas mais resistentes à seca, melhoria das técnicas de conservação de água e criação de mecanismos de protecção social capazes de responder rapidamente às famílias afectadas.

Apesar do alerta, as Nações Unidas não consideram inevitável uma nova crise alimentar. A classificação de “muito elevada preocupação” representa um sinal de risco que exige preparação, e não uma previsão de que todos os impactos esperados irão necessariamente ocorrer. A intensidade, a duração e a distribuição geográfica das chuvas poderão variar, razão pela qual a evolução das previsões deverá continuar a ser acompanhada ao longo da época.

O que está em causa, portanto, não é apenas a quantidade de chuva que poderá cair nos próximos meses, mas a capacidade do país de se preparar para um possível período de menor precipitação. Depois de anos marcados por ciclones, cheias, secas, conflitos e dificuldades económicas, o El Niño 2026/27 coloca Moçambique perante mais um teste de resiliência.

A diferença poderá estar na capacidade de agir antes da emergência, se as previsões forem transformadas em medidas de prevenção, será possível reduzir perdas agrícolas, proteger meios de subsistência e limitar o impacto sobre os preços e a segurança alimentar. Caso contrário, uma redução das chuvas durante a época agrícola poderá transformar um alerta climático numa nova crise social e económica.

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