InícioRevistaEconomiaHorticultura Movimenta US$ 1,4 Biliões Mas Ainda Não Garante Dietas Saudáveis

Horticultura Movimenta US$ 1,4 Biliões Mas Ainda Não Garante Dietas Saudáveis

Produção e exportações mundiais continuam a crescer, mas baixos investimentos em investigação, perdas pós-colheita, preços elevados e acesso desigual à tecnologia limitam a oferta de frutas e hortícolas, sobretudo na África Subsaariana

Questões-Chave:

A horticultura tornou-se uma das actividades mais valiosas da agricultura mundial, movimentando aproximadamente US$ 1,4 biliões e representando quase um quarto do valor global da produção agrícola. O crescimento económico do sector ainda não se traduziu, porém, numa oferta suficiente, acessível e diversificada de frutas e hortícolas para assegurar dietas saudáveis.

O alerta foi feito pelo Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Qu Dongyu, durante o 32.º Congresso Internacional de Horticultura, realizado em Quioto, no Japão.

Segundo a FAO, a produção mundial de frutas e hortícolas cresceu mais rapidamente do que a produção de cereais entre 2010 e 2024. No mesmo período, as exportações aumentaram a uma média anual de 2,6%, atingindo 175 milhões de toneladas e um valor de US$ 240 mil milhões em 2024.

Apesar destes indicadores, apenas cerca de metade dos países produzia, em 2023, quantidades suficientes de frutas e hortícolas para cumprir a recomendação conjunta da FAO e da Organização Mundial da Saúde de 400 gramas por pessoa por dia.

O contraste revela uma questão central dos sistemas agroalimentares: o crescimento da produção e do comércio não garante, por si só, disponibilidade local, preços acessíveis ou melhoria da alimentação.

Valor Comercial Cresce Mais Do Que A Nutrição

A expansão da horticultura tem sido impulsionada pelo crescimento urbano, alteração dos hábitos alimentares, aumento da procura por produtos frescos e desenvolvimento de cadeias internacionais de supermercados, restauração e processamento alimentar.

Frutas, hortícolas, raízes, tubérculos, plantas aromáticas, flores e outros produtos horticulturais geram rendimentos relativamente elevados por unidade de terra e podem criar mais oportunidades de emprego ao longo da cadeia de valor do que várias culturas extensivas.

O sector mobiliza actividades de produção de sementes, irrigação, fertilização, embalagem, transporte, armazenamento, processamento, distribuição e comércio. Esta densidade de ligações económicas torna a horticultura particularmente relevante para pequenos produtores, empresas rurais e jovens empreendedores.

Contudo, parte considerável da produção mundial está orientada para mercados de maior rendimento e para produtos com elevado valor comercial. Países e regiões podem exportar frutas e hortícolas enquanto segmentos significativos das respectivas populações continuam sem acesso regular a esses alimentos.

É possível, portanto, registar sucesso comercial sem uma melhoria equivalente dos indicadores nutricionais. A FAO defende que o desempenho agrícola passe a ser medido não apenas pela quantidade produzida, mas também pela capacidade de disponibilizar alimentos saudáveis, acessíveis e adequados às necessidades das populações.

Consumo Permanece Abaixo Do Recomendado

A FAO e a Organização Mundial da Saúde recomendam um consumo mínimo conjunto de 400 gramas de frutas e hortícolas por pessoa por dia.

A média mundial está consideravelmente abaixo desse nível. Dados apresentados por Qu Dongyu indicam um consumo diário estimado de 80 gramas de frutas e 190 gramas de hortícolas, totalizando aproximadamente 270 gramas.

A diferença entre a recomendação e o consumo efectivo resulta de problemas de oferta, rendimento, preços, distribuição e preferências alimentares. Em muitos mercados, os alimentos frescos são mais caros e apresentam maior volatilidade de preços do que produtos com elevado grau de processamento.

Entre 2016 e 2025, os preços pagos aos produtores aumentaram em 89% dos países no caso das frutas e em 93% no caso dos hortícolas. A subida anual mediana foi de aproximadamente 4,2% para as frutas e 4,7% para os hortícolas, segundo a FAO.

Os preços elevados podem beneficiar produtores quando o aumento chega efectivamente à exploração agrícola. No entanto, uma parte considerável da diferença entre o preço no campo e o preço ao consumidor é formada pelos custos de transporte, conservação, perdas, intermediação e comercialização.

Sem infra-estruturas que reduzam estes custos, o aumento da produção pode não ser suficiente para tornar frutas e hortícolas mais acessíveis às famílias.

África Subsaariana Caminha Para Maior Défice De Oferta

As projecções apresentadas pela FAO são particularmente preocupantes para a África Subsaariana. Mantidas as tendências actuais, menos de um terço dos países da região terá, em 2050, disponibilidade suficiente de frutas e hortícolas para cumprir a recomendação básica de 400 gramas por pessoa por dia.

O crescimento populacional e a urbanização deverão aumentar rapidamente a procura. A capacidade de resposta da produção continuará condicionada pela reduzida irrigação, acesso limitado a sementes melhoradas, baixa mecanização, perdas pós-colheita e insuficiência de sistemas de armazenamento e transporte refrigerado.

As alterações climáticas acrescentam riscos. Temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas, secas, cheias e propagação de pragas afectam culturas sensíveis e podem reduzir a estabilidade do abastecimento.

A horticultura exige maior precisão no controlo da água, sanidade vegetal, colheita e conservação. Quando estas condições não estão disponíveis, o produtor enfrenta riscos elevados de perda, enquanto o consumidor recebe produtos mais caros e com menor regularidade.

O défice projectado não constitui apenas um problema de agricultura. Tem implicações para a saúde pública, produtividade do trabalho, desenvolvimento infantil, rendimento rural e despesa das famílias.

Produtividade Cresce Menos De 1% Por Ano

Um dos principais constrangimentos identificados pela FAO é o baixo crescimento dos rendimentos agrícolas. A produtividade da horticultura aumentou menos de 1% por ano, ficando abaixo da evolução observada na produção de cereais.

Qu Dongyu relacionou este desempenho com o reduzido investimento em investigação, melhoramento genético e infra-estruturas. Embora exista crescente inovação no sector, a sua distribuição permanece desigual entre países, empresas e categorias de produtores.

A investigação agrícola permitiu desenvolver variedades mais produtivas, resistentes a doenças e adaptadas a diferentes condições climáticas. Sistemas de irrigação de precisão, sensores, inteligência artificial e biotecnologia podem melhorar a utilização da água, prever pragas, seleccionar períodos de colheita e reduzir perdas.

A parceria entre a FAO e a Agência Internacional de Energia Atómica já contribuiu para o desenvolvimento de mais de 3.400 variedades de plantas através de técnicas de mutação induzida, abrangendo 70 espécies.

A existência da tecnologia, porém, não significa que esta chegue aos produtores. O custo dos equipamentos, a escassez de assistência técnica, limitações de conectividade e falta de financiamento impedem a sua adopção em muitas zonas rurais.

Pequenos Produtores Permanecem No Centro Da Transformação

Na Ásia e na África Subsaariana, as explorações com menos de 20 hectares representam mais de 80% das unidades produtivas, segundo a FAO. Qualquer estratégia de modernização da horticultura que não incorpore estes produtores terá alcance económico e social limitado.

Qu Dongyu defendeu que nenhuma inovação, política ou investimento terá sucesso sem o conhecimento, confiança e participação dos agricultores.

A integração dos pequenos produtores exige mais do que distribuição de insumos. Pressupõe serviços de extensão, assistência técnica continuada, organizações de produtores, acesso ao financiamento, informação sobre mercados e mecanismos de partilha do risco.

Contratos de fornecimento com supermercados, hotéis, empresas processadoras e programas de alimentação escolar podem criar procura estável. Contudo, os produtores precisam de cumprir requisitos de volume, qualidade, segurança alimentar e regularidade.

A organização em cooperativas ou associações pode ajudar a agregar a produção, reduzir custos de transporte, negociar melhores condições e partilhar equipamentos de conservação e processamento.

A agricultura digital pode igualmente ampliar o acesso à informação sobre clima, preços, compradores e técnicas de cultivo. Para produzir resultados inclusivos, as soluções devem ser acessíveis, adaptadas às línguas e condições locais e acompanhadas por formação prática.

Cadeia De Frio Determina Quanto Chega Ao Mercado

A horticultura possui elevada exposição a perdas pós-colheita. Frutas e hortícolas deterioram-se rapidamente quando permanecem demasiado tempo sem refrigeração, embalagem adequada ou transporte eficiente.

Uma parcela do que é produzido nunca chega ao consumidor. O produtor perde rendimento, o comerciante incorpora o risco no preço e o mercado recebe uma quantidade inferior à colhida.

A construção de cadeias de frio pode prolongar a vida comercial dos produtos, permitir transporte para mercados mais distantes e reduzir oscilações sazonais. Câmaras frigoríficas, armazéns, embalagens, centros de agregação e transporte refrigerado são, por isso, componentes produtivos, e não apenas logísticos.

A energia representa um dos principais custos destes sistemas. Soluções descentralizadas baseadas em energia solar podem viabilizar conservação em zonas rurais afastadas da rede eléctrica, sobretudo quando associadas a modelos partilhados de utilização.

O processamento constitui outra alternativa para reduzir perdas. Frutas podem ser transformadas em sumos, polpas, compotas ou produtos secos, enquanto hortícolas podem ser congelados, desidratados ou preparados para consumo institucional.

Ao prolongar o período de utilização, o processamento permite absorver excedentes, estabilizar preços e criar novas actividades industriais nas zonas de produção.

Moçambique Pode Transformar Horticultura Em Cadeia Agro-Industrial

Moçambique dispõe de condições agroecológicas para produzir diferentes frutas e hortícolas ao longo do ano. A diversidade climática, os recursos hídricos, a extensão das áreas cultiváveis e a proximidade de mercados urbanos e regionais constituem uma base relevante para a expansão do sector.

A oportunidade não se limita ao abastecimento doméstico. A horticultura pode apoiar a substituição de importações, fornecer hotéis e restaurantes, abastecer a indústria alimentar e ampliar exportações para os mercados da África Austral, Médio Oriente e Ásia.

Para realizar esse potencial, a produção precisa de ser organizada em função do mercado. A escolha das culturas, calendários, volumes e padrões de qualidade deve partir de informação sobre a procura e de compromissos comerciais suficientemente previsíveis.

Regadios, sementes certificadas, extensão rural, financiamento e controlo fitossanitário são condições básicas. A estas devem juntar-se centros de agregação, laboratórios, certificação, cadeia de frio, transporte e unidades de processamento.

Os corredores logísticos de Maputo, Beira e Nacala podem aproximar as zonas produtivas dos mercados regionais e internacionais. A vantagem geográfica terá maior valor quando os produtos conseguirem chegar aos portos e fronteiras com qualidade preservada, documentação adequada e custos competitivos.

Crescimento Deve Ser Medido Pelo Alimento Que Chega À Mesa

O mercado global de US$ 1,4 biliões demonstra que a horticultura deixou de ser uma actividade secundária dentro da agricultura. O sector combina valor comercial, emprego intensivo, nutrição, resiliência climática e possibilidades de industrialização rural.

Os indicadores apresentados pela FAO mostram também que o crescimento económico não está a resolver automaticamente o défice nutricional. A produção aumenta, o comércio expande-se e os preços sobem, mas o consumo permanece abaixo das necessidades de saúde.

Para os países da África Subsaariana, a próxima etapa exige investimento simultâneo na exploração agrícola e nas actividades que ligam a colheita ao consumidor. Aumentar a produtividade sem reduzir as perdas manterá limitada a oferta. Construir infra-estruturas sem organizar os produtores poderá gerar capacidade subutilizada. Promover exportações sem assegurar o mercado interno poderá ampliar o valor comercial sem melhorar a alimentação.

A horticultura pode tornar-se uma das cadeias mais importantes para a transformação agrícola de Moçambique. O seu contributo deverá ser avaliado pelo rendimento criado nas zonas rurais, pelas empresas desenvolvidas, pelos produtos processados, pelas exportações conquistadas e, sobretudo, pela quantidade de alimentos saudáveis que consegue colocar, a preços acessíveis, na mesa das famílias.

Fonte: O Económico

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