InícioRevistaEconomiaCrise em Ormuz relança gás moçambicano e desafia Governo a garantir segurança

Crise em Ormuz relança gás moçambicano e desafia Governo a garantir segurança

Maputo, 28 de Agosto (AIM) – A vulnerabilidade do Estreito de Ormuz está a colocar novamente o gás de Moçambique no radar dos grandes investidores internacionais, enquanto o Governo é desafiado a garantir segurança em Cabo Delgado e o sector privado prepara-se para disputar uma fatia das oportunidades abertas pelo possível avanço do projecto Rovuma LNG, avaliado em cerca de 30 mil milhões de dólares norte-americanos.

É neste novo contexto que o Rovuma LNG, liderado pela norte-americana ExxonMobil, volta a ganhar protagonismo. A multinacional norte-americana retomou passos preparatórios para a construção da fábrica de GNL em Cabo Delgado, depois de anos de incerteza, e os novos movimentos são interpretados como sinal mais forte, até agora, de que o megaprojecto poderá finalmente avançar para a Decisão Final de Investimento.

Moçambique surge com uma vantagem estratégica, possui enormes reservas de gás natural na Bacia do Rovuma e encontra-se geograficamente distante do epicentro da actual tensão no Golfo, o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do comércio mundial de petróleo e gás.

É esta combinação entre recursos abundantes e necessidade global de diversificação que pode devolver força ao gás moçambicano.

A ExxonMobil já adjudicou cerca de 1,1 mil milhões de dólares em contratos de pré-investimento para equipamentos destinados ao Rovuma LNG. Entre os sinais mais recentes está também um contrato de cerca de 250 milhões de dólares para fornecimento de tubagem, indicando que a multinacional está a preparar o terreno para uma eventual fase de implementação. Refere o comunicado partilhado ha dias pela empresa.

A empresa assinou igualmente, no início deste mês, um contrato não vinculativo de engenharia e aquisição com um grupo de empreiteiros liderado pela italiana Saipem.

O projecto, que envolve a ExxonMobil como operadora, conta com a participação da italiana Eni, da chinesa CNPC, da sul-coreana Kogas e da XRG, de Abu Dhabi, tem um custo estimado em cerca de 30 mil milhões de dólares.

Finalmente, a Decisão Final de Investimento, inicialmente prevista para o final de 2025, pode acontecer no presente ano 2026.

Mas a oportunidade criada pela turbulência internacional encontra, em Moçambique, um obstáculo conhecido, a segurança em Cabo Delgado.

Alex Munton, director de gás e GNL globais do Rapidan Energy Group, considera que as questões de segurança no nordeste de Cabo Delgado, onde está localizado o projecto da ExxonMobil, continuam “críticas, mas controláveis”.

Para o especialista, o actual contexto internacional reforça o argumento da diversificação das fontes de abastecimento, sobretudo perante perturbações de duração indeterminada no fornecimento de GNL proveniente do Golfo do Médio Oriente.

“O principal factor impulsionador neste momento é a diversificação do abastecimento, num contexto de perturbações de duração indeterminada no fornecimento de GNL proveniente do Golfo do Médio Oriente”, vinca a fonte.

A questão, contudo, é saber se Moçambique conseguirá oferecer aos investidores aquilo que o mercado internacional procura, gás competitivo, infra-estruturas funcionais e, acima de tudo, um ambiente seguro e previsível para investimentos de dezenas de milhares de milhões de dólares.

A AIM questionou o Governo e o sector privado sobre os novos desenvolvimentos do projecto, incluindo as condições de segurança em Cabo Delgado.

Questionado pela AIM, durante a última sessão do Conselho de Ministros realizada na província de Manica, sobre a situação de segurança em Cabo Delgado e os avanços da ExxonMobil rumo à decisão final de investimento, o porta-voz do Governo, Salim Valá, afirmou existirem fortes indicações de que a multinacional norte-americana poderá anunciar ainda este ano a sua decisão.

“Há fortes indicações. Os contactos são estabelecidos, é muito perceptível esta posição de que é preciso avançar com este programa”, disse.

A eventual decisão final da ExxonMobil poderá representar uma nova viragem para a indústria de gás natural moçambicana e para a economia nacional, sobretudo depois dos sucessivos atrasos provocados pela instabilidade no norte do país.

Valá deixou claro que a segurança continua a ser uma questão central. O porta-voz do Governo rejeitou qualquer interpretação de que o terrorismo tenha terminado em Moçambique, sublinhando que se trata de um fenómeno complexo e com dimensão transfronteiriça.

“Não houve, daquilo que tenho acompanhado, nenhum posicionamento do Governo a referir que a situação do terrorismo está terminada em Moçambique”, disse.

Ao mesmo tempo, Valá considerou que a situação está controlada, destacando as medidas adoptadas pelas autoridades para conter o fenómeno e reduzir progressivamente os seus efeitos.

A preocupação com a segurança foi igualmente assumida pelo Presidente da República, Daniel Chapo, durante o discurso de abertura da reunião de quadros da Frelimo, em Chimoio.

O Chefe de Estado reconheceu que Moçambique ainda enfrenta desafios relacionados com a paz e estabilidade em alguns distritos de Cabo Delgado e garantiu que o Governo continuará a procurar soluções para devolver a tranquilidade à província.

“Continuaremos dia e noite, segunda a segunda, a buscar todos os mecanismos possíveis para devolver a paz efectiva em Cabo Delgado”, assegurou.

Chapo classificou a segurança da província como uma prioridade nacional, associando directamente a estabilização de Cabo Delgado à possibilidade de acelerar o desenvolvimento económico.

Enquanto o Governo concentra-se na segurança, o sector privado já começa a olhar para a possível retoma do Rovuma LNG como uma oportunidade concreta.

Questionado pela AIM, o presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, revelou que a ExxonMobil já reservou cerca de 4 mil milhões de dólares para conteúdo local no âmbito do projecto.

Para o empresariado nacional, trata-se de uma oportunidade de dimensão inédita para participar nas cadeias de fornecimento associadas ao megaprojecto.

Massingue destacou particularmente o contrato de 250 milhões de dólares para aquisição de tubagem.

“Vimos hoje também que adjudicaram um contrato de 250 milhões de dólares norte-americanos só para comprar a tubagem. Significa que já estão a preparar-se para entrar. Já é um bom sinal para Moçambique”, disse.

A CTA, contudo, não vê a oportunidade como um negócio garantido para as empresas nacionais. O desafio, segundo Massingue, é preparar o sector privado para responder aos rigorosos requisitos técnicos, financeiros e de qualidade impostos pela ExxonMobil.

A reserva de aproximadamente 4 mil milhões de dólares para conteúdo local poderá tornar-se uma das maiores oportunidades de sempre para empresas moçambicanas ligadas à cadeia de fornecimento do sector de petróleo e gás.

Massingue revelou que a ExxonMobil esteve recentemente na CTA e acordou com a confederação trabalhar conjuntamente na promoção do conteúdo local.

“Já há cerca de quatro mil milhões de dólares norte-americanos reservados para o conteúdo local. O que nós temos que fazer é ficar atentos às oportunidades que são divulgadas pelo nosso Bureau de Conteúdo Local, que existe na CTA”, assegurou.

O presidente da CTA apelou às empresas nacionais para que não esperem pelo início formal do projecto para se prepararem. “As empresas têm que estar preparadas para cumprir aqueles critérios que foram estabelecidos para terem acesso aos negócios”, advertiu.

A preparação deverá incluir formação, certificação, reforço da capacidade financeira, melhoria da qualidade dos serviços e estabelecimento de parcerias capazes de permitir às empresas nacionais competir com fornecedores internacionais.

(AIM)
Paulino Checo

 

Fonte: aimnews

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