Resumo
José Saramago comprou uma casa em Lanzarote, exilando-se do governo de Cavaco Silva, e trouxe uma oliveira do Alentejo para fazer dela um símbolo de Portugal. Num restaurante em Aventura, entre Palm Beach e Miami, uma imponente oliveira também do Alentejo decora o espaço, evocando a identidade portuguesa antes mesmo dos pratos típicos serem servidos. Tanto Saramago como o Old Lisbon sentiram a necessidade de ter algo que representasse a ideia de "casa", e a presença da oliveira parece ser a escolha perfeita para transportar a memória das pessoas para Portugal.
Da janela, o escritor tinha uma paleta de cores de fazer inveja a qualquer pintor: o verde da natureza, o cinzento das areias vulcânicas e o azul infinito do mar. Era um postal perfeito, mas faltava-lhe algo.
Faltava-lhe aquele pedaço de chão que gritasse «casa».
A solução? Uma oliveira. Uma pequenina oliveira, ainda bebé, que Saramago trouxe do seu Alentejo, numa viagem de avião, dentro de um vaso estoicamente entalado entre as pernas.
Um futuro prémio Nobel a fazer de estufa humana a dez mil metros de altitude é uma imagem deliciosa. Mas vale tudo, quando queremos ter um bocadinho de Portugal connosco.
Ora esta história veio-me à memória quando ontem parámos no Old Lisbon, em Aventura, a meio caminho entre Palm Beach e Miami.
O restaurante respira Portugal por todos os poros, mas o que rouba imediatamente a atenção não é o quadro da Ponte 25 de Abril, nem os azulejos fadistas.
É, lá está, uma imponente oliveira plantada bem no centro da sala, a espalhar os seus ramos sobre as mesas como quem abraça os clientes.
Ao contrário da árvore de Saramago, que viajou em classe turística, esta - encontrada também no Alentejo - veio de barco, já adulta e de raízes feitas.
Uma emigrante de peso, literalmente.
O propósito, contudo, é exatamente o mesmo. Tal como o escritor em Lanzarote, também o Old Lisbon sentiu que lhe faltava alguma coisa que gritasse «casa».
Alguma coisa que transportasse a memória das pessoas para Portugal, mesmo antes do cheiro a alho e azeite ou do sabor do bacalhau chegarem à mesa.
E, pensando bem, fará todo o sentido.
Podemos exportar a saudade, o fado e a gastronomia, mas haverá, no meio de tudo isto, alguma coisa mais teimosamente portuguesa do que uma oliveira?
Fonte: TVI






