Resumo
O Iraque estreia-se no Mundial de 2026 contra a Noruega, sendo a primeira participação desde 1986. Enquanto enfrentam um grupo forte com França e Senegal, a CNN Portugal recorda a Taça da Ásia de 2007, onde a equipa iraquiana, liderada pelo treinador português Jorvan Vieira, teve sucesso apesar das condições adversas devido à guerra no país. Jorvan escolheu treinar o Iraque, apesar dos desafios, devido à qualidade dos jogadores e à sua experiência no mundo árabe. A preparação para o torneio incluiu períodos no Iraque, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, com apoio destas federações. Jorvan relembra os tempos difíceis no Iraque, com bombas diárias e treinos limitados, mas destaca a liderança e qualidade dos jogadores como chave para o sucesso.
Os Leões da Mesopotâmia terão uma dura tarefa pela frente naquele que é talvez o grupo mais forte da competição, que contém também a França e o Senegal.
Neste dia, a CNN Portugal decide relembrar o maior feito de sempre do futebol iraquiano. Corria o ano de 2007 e o país estava a sofrer o quarto ano de invasão por parte das tropas americanas, que matou mais de um milhão de pessoas ao longo de pouco menos de uma década. Foi nesse difícil contexto que a seleção iraquiana embarcou para o Sudeste Asiático para a Taça da Ásia de há 19 anos.
A comandar a seleção estava um português, Jorvan Vieira. Nascido no Brasil, filho de pais portugueses e atual residente do norte do país, Jorvan partiu muito cedo para o mundo árabe, no final dos anos 70. A carreira até então tinha-se dividido principalmente entre o Norte de África e a Arábia, tendo tido também passagens por Farense, Macedo de Cavaleiros e Paredes no nosso país.
Jorvan atende-nos à segunda. Pede desculpa: estava a falar com a mulher, que está no Catar com o filho. Na altura da conversa, o Irão estava a bombardear fortemente os países do Golfo Pérsico, numa retaliação pelos ataques americanos, e os espaços aéreos da região estavam encerrados. Uma realidade que, infelizmente, não era estranha ao treinador português.
O convite para treinar o Iraque surge quando estava na Arábia Saudita, já no ano de 2007. Fez um bom trabalho no Al-Tai, clube da primeira divisão, e tinha duas propostas para sair.
“Um empresário convidou-me para sair do Al-Tai. Havia duas propostas, uma de um dos grandes da Arábia Saudita e outra do Iraque. A do Iraque pagava cerca de metade, mas eu escolhi o Iraque. Já era conhecedor do mundo árabe e conhecia a qualidade dos jogadores iraquianos”, conta à CNN Portugal. “A seleção iraquiana já estava apurada para a Taça da Ásia. Eu fui porque sabia que alguma coisa poderia ser feita. Eles tinham muito bons jogadores, era uma questão de liderança”.
As semanas que antecederam a competição não foram nada fáceis devido aos escassos meios da federação iraquiana, mas contaram com a ajuda dos Emirados Árabes Unidos e da Jordânia. A preparação incluiu 10 dias no Iraque, 10 dias nos EAU e 10 dias na Jordânia, sendo que estes dois últimos períodos foram oferecidos pelas duas federações locais.
“Aceitei o convite sem saber, na verdade, o que era uma guerra. Já tinha passado por uma situação parecida – estava no Kuwait quando foi a invasão do Saddam Hussein –, mas nada que se compare”, conta-nos.
Jorvan vivia na Green Zone, uma área protegida da capital iraquiana. Ainda assim, confessa, os dias no Iraque foram muito complicados. “Eram bombas todos os dias. Quando estávamos no nosso estágio no Iraque, em Bagdade, só podíamos treinar de manhã. Ao meio-dia tínhamos de nos recolher todos porque as coisas começavam a complicar-se a partir daí. Foi muito difícil. Só caí na realidade depois de estar lá”.
Foi também muito difícil pegar na equipa e motivar os jogadores. “Todos já tinham perdido algum ente querido, seja irmão, irmã, pai, tio, primo. Alguém da família deles já tinha morrido na guerra. Foi muito difícil. Eu criei um slogan que era ‘temos de ganhar para colocar um sorriso nos lábios dos iraquianos’”.
Antes da saída para o último estágio antes da competição, Jorvan viveu de perto o momento em que um dos jogadores, o guarda-redes Noor Sabri, titular da seleção, recebeu uma notícia que ninguém quer receber. “Estávamos no aeroporto e iríamos sair no dia seguinte. Vejo o meu guarda-redes pegar no telefone. Estava encostado à parede, e, de repente, cai para o chão. O irmão tinha sido assassinado. Disse-lhe ‘se tu quiseres voltar, podes voltar, não há problema’. Era o guarda-redes titular, o Noor. Ele respondeu-me ‘coach, eu vou voltar para me matarem? Eu vou ficar aqui’”.
Apesar de todos os contratempos, o treinador português estava plenamente confiante de que o Iraque poderia vencer a competição, certeza que mantinha desde o momento em que assinou o contrato. “No momento da assinatura, virei-me para o presidente da federação e disse ‘o senhor não pôs aqui prémio de passagem da fase de grupos, quartos-de-final, meias-finais e final’. E ele respondeu-me ‘Mr. Vieira, nós nunca ganhámos nada, nem sequer passámos dos quartos-de-final’. Eu tinha uma convicção muito grande de que alguma coisa seria feita, tanto que na primeira reunião com os jogadores eu disse-lhes que tinha vindo para ser campeão. Acharam estranho e pensaram que eu era doido”.
O sorteio ditou que o Iraque iria jogar a partida de abertura da competição contra a Tailândia em Banguecoque. A experiência não foi a melhor. “Foi a cerimónia de abertura, houve festival no campo, músicas, e ainda por cima caiu um temporal, como é costume na Tailândia, mas um temporal… foi um dilúvio. Jogámos com o campo encharcado, eu e os jogadores ficámos totalmente encharcados, foi um jogo muito difícil. Os tailandeses marcaram primeiro, mas nós empatámos e o jogo acabou empatado, o que não deu a menor satisfação aos iraquianos”.
O resultado colocou o técnico português sob pressão. Antes do segundo jogo, contra a Austrália, foi avisado por alguém da federação “que gostava muito de mim” de que os principais dirigentes da instituição estavam a preparar a sua substituição. Jorvan Vieira antecipou-se. Na conferência de imprensa de antevisão da partida, afirmou que sabia da intenção da federação iraquiana e lançou um desafio: ou o despediam naquela altura ou não teriam mais oportunidades para o fazer até ao final da competição uma vez que iriam vencer a Austrália, seleção megafavorita que contava com nomes como Mark Viduka, Harry Kewell, Tim Cahill e Mark Schwarzer. “Houve jornalistas que se riram, não acreditavam, principalmente os iraquianos”.
Jorvan cumpriu a promessa. O Iraque venceu a Austrália de forma convincente, por 3-1. Na jornada final, o Iraque empatou com Omã a zero e beneficiou da vitória dos socceroos sobre a Tailândia para conseguir o primeiro lugar do grupo, com cinco pontos, e jogar a partida seguinte no mesmo país.
Nos quartos de final enfrentou um dos anfitriões, o Vietname. A vitória por 2-0 garantiu que o Iraque iria pelo menos igualar a sua melhor prestação na Taça da Ásia, o quarto lugar em 1976. As meias-finais iriam ser na Malásia contra a Coreia do Sul, mas a viagem até Kuala Lumpur também teve imprevistos.
“Íamos ficar nos mesmos quartos da seleção do Irão, que jogou os quartos de final na Malásia. Mas eles recusavam-se a sair, jogaram contra a Coreia do Sul e achavam que tinham sido roubados. Ficámos cinco horas à espera na receção para que libertassem os quartos”, diz Jorvan. “Tínhamos treino no mesmo dia. Mandei os jogadores equiparem-se na sala de reuniões do hotel e fomos para o campo. Voltámos do treino era quase meia-noite, só comemos quase à uma da manhã”.
Problema resolvido, era hora de jogar contra a Coreia do Sul. O encontro foi difícil, mas o objetivo foi cumprido no desempate por grandes penalidades. O Iraque estava na final, desfecho em que Jorvan sempre acreditou apesar das dificuldades.
O treinador português lembra-se que teve 12 dias para escolher uma convocatória de entre 58 jogadores. Foram tomadas decisões difíceis e houve até lugar para reabilitar um jogador há muito afastado da seleção, o central Jassim Ghulam.
“Estávamos a treinar na Jordânia e ele veio ter comigo e perguntou-me ‘mister, não me dá uma oportunidade?’. Tinha ido viver para a Jordânia com a mãe e a irmã após o pai ter sido assassinado na guerra. Trabalhava num supermercado e estava muito gordo. Dei-lhe uma oportunidade”, recorda.
Ghulam começou de imediato a trabalhar com o preparador físico da seleção do Iraque. “Ele veio treinar no dia seguinte, cheio de cintas à volta do estômago para esconder a barriga. Os colegas riam-se dele”. O central com o número 2 acabou por desempenhar um papel fundamental na campanha histórica.
Seguia-se a final frente à Arábia Saudita, uma potência continental. Na preparação do encontro, Jorvan Vieira insistiu com os jogadores num detalhe. “A Arábia Saudita cometia muitas vezes um erro nos cantos, deixava sempre o segundo poste descoberto. Treinámos essa situação várias vezes”.
O treino provou-se crucial. Aos 72 minutos, Hawar Mulla Mohammed marca um canto bem para dentro da área saudita. Ao segundo poste apareceu Younis Mahmoud, o capitão, a cabecear para o fundo das redes. O jogo acabou 1-0 e o que parecia impossível aconteceu: o Iraque era campeão asiático. Todo o país saiu à rua para celebrar, esquecendo por momentos o drama que vivia.
O que podia ser o início de sonho para uma relação duradoura entre Jorvan e a seleção iraquiana acabou por não o ser. “[A federação] não me quis pagar. Tive de meter um processo na FIFA, só me pagaram cinco anos depois, em 2012”. Apesar de todos os problemas, Jorvan revela que ainda mantém contacto com todos os jogadores.
O Iraque está num grupo difícil neste Mundial e Jorvan Vieira não acredita que a equipa vá longe. “Têm muito poucas hipóteses. Vai ter de ser mais na vontade, na disposição e na motivação de estarem a disputar um Mundial pela primeira vez em 40 anos”.
“É uma seleção jovem. Muitos jogam fora do Iraque, em divisões secundárias na Europa. Mas acho que não têm a experiência devida, sobretudo quando se compara com a França. Gostaria, seria bom para o país, para dar alegria, mas duvido”, conclui.
Fonte: CNN Portugal




