Maputo, 25 de Agosto (AIM) – Um projecto europeu liderado pela Universidade La Sapienza de Roma, Itália, está a testar soluções de Inteligência Artificial Generativa em cinco países africanos, com a ambição de adaptar a tecnologia às realidades de um continente marcado por limitações de infra-estruturas, forte diversidade linguística e necessidades sociais específicas.
Saúde, agricultura, urbanismo e competências digitais estão no centro da iniciativa GAINAfrica.
Coordenado pela Universidade La Sapienza de Roma, o projecto é financiado pelo programa Horizonte Europa e conta com a participação das empresas italianas Almaviva e Almawave, além de outros parceiros internacionais.
A aposta assenta numa premissa central: a Inteligência Artificial poderá ter um impacto significativo em África se for concebida para funcionar em ambientes onde a conectividade, os recursos tecnológicos e as infra-estruturas continuam a ser limitados.
A GAINAfrica procura demonstrar que os modelos europeus de Inteligência Artificial, assentes em princípios de responsabilidade, inclusão e conformidade regulamentar, podem ser adaptados a contextos muito diferentes dos europeus.
O projecto dá particular atenção a três desafios: infra-estruturas limitadas, multilinguismo e especificidades sociais e culturais.
Em vez de depender exclusivamente de sistemas complexos que exigem conectividade permanente e elevados recursos computacionais, a iniciativa aposta também em soluções tecnológicas mais leves, capazes de funcionar em ambientes com limitações de acesso.
É uma abordagem que poderá ser decisiva para ampliar o acesso às novas tecnologias num continente onde milhões de pessoas continuam afastadas dos serviços digitais avançados.
As experiências estão a decorrer em Uganda, Tunísia, Benim, Marrocos e Egipto, com cada país a funcionar como espaço de experimentação para diferentes aplicações.
Na agricultura, Uganda e Tunísia testam ferramentas destinadas a melhorar a produtividade e a capacidade de resposta dos agricultores.
No Benim, a tecnologia está a ser aplicada à saúde, enquanto Marrocos surge como laboratório para soluções de cidades inteligentes. No Egipto, o foco está no desenvolvimento de competências numéricas através de plataformas de formação apoiadas por Inteligência Artificial.
A estratégia procura, assim, evitar uma solução única para realidades distintas e adaptar cada aplicação às necessidades concretas dos territórios.
No sector da saúde, a GAINAfrica está a desenvolver um sistema de apoio à tomada de decisões clínicas destinado a médicos que trabalham em ambientes da África Subsaariana.
Um dos elementos mais inovadores é a possibilidade de utilizar a ferramenta sem uma ligação permanente à Internet.
A solução, baseada numa arquitectura “offline-first”, foi desenvolvida pelo parceiro OneTreck e está a ser testada no Benim.
A tecnologia poderá assumir particular importância em zonas rurais e comunidades onde a conectividade continua irregular, permitindo aos profissionais de saúde aceder a ferramentas digitais mesmo quando as condições de ligação são precárias.
A GAINAfrica desenvolve uma aplicação móvel multilingue capaz de ajudar a identificar doenças nas culturas e melhorar a gestão da agricultura de precisão.
Testada no Uganda e na Tunísia, a ferramenta combina diferentes fontes de informação, incluindo dados sobre a saúde das mulheres, imagens de satélite e previsões meteorológicas.
A combinação destes dados procura fornecer aos agricultores informação mais precisa para a tomada de decisões, desde a identificação de problemas nas culturas até à gestão dos recursos agrícolas.
Num continente onde a agricultura continua a desempenhar um papel central na economia e no emprego, a aplicação de Inteligência Artificial neste sector poderá ter consequências económicas e sociais relevantes.
No domínio do urbanismo, o projecto está a desenvolver soluções de Inteligência Artificial Generativa destinadas a apoiar a criação de cidades inteligentes.
A atenção está particularmente concentrada nas cidades do Norte de África, incluindo Marrocos, onde o crescimento urbano e a necessidade de modernização das infra-estruturas colocam novos desafios às autoridades.
A proposta passa por adaptar as tecnologias inteligentes às infra-estruturas existentes, procurando encontrar soluções compatíveis com as condições locais, em vez de replicar automaticamente modelos concebidos para cidades europeias.
O quarto eixo da GAINAfrica está relacionado com a formação e o desenvolvimento de competências numéricas.
No Egipto, estão a ser exploradas plataformas de formação baseadas em Inteligência Artificial, concebidas para responder às necessidades específicas dos utilizadores e contribuir para a redução das dificuldades no domínio das competências numéricas.
A aposta reflecte uma preocupação mais ampla do projecto: utilizar a Inteligência Artificial não apenas para automatizar tarefas, mas também para ampliar o acesso ao conhecimento e promover a inclusão digital.
Mais do que demonstrar o potencial da Inteligência Artificial, a GAINAfrica coloca em cima da mesa uma questão decisiva para o futuro tecnológico do continente: como garantir que a revolução da IA é construída com África e não apenas para África?
A resposta do projecto passa pela adaptação tecnológica, pela cooperação internacional e pelo desenvolvimento de soluções concebidas para funcionar em contextos onde os recursos são diferentes dos existentes na Europa.
A experiência de Uganda, Tunísia, Benim, Marrocos e Egipto poderá, por isso, servir de referência para futuras aplicações em outros países africanos.
Se os resultados forem positivos, a iniciativa poderá contribuir para demonstrar que a Inteligência Artificial Generativa não precisa de ser uma tecnologia reservada aos países com maior capacidade tecnológica.
Pelo contrário, devidamente adaptada, poderá tornar-se uma ferramenta para melhorar os serviços de saúde, aumentar a produtividade agrícola, apoiar o planeamento urbano e democratizar o acesso à formação.
(AIM)
Fonte: aimnews







