InícioRevistaInternacionalFIFA quer vender o Mundial? Um explicador para entender tudo

FIFA quer vender o Mundial? Um explicador para entender tudo

A FIFA confirmou em comunicado que está a trabalhar numa das propostas mais polémicas da história do futebol: quer criar uma nova empresa para gerir o lado comercial das suas principais competições, incluindo, naturalmente, os Mundiais de clubes e seleções, e vender parte dessa empresa a investidores privados.

A FIFA garante que o futebol continuará a ser governado por ela própria, sem qualquer interferência dos privados, e que o dinheiro servirá para desenvolver a modalidade em todo o mundo. Mas nem toda a gente acredita nisso. A UEFA, por exemplo, acusa a FIFA de «cruzar uma linha vermelha» e diz que o futebol «não está à venda».

Venha daí perceber o que está em causa neste explicador do Maisfutebol.

Mais ou menos. Quer dizer, a FIFA não pretende vender o Mundial, nem perder a sua propriedade. Mas quer vender os direitos comerciais do Mundial. O plano passa por criar uma empresa comercial - a que chamaria FIFA Forward Enterprise (FFE) -, que seria a responsável pela gestão dos direitos comerciais das principais competições, como os Mundiais masculino e feminino, o Mundial de Clubes e os torneios jovens. Depois disso, venderia uma participação minoritária dessa empresa a investidores privados. 

Será essa tal nova empresa para gerir toda a vertente comercial da FIFA. Ou seja, ficaria responsável por vender ativos financeiramente importantes, como os direitos televisivos, os patrocínios, a bilheteira, o licenciamento e o merchandising.

A ideia, garante mais uma vez a FIFA, é separar a gestão comercial da gestão desportiva. Mantendo ela própria o controlo total da gestão desportiva. As regras do futebol e a organização dos Campeonatos do Mundo, promete, continuariam a ser decididas pelos órgãos da FIFA e nada mudaria na governação do futebol como a conhecemos.

Porque várias instituições, com a UEFA à cabeça, não acreditam que os privados vão investir milhões e milhões de dólares numa empresa sobre a qual não tenham influência, de forma a conseguirem retirar o máximo lucro possível.

Ou seja, é mais ou menos óbvio para a UEFA que os investidores privados irão pressionar a FIFA a tomar decisões que visem o lucro, mesmo que prejudiquem o futebol. Por exemplo, os calendários: quanto mais campeonatos, mais dinheiro. Ou o número de participantes: quanto mais jogos, mais dinheiro. Ou escolher os países organizadores obedecendo apenas a um critério: o potencial financeiro. Ou até aumentar a influência comercial sobre decisões tradicionalmente desportivas O que desvirtuaria o futebol e as competições, com um único propósito: dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Para além disso, abrir a porta à entrada de privados pode significar que se está a abrir a porta a fundos sem transparência suficiente e que, como acontece em todas as áreas que movimentam muito dinheiro, tragam práticas pouco claras.

A FIFA basicamente responde com... dinheiro. Diz que essa tal nova empresa foi avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares, o que permitirá receber no imediato 4,2 mil milhões de dólares pela venda de uma participação minoritária. Segundo Gianni Infantino, todos esses 4,2 mil milhões serão reinvestidos no desenvolvimento do futebol, sendo distribuído por cada uma das 211 federações nacionais que compõem a FIFA. O organismo garante que cada federação nacional poderia receber no imediato até um máximo de 20 milhões de euros. De resto, a participação nesta nova empresa, e o acesso a esta receita, seria voluntária: os países que não o quisessem fazer, eram livres de ficar de fora.

Infantino defende que existe enorme desigualdade no futebol. Na sua visão, os grandes campeonatos e clubes concentram quase toda a riqueza gerada, enquanto centenas de federações vivem com recursos muito limitados.

Nesse sentido, argumenta que a receita gerada pela venda desta estrutura comercial seria distribuída equitativamente por todos os países, independentemente do tamanho ou localização de cada um, com o único propósito de desenvolver o futebol em todo o mundo: construir novos estádios, centros de treino nacionais e outras infraestruturas de longo prazo.

Basicamente a FIFA divide esse processo em várias fases. No imediato, os privados pagariam 4,2 mil milhões de euros, que permitiram entregar a cada país um montante de até 20 milhões de dólares, «a título de financiamento excecional e imediato para projetos especiais».

No prazo de quatro anos, a empresa pagaria mais 10 mil milhões de euros. A FIFA promete então distribuir 20 milhões de dólares por cada federação nacional para o período de 2027 a 2030, mais 22 milhões de dólares por cada federação para o período de 2031 a 2034, e por fim 24 milhões de dólares para o período de 2035 a 2038

Ou seja, cada país receberia 86 milhões de euros nos próximos doze anos. Convém recordar, no entanto, que estas são as contas de Infantino... a 12 anos. E numa altura em que a empresa ainda nem sequer tem autorização para ser criada.

Pois, ainda não se sabe. A verdade é que já há muita gente envolvida. A FIFA diz que há vários investidores que já manifestaram interesse e que a Thrive Eternal, uma sociedade gestora de participações de capital permanente, vai liderar esse grupo de investidores. Também já contratou a JP Morgan para trabalhar com ela e contratou o consultor comercial que este envolvido na aquisição da Fórmula 1.

No entanto, a FIFA não poderá dar este passo sozinha. A empresa só avança se tiver o apoio da maioria das 211 federações nacionais e se as alterações estatutárias necessárias forem aprovadas em sede de Conselho da FIFA. São dois obstáculos que o projeto precisa de ultrapassar, e não será fácil. Portanto nesta altura, a empresa é uma proposta e não uma decisão.

Basicamente porque, na ótica da UEFA, só a ideia de se pensar num projeto destes já é perigosa. Além disso, por exemplo, a Thrive Eternal, que vai liderar o grupo de investidores, é um fundo liderado pelo empresário Joshua Kushner, irmão do marido de Ivanka Trump: isso mesmo, a filha de Donald Trump.

«A alma e a governação do futebol não são ativos para serem negociados - especialmente quando não existe transparência sobre quem beneficia financeiramente. Ninguém é dono do futebol. Não cabe à FIFA vendê-lo», sublinhou a UEFA, desafiando todas as partes interessadas - «ligas, clubes, jogadores, adeptos e governos» a levarem este assunto muito a sério.

 

Fonte: TVI

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