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Grafite: Produção Ultrapassa Em 89% Meta Anual No Primeiro Trimestre

Resumo

Moçambique produziu 28.018 toneladas de grafite no primeiro trimestre de 2026, superando em 89% a previsão anual. A recuperação da produção mineira reflete a estabilização das operações, com destaque para o principal produtor nacional em Balama, Cabo Delgado, e a entrada de uma nova empresa no Niassa. Apesar do forte início de ano, a manutenção do ritmo ao longo de 2026 não é garantida devido a ciclos de preços e logística. O grafite destaca-se como mineral com potencial para impulsionar as exportações e a participação de Moçambique na transição energética. Após anos de instabilidade, a produção de grafite atingiu 28.018 toneladas no primeiro trimestre de 2026, evidenciando a importância de Balama e o potencial do setor mineiro moçambicano.

Questões-Chave

Moçambique produziu 28.018 toneladas de grafite no primeiro trimestre de 2026, um volume que ultrapassa em 89% a previsão de 14.814 toneladas estabelecida para todo o ano. Os dados constam de um balanço governamental sobre a produção mineira no período e traduzem uma recuperação expressiva de uma actividade que, nos últimos anos, foi marcada por interrupções operacionais, instabilidade e forte oscilação dos volumes exportáveis.

Segundo a informação oficial, o desempenho foi influenciado pela maior regularidade operacional do principal produtor nacional e pela entrada de uma nova empresa no mercado, na província do Niassa. No conjunto, a produção realizada entre Janeiro e Março correspondeu a 189% da meta anual programada, revelando não apenas um arranque de ano acima das previsões, mas também uma subestimação relevante da capacidade de resposta do sector.

O resultado deve, contudo, ser interpretado com prudência. Um trimestre forte não garante automaticamente a manutenção do mesmo ritmo durante o resto do ano, sobretudo num mercado sujeito a ciclos de preços, exigências de logística, financiamento e procura internacional. Ainda assim, o desempenho do primeiro trimestre constitui um sinal claro de que o grafite voltou a afirmar-se como um dos minerais com maior potencial para reforçar as exportações mineiras e a inserção de Moçambique nas cadeias de fornecimento associadas à transição energética.

Recuperação Depois De Um Ciclo De Instabilidade

A trajectória recente da produção nacional ajuda a dimensionar o significado do resultado agora alcançado. Em 2022, Moçambique registou um máximo de 165.900 toneladas de grafite. No ano seguinte, a produção caiu para 97.300 toneladas e, em 2024, reduziu-se para apenas 34.900 toneladas, uma contracção de cerca de 64%, num contexto de suspensão ou redução de actividade em algumas operações.

Em 2025, o país recuperou parcialmente, produzindo 67.078 toneladas. O ano começou, porém, condicionado pela paralisação da principal unidade produtora em Balama, na província de Cabo Delgado, na sequência dos protestos que se seguiram às eleições gerais de Outubro de 2024. A ausência de produção no primeiro trimestre daquele ano teve um impacto directo no desempenho anual, apesar da retoma posterior das operações.

É neste contexto que as 28.018 toneladas produzidas no primeiro trimestre de 2026 ganham particular relevância. O resultado sugere que a actividade em Balama voltou a desempenhar o papel de principal âncora produtiva do sector, agora complementada pela entrada de novas capacidades na região norte do país.

A Syrah Resources, operadora de Balama, classifica o empreendimento como uma das maiores reservas mundiais de grafite natural. A empresa indica que a unidade possui capacidade instalada para produzir cerca de 350 mil toneladas de grafite por ano, com uma vida útil estimada em várias décadas. A dimensão da operação explica a influência que a sua estabilidade tem sobre os indicadores nacionais de produção, exportação e receitas mineiras.

Niassa Acrescenta Capacidade De Processamento

O segundo elemento determinante para o resultado do primeiro trimestre é a entrada em funcionamento da unidade da DH Mining, no distrito de Nipepe, província do Niassa. Inaugurada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, em Janeiro deste ano, a fábrica representa uma mudança relevante na natureza da presença moçambicana no sector.

Com investimento estimado em cerca de US$ 200 milhões e capacidade anual projectada de 200 mil toneladas, a unidade combina actividades de exploração, beneficiação e processamento de grafite. A sua instalação introduz uma dimensão industrial que vai além da simples extracção e exportação de minério, criando condições para que parte superior do valor seja retida no país.

A empresa prevê que o número de trabalhadores possa ultrapassar dois mil na segunda fase do projecto. Para Niassa, onde a distância dos grandes centros económicos e as limitações de infra-estruturas continuam a condicionar a industrialização, o investimento pode funcionar como catalisador de emprego, formação técnica, serviços logísticos e dinamização das economias locais.

Na inauguração da unidade, o Chefe do Estado sublinhou que o país pretende abandonar gradualmente o modelo histórico de exportação de matérias-primas, consolidando-se como produtor, processador e exportador de minerais com maior grau de transformação. O desafio será assegurar que esta ambição se traduza em cadeias produtivas locais mais densas, oportunidades para empresas moçambicanas e maior incorporação de conhecimento tecnológico.

Um Mineral No Centro Da Competição Global

O grafite ocupa hoje uma posição estratégica na economia mundial. É utilizado em diversas aplicações industriais, mas ganhou importância acrescida com a expansão das baterias de iões de lítio, empregues em veículos eléctricos, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos tecnológicos.

De acordo com estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, a produção mundial de grafite natural terá atingido cerca de 1,8 milhões de toneladas em 2025. A China respondeu por aproximadamente 1,4 milhões de toneladas, confirmando a elevada concentração da oferta e, sobretudo, da capacidade global de processamento do mineral.

Esta concentração tem levado economias como os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul a procurar fontes alternativas de fornecimento e a investir em cadeias de valor fora da China. Neste contexto, Moçambique surge como um fornecedor estratégico, não apenas pelas reservas existentes, mas também pela possibilidade de integrar projectos de processamento e fornecimento para mercados de baterias e tecnologias avançadas.

A relevância de Balama neste quadro foi reforçada, em Março, pela U.S. International Development Finance Corporation, que classificou a mina como fornecedora crítica de grafite natural para os Estados Unidos e países aliados. A instituição norte-americana salientou que o grafite proveniente de Moçambique pode alimentar a unidade de materiais anódicos da Syrah em Vidalia, no estado norte-americano da Louisiana, destinada à produção de componentes para baterias de iões de lítio.

A ligação entre Balama e Vidalia ilustra o novo significado económico do grafite: o recurso deixou de ser apenas um produto mineiro de exportação e passou a integrar uma disputa mais ampla pela segurança das cadeias de abastecimento, pela produção de baterias e pela autonomia industrial das grandes economias.

Da Produção Ao Valor Acrescentado

O salto produtivo registado no primeiro trimestre coincide com uma fase em que Moçambique procura reforçar o controlo nacional e o valor económico gerado pelos seus recursos minerais. A nova legislação mineira, aprovada recentemente, estabelece uma participação mínima de 15% do Estado, através da Empresa Nacional de Mineração, nos projectos mineiros ao longo da cadeia de valor, além de reforçar a exigência de processamento local dos minerais.

A orientação vai ao encontro da estratégia de elevar a contribuição efectiva da indústria extractiva para o desenvolvimento nacional. No caso do grafite, a questão central não é apenas produzir mais toneladas, mas produzir com maior transformação, melhores padrões ambientais e sociais, maior participação de fornecedores nacionais e ligações concretas às comunidades anfitriãs.

A consolidação de unidades de processamento em Niassa, a estabilidade operacional em Balama e a crescente procura por fornecedores alternativos no mercado global criam uma janela de oportunidade rara. Mas essa oportunidade exigirá energia fiável, logística competitiva, estradas e corredores de exportação eficientes, mão-de-obra qualificada, previsibilidade regulatória e mecanismos transparentes de partilha dos benefícios gerados pela exploração dos recursos.

O desempenho do primeiro trimestre de 2026 mostra que Moçambique dispõe de capacidade para recuperar rapidamente a produção de grafite. A etapa decisiva será demonstrar que essa recuperação pode ser sustentada e convertida numa plataforma industrial capaz de gerar mais valor dentro do país, reduzindo a dependência da exportação de matéria-prima e reforçando a posição moçambicana num mercado global de minerais críticos cada vez mais competitivo.

Fonte: O Económico

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