InícioRevistaSociedadeLourenço do Rosário homenageado pelo seu legado na educação em Moçambique

Lourenço do Rosário homenageado pelo seu legado na educação em Moçambique

Maputo, 20 de Agosto (AIM) – A educação como força transformadora, o conhecimento como instrumento de desenvolvimento e o diálogo como caminho para a reconciliação. Foi em torno destes três pilares que, em Maputo, se ergueu uma homenagem a uma das figuras mais marcantes da academia e da vida pública moçambicana, Lourenço do Rosário.

O académico, presidente do Conselho de Administração do Grupo Politécnico, fundador, antigo reitor e actual chanceler da Universidade Politécnica, recebeu o Prémio Joaquim Chissano Alumni Estudante Moçambicano em Portugal 2026, distinção atribuída conjuntamente pela Fundação Joaquim Chissano e pela Câmara de Comércio Portugal-Moçambique (CCPM).

Na sua quinta edição, o prémio distingue antigos estudantes moçambicanos formados em Portugal que tenham construído percursos de mérito excepcional e produzido impacto relevante na sociedade. A distinção reconhece, igualmente, contributos nas áreas da investigação, empreendedorismo, solidariedade e no fortalecimento das relações entre Moçambique e Portugal.

Mais do que celebrar um percurso académico, a cerimónia transformou-se num reconhecimento público de décadas de intervenção na educação, cultura, conhecimento e construção de pontes entre diferentes sectores da sociedade moçambicana.

Visivelmente emocionado, Lourenço do Rosário confessou não saber se conseguiria falar perante uma sala onde estavam familiares, colegas, antigos dirigentes, membros da comunidade académica, amigos e figuras ligadas à cultura.

Mas foi precisamente nesse ambiente de afectos e memórias que emergiu uma das dimensões menos conhecidas, mas decisivas, do seu percurso: o papel desempenhado nos esforços de aproximação entre actores políticos durante o conflito político-militar que marcou Moçambique na década de 2010.
Lourenço do Rosário recordou que, em 2012, perante o profundo afastamento entre o então Presidente da República, Armando Guebuza, e o antigo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, recebeu deste último um pedido para estabelecer uma ponte com o Chefe do Estado.

O objectivo era procurar condições para uma aproximação que pudesse conduzir à cessação do conflito.

O processo, segundo relatou, prolongou-se por dois anos, entre 2012 e 2014.

A revelação colocou em evidência uma faceta do académico que ultrapassa os limites das salas de aula e das instituições universitárias: a de mediador e construtor de pontes num dos períodos mais delicados da história política recente de Moçambique.

A homenagem ganhou particular significado com as palavras de Joaquim Chissano, antigo Presidente da República e patrono da fundação que leva o seu nome.

Para Chissano, Lourenço do Rosário é “uma das figuras mais destacadas e interventivas” da vida académica, cultural e política de Moçambique.

O antigo Chefe do Estado destacou sobretudo o papel da Universidade Politécnica, fundada por Lourenço do Rosário, como expressão concreta da sua visão sobre o conhecimento e a formação de quadros.

A instituição, considerou, representa um “factor multiplicador e inovador do conhecimento”, ao permitir que mais moçambicanos tenham acesso à formação e a novas ferramentas de conhecimento.

Mas foi na dimensão política e social que Chissano colocou uma das mais fortes marcas da homenagem.

Reconheceu em Lourenço do Rosário uma personalidade que desempenhou “um papel crucial na facilitação e construção de pontes entre actores políticos desavindos” em diferentes momentos da história de edificação e consolidação da Nação moçambicana.

Por isso, frisou, a distinção não se limita ao reconhecimento de um antigo estudante brilhante.

É também uma homenagem à intervenção transformadora de Lourenço do Rosário na vida política, social e económica do país e à sua defesa persistente da educação, da cultura e do conhecimento como instrumentos de desenvolvimento.

O vínculo com Portugal e, particularmente, com a Universidade de Coimbra, esteve igualmente no centro da cerimónia.

O vice-reitor da Universidade de Coimbra, João Nuno Calvão da Silva, descreveu Lourenço do Rosário como um distinto antigo estudante da Faculdade de Letras daquela instituição, considerando que o seu percurso honra e distingue a própria Universidade de Coimbra.

A sua trajectória académica, salientou, inclui a docência na Universidade Eduardo Mondlane e em outras reputadas universidades internacionais, além da autoria de importantes publicações e de uma intervenção relevante na gestão universitária.

A distinção tornou-se, assim, também uma celebração da relação histórica entre instituições de ensino superior dos dois países.

A ligação entre Moçambique e Portugal deverá ganhar novo impulso em Outubro.

O presidente da Direcção da Câmara de Comércio Portugal-Moçambique, Rui Moreira de Carvalho, anunciou a realização, em Portugal, de uma grande conferência que contará com a presença de Lourenço do Rosário e de Joaquim Chissano.

Para Rui Moreira de Carvalho, trata-se de uma oportunidade para mostrar a capacidade dos docentes e discentes moçambicanos e contribuir para projectar internacionalmente uma imagem de Moçambique à altura do valor dos seus cidadãos.

A iniciativa pretende também reforçar uma relação que, para além dos interesses económicos, assenta em laços históricos, culturais, académicos e linguísticos.

A dimensão humana de Lourenço do Rosário foi igualmente destacada durante a cerimónia.

A apresentadora Inês Machungo considerou-o uma “figura incontornável” na construção do pensamento moçambicano, sublinhando que a grandeza do seu percurso dificilmente poderia ser condensada nos poucos minutos de uma intervenção.

Descreveu-o como um homem solidário, humilde e amigo, mas também como alguém movido por uma visão clara: formar quadros moçambicanos capazes de contribuir para o desenvolvimento do país.

Na sua perspectiva, para Lourenço do Rosário, o homem e a educação encontram-se no centro do desenvolvimento.

Machungo saudou, por isso, a decisão da CCPM e da Fundação Joaquim Chissano de homenagearem uma personalidade cuja vida tem sido marcada pela construção de pontes entre moçambicanos e entre Moçambique e outros povos.

A representação diplomática portuguesa em Moçambique também destacou o significado da distinção.

Para Francisco Calheiros, primeiro secretário da Embaixada de Portugal em Moçambique, Lourenço do Rosário não é homenageado apenas pelo seu percurso individual.

É reconhecido, sobretudo, pelo que esse percurso representa: a força da educação, da cultura e do conhecimento como instrumentos de desenvolvimento e como pontes entre sociedades.

O prémio, afirmou, honra uma trajectória que demonstra que “o conhecimento aproxima” e que “a cultura une”, mantendo a língua portuguesa como uma das mais fortes pontes entre Moçambique e Portugal.

O director da Fundação Joaquim Chissano, Henrique Banze, resumiu uma das ideias centrais da cerimónia: reconhecer as pessoas enquanto estão presentes para receber o reconhecimento.

“É comum falarmos bem das pessoas quando elas já não existem”, observou, defendendo que existe o dever de reconhecer aqueles que, em vida, deram contributos relevantes à sociedade.

Foi esse, segundo Banze, o espírito que levou a Fundação Joaquim Chissano e a CCPM a distinguir Lourenço do Rosário.

A homenagem de Maputo acabou por revelar uma síntese do percurso de Lourenço do Rosário: professor, académico, gestor universitário, fundador de uma instituição de ensino superior, intelectual, homem de cultura e interveniente em momentos decisivos da vida política e social moçambicana.

O Prémio Joaquim Chissano Alumni Estudante Moçambicano em Portugal 2026 reconhece, formalmente, o percurso de um antigo estudante formado em Portugal. Mas, ao longo da cerimónia, ficou claro que o significado da distinção é muito mais amplo.

É o reconhecimento de uma vida dedicada à formação de pessoas, à produção e disseminação do conhecimento e à construção de pontes.

Num país marcado por desafios políticos, sociais e económicos, a homenagem a Lourenço do Rosário recoloca no centro do debate uma ideia que atravessa todo o seu percurso: não há desenvolvimento sustentável sem educação, não há conhecimento sem diálogo e não há construção de uma Nação sem capacidade de aproximar os que pensam de forma diferente.

É esse legado que a distinção procura celebrar.

(AIM)
Redacção

 

Fonte: aimnews

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