Por: Lurdes Almeida
O sector segurador moçambicano movimentou cerca de 12 mil milhões de meticais no primeiro semestre, sinalizando crescimento e maior relevância financeira. Ainda assim, a cobertura continua limitada: apenas 17% dos moçambicanos utilizam seguros, segundo dados do sector.
A baixa penetração mostra que o crescimento do mercado ainda não se traduz em um acesso amplo a instrumentos de protecção financeira. Num país exposto a riscos climáticos, acidentes rodoviários, problemas de saúde e perdas económicas imprevistas, os seguros podem ajudar famílias, empresas e pequenos negócios a reduzir vulnerabilidades e a manter a continuidade das suas actividades.
A diferença entre o volume financeiro movimentado e o reduzido nível de cobertura aponta para um dos principais desafios do sector: alcançar segmentos da população que permanecem fora do mercado formal de seguros. Esse espaço pode ser explorado por meio de produtos mais simples, de canais de distribuição acessíveis e de soluções alinhadas ao perfil dos consumidores.
Nas zonas rurais e nos mercados informais, muitos potenciais clientes têm rendimentos irregulares, acesso limitado à informação financeira e pouca familiaridade com contratos de seguro. Para estes grupos, a expansão da cobertura dependerá de prémios acessíveis, linguagem clara, canais de proximidade e mecanismos de pagamento flexíveis.
A inovação tecnológica surge como uma das vias para aproximar os serviços seguradores de pequenos comerciantes, trabalhadores por conta própria, agricultores e famílias de baixos rendimentos. Produtos de baixo custo, seguros simplificados e plataformas digitais podem reduzir custos operacionais, facilitar a contratação de apólices e simplificar o pagamento dos prémios.
A literacia financeira continua a ser um obstáculo. Para muitos consumidores, o seguro é visto como uma despesa imediata, e não como um instrumento de gestão de riscos. A falta de compreensão das coberturas, das exclusões e dos procedimentos de accionamento da apólice limita a procura e dificulta a adesão voluntária.
A confiança do consumidor também pesa na consolidação do mercado. A clareza das condições contratuais, a qualidade do atendimento e a rapidez na gestão e liquidação de sinistros são factores que podem influenciar a decisão de contratar ou renovar uma apólice.
O crescimento do sector exige ainda supervisão eficaz e mecanismos de protecção do consumidor. A existência de 23 seguradoras licenciadas indica uma base institucional relevante, mas a credibilidade do mercado depende de práticas comerciais responsáveis, informação transparente, cumprimento dos contratos e de canais de reclamação acessíveis.
Com 12 mil milhões de meticais movimentados no primeiro semestre e uma cobertura estimada em 17% da população, o mercado segurador moçambicano apresenta, simultaneamente, sinais de crescimento e limitações de inclusão. A próxima etapa passa por transformar a expansão financeira do sector em maior acesso efectivo aos serviços de seguros.
Para atingir esse objectivo, operadores e entidades de supervisão terão de combinar inovação, educação financeira, transparência contratual e soluções adequadas a diferentes perfis de consumidores. O desafio é fazer com que o seguro deixe de ser um produto restrito a uma minoria e passe a integrar, de forma mais ampla, os mecanismos de protecção económica das famílias e das empresas moçambicanas.







