InícioRevistaDesportoMAIS SELECÇÕES NO MUNDIAL E O DESAFIO DE PRESERVAR O SEU PRESTÍGIO

MAIS SELECÇÕES NO MUNDIAL E O DESAFIO DE PRESERVAR O SEU PRESTÍGIO

Por: Virgílio Timana

A Copa do Mundo nunca foi apenas o maior torneio de futebol. Tornou-se a competição mais prestigiada porque, durante décadas, foi também a mais difícil de alcançar. Chegar ao Mundial era um privilégio reservado a poucos. Para muitas selecções, uma única qualificação bastava para marcar uma geração inteira e entrar na história do país.

É precisamente essa identidade que volta a estar em discussão. Depois de a FIFA aumentar o número de participantes de 32 para 48 selecções a partir de 2026, está agora em análise uma nova expansão para 64 equipas no Mundial de 2030, edição que assinalará o centenário da competição.

À primeira vista, a proposta parece irrefutável. Mais países poderão viver o sonho de disputar a maior competição do futebol, mais adeptos sentirão a emoção de ver a sua bandeira representada e mais federações beneficiarão do impacto económico e desportivo de uma presença no palco mundial. É um argumento legítimo e coerente com a ideia de um futebol verdadeiramente global.

Há, no entanto, uma questão que acompanha esta proposta: se chegar ao Mundial se tornar mais fácil, o significado da qualificação continuará a ser o mesmo?

No Mundial de 2010, realizado na África do Sul, apenas seis selecções africanas representaram o continente. Em 2026 serão dez. Se o formato de 64 equipas for aprovado, esse número poderá voltar a aumentar. Trata-se de uma conquista para um continente que durante muitos anos reivindicou maior representatividade. Mas também significa que a qualificação deixará de ser tão rara como era no passado.

Durante décadas, uma vaga no Mundial era celebrada como um acontecimento histórico. Havia países que esperavam gerações inteiras para regressar à fase final. Quanto mais lugares existirem, maior será a probabilidade de algumas selecções se tornarem presenças habituais. O sonho continuará vivo, mas parte da sua excepcionalidade poderá desaparecer.

A mudança não afecta apenas a fase final. Também altera o significado das eliminatórias. Quando existem poucas vagas, cada jogo assume um peso enorme e um simples empate pode comprometer anos de preparação. Com mais lugares disponíveis, a margem de erro aumenta e o caminho para a qualificação torna-se menos exigente. As eliminatórias, que sempre fizeram parte da magia do Mundial, podem perder parte da intensidade que as caracterizava.

Naturalmente, a discussão não é apenas desportiva. Um torneio maior representa igualmente um negócio maior. Mais selecções significam mais jogos, mais dias de competição, mais audiências televisivas, mais patrocínios, mais bilheteira e mais receitas comerciais. A inclusão de novos participantes é real, mas também responde à estratégia de crescimento financeiro da FIFA. As duas dimensões coexistem e dificilmente podem ser analisadas em separado.

Existe ainda uma consequência menos evidente, mas igualmente importante: a forma como passaremos a olhar para os recordes. Entre 1998 e 2022, o campeão do Mundo precisava de disputar apenas sete jogos para conquistar o título. Três pertenciam à fase de grupos e os restantes distribuíam-se pelos oitavos-de-final, quartos-de-final, meias-finais e final. Cada golo tinha um peso enorme porque existiam poucas oportunidades para o marcar.

Com o formato de 48 selecções, o campeão passa a disputar oito encontros, graças à introdução dos dezasseis-avos-de-final. Esse jogo adicional representa mais minutos, mais oportunidades para marcar, assistir e acumular números individuais.

Os efeitos já são visíveis no presente Mundial. Antes mesmo das meias-finais, Lionel Messi e Kylian Mbappé já contabilizam oito golos cada. Em contraste, o melhor marcador do Mundial de 2022 terminou a competição com os mesmos oito golos. Em 2018 e 2014 bastaram seis para liderar a lista dos goleadores e, em 2010, apenas cinco foram suficientes.

Também por isso, os recordes históricos passarão inevitavelmente a ser analisados de outra forma. Miroslav Klose construiu os seus 16 golos em quatro Mundiais disputados num formato bastante mais curto. Hoje, Messi já soma 21 golos em cinco participações e Mbappé alcançou 20 em apenas três edições. O talento de ambos é indiscutível, mas também é verdade que o novo modelo oferece mais jogos e, consequentemente, mais oportunidades para bater marcas que durante décadas pareciam inalcançáveis.

Isto não diminui o mérito dos actuais protagonistas. Apenas demonstra que comparar diferentes gerações será cada vez mais complexo. Os números deixarão de reflectir apenas a qualidade dos jogadores e passarão igualmente a espelhar a evolução do próprio formato da competição.

A expansão também reabre um debate antigo sobre a distribuição das vagas entre as confederações. Se a FIFA pretende um futebol verdadeiramente universal, o critério de repartição continuará a ser determinante. Aumentar o número de participantes só reforçará a ideia de igualdade se esse crescimento beneficiar todas as regiões de forma equilibrada e transparente.

O desafio da FIFA será encontrar um equilíbrio difícil. O futebol precisa de crescer, de incluir novos protagonistas e de aproximar mais países da sua principal competição. Mas também precisa de preservar aquilo que transformou a Copa do Mundo num símbolo de excelência, que é a dificuldade em lá chegar.

O alargamento da Copa do Mundo pode representar uma oportunidade para que mais países cheguem ao maior palco do futebol e isso, por si só, é um sinal da crescente dimensão global da modalidade.

Ao mesmo tempo, esta mudança obriga a olhar para outros aspectos da competição. A qualificação deixará de ter o mesmo grau de dificuldade, os recordes individuais passarão a ser influenciados por um maior número de jogos e o próprio formato do torneio ganhará uma nova dinâmica.

A discussão, por isso, não deve centrar-se apenas em saber se o Mundial terá 64 selecções. Importa perceber de que forma esta expansão poderá influenciar o valor competitivo da prova e o significado de disputar uma fase final. O sucesso da mudança dependerá menos do número de equipas e mais da capacidade de preservar a qualidade e a competitividade que fizeram da Copa do Mundo a principal competição do futebol mundial.

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