A sucessão de crises que marcou os últimos anos está a alterar a própria lógica da política económica. Governos e bancos centrais já não enfrentam apenas ciclos convencionais de expansão, inflação e desaceleração. Precisam de responder, muitas vezes em simultâneo, a guerras, bloqueios comerciais, choques energéticos, fenómenos climáticos extremos, rupturas logísticas, inovação tecnológica acelerada e instabilidade nos mercados financeiros.
É neste contexto que o Fundo Monetário Internacional está a colocar a estabilidade dos preços, a sustentabilidade das finanças públicas e a credibilidade institucional no centro da gestão económica.
Christian Mumssen, director do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação do FMI, advertiu que a ordem económica construída no período posterior à Segunda Guerra Mundial está a dar lugar a um sistema mais fragmentado e multipolar, no qual a incerteza deixa de ser uma condição temporária para se tornar uma característica estrutural.
Durante uma intervenção no Atlantic Council, em Washington, Mumssen afirmou que a economia mundial demonstrou uma resiliência significativa perante a pandemia, a crise do custo de vida, as tensões comerciais e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. Contudo, alertou que a dimensão e a velocidade das transformações exigem que os governos estejam preparados para acontecimentos que não cabem nas previsões centrais.
Segundo a Reuters, o responsável do FMI defendeu que, quando um choque desvia uma economia da sua trajectória, é essencial preservar um quadro fiscal credível de médio prazo e um compromisso firme com a estabilidade de preços.
A mensagem vai além da defesa convencional da disciplina orçamental. Num ambiente em que as crises se sobrepõem, a credibilidade passa a funcionar como uma forma de capital económico: reduz o custo do financiamento, protege a moeda, limita as expectativas inflacionistas e aumenta a capacidade do Estado para intervir quando surgem emergências.
A Economia Já Não Absorve Um Choque De Cada Vez
A principal mudança identificada pelo FMI está na simultaneidade das transformações.
A pandemia interrompeu cadeias de produção e aumentou a dívida pública. A recuperação foi acompanhada por inflação, escassez de energia e subida dos juros. As guerras agravaram o preço das matérias-primas e fragmentaram rotas comerciais. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial e as finanças digitais estão a transformar rapidamente empresas, mercados de trabalho e sistemas financeiros.
O risco já não consiste apenas na repetição de crises conhecidas, mas na interacção entre choques distintos.
Uma guerra pode encarecer o petróleo, elevar a inflação, pressionar as moedas e obrigar os bancos centrais a manter juros altos. Taxas elevadas aumentam o serviço da dívida pública e reduzem o espaço orçamental. Menor capacidade fiscal limita a resposta a cheias, secas ou necessidades sociais. O choque inicial propaga-se, assim, por vários canais e torna-se progressivamente mais difícil de controlar.
A actualização de Julho do World Economic Outlook mostra que a economia mundial deverá crescer 3% em 2026 e 3,4% em 2027. O FMI observa, contudo, que o crescimento continua desigual: a guerra penaliza importadores de energia e economias vulneráveis, enquanto a procura associada à inteligência artificial beneficia os países integrados nas cadeias tecnológicas. A instituição adverte igualmente que o processo global de desinflação perdeu força.
A projecção central transmite uma ideia de relativa resistência da actividade global, mas esconde diferenças importantes. Economias com reservas, instituições fortes e acesso aos mercados conseguem absorver choques durante mais tempo. Países endividados, dependentes de importações e com baixa capacidade administrativa enfrentam efeitos mais rápidos e profundos.
Credibilidade Passa A Funcionar Como Reserva De Política
Em períodos estáveis, a credibilidade fiscal pode parecer um conceito abstracto. Em momentos de crise, torna-se um recurso mensurável.
Um governo considerado credível consegue financiar-se por prazos mais longos e a taxas relativamente mais baixas. Os investidores aceitam manter títulos públicos porque acreditam que as contas serão geridas de forma previsível, que a inflação permanecerá controlada e que as obrigações serão pagas.
Quando essa confiança se deteriora, ocorre o movimento contrário. Os credores exigem juros mais elevados, preferem dívida de curto prazo, reduzem a exposição ou transferem capitais para outras economias. O serviço da dívida aumenta precisamente quando o Estado necessita de mais recursos para responder à crise.
O Fiscal Monitor de Abril de 2026 descreve um ambiente internacional de dívida elevada e riscos fiscais crescentes, recomendando planos capazes de colocar as finanças públicas numa trajectória sustentável. O Fundo considera que os quadros de médio prazo devem ligar decisões anuais de despesa a objectivos plurianuais de défice, dívida e financiamento.
Na prática, isto significa que um orçamento não deve ser apenas uma lista de receitas e despesas para o ano seguinte. Deve mostrar como as decisões presentes afectarão a dívida, os juros, o investimento e os serviços públicos ao longo de vários anos.
A credibilidade não depende necessariamente de cortes indiscriminados. Pode resultar de uma combinação entre maior eficiência da despesa, mobilização de receitas, eliminação de benefícios pouco produtivos, controlo de riscos das empresas públicas e selecção mais rigorosa dos projectos de investimento.
O elemento central é a coerência. Governos que anunciam metas mas acumulam atrasados, alteram frequentemente as regras ou financiam despesas permanentes através de receitas temporárias perdem confiança mesmo quando os números formais parecem controlados.
Estabilidade De Preços É Também Política Social
A defesa da estabilidade de preços é frequentemente interpretada como uma prioridade dos bancos centrais e dos mercados financeiros. O seu impacto, contudo, é sobretudo económico e social.
A inflação reduz o poder de compra dos salários, corrói poupanças e penaliza de forma desproporcional as famílias de menor rendimento, que destinam uma parcela maior do orçamento a alimentação, transportes e energia.
Empresas também enfrentam maior dificuldade para determinar preços, negociar contratos e planear investimentos. Quando os custos se tornam imprevisíveis, fornecedores reduzem prazos, exigem pagamentos antecipados ou incorporam margens de segurança mais elevadas.
O efeito sobre as finanças públicas é igualmente significativo. A inflação pode aumentar nominalmente algumas receitas fiscais, mas também eleva salários, custos de obras, subsídios, compras públicas e juros. Se os investidores acreditarem que o aumento dos preços será persistente, exigirão uma remuneração maior para financiar o Estado.
Mumssen advertiu que a estabilidade poderá ser ameaçada por perturbações frequentes da oferta, como bloqueios energéticos, guerras, secas, cheias e interrupções logísticas.
Esta mudança complica a política monetária. Os bancos centrais conseguem limitar a procura através dos juros, mas não produzem petróleo, alimentos, electricidade ou infra-estruturas. Podem evitar que um choque temporário se transforme numa espiral inflacionista, mas o custo pode ser uma desaceleração do crédito, do investimento e do emprego.
A melhor defesa passa, por isso, por combinar política monetária credível com medidas que aumentem a capacidade produtiva, diversifiquem fornecedores, reforcem reservas e reduzam vulnerabilidades logísticas.
Cenários Substituem A Ilusão De Uma Previsão Única
Uma das recomendações mais importantes do FMI consiste em utilizar cenários de forma mais sistemática.
A previsão económica tradicional apresenta normalmente uma trajectória central para crescimento, inflação, défice ou dívida. Esse exercício continua necessário, mas torna-se insuficiente quando os resultados dependem de guerras, decisões políticas imprevisíveis ou fenómenos climáticos extremos.
No início do ano, o FMI chegou a abandonar temporariamente uma única previsão central e apresentou diferentes cenários para a economia mundial. Num deles, uma guerra prolongada no Médio Oriente poderia reduzir o crescimento global para cerca de 2%.
Na actualização de Julho, o Fundo regressou a uma previsão de base de 3% para 2026, mas manteve a advertência de que uma interrupção prolongada do fornecimento de energia afectaria materialmente a actividade mundial.
O planeamento por cenários não consiste em adivinhar qual será o futuro. Serve para preparar decisões antes que os acontecimentos ocorram.
Um governo pode, por exemplo, trabalhar com um cenário de petróleo moderado, outro de preços elevados e um terceiro de interrupção grave das importações. Para cada hipótese, deve determinar o impacto sobre inflação, subsídios, transportes, reservas externas, receitas fiscais e dívida.
A mesma lógica aplica-se a ciclones, queda das exportações, redução da ajuda externa ou atrasos em grandes projectos. A vantagem é diminuir a necessidade de decisões improvisadas tomadas sob pressão.
Para as empresas, a abordagem também é relevante. Orçamentos, contratos, stocks, financiamento e cadeias de fornecedores devem ser avaliados sob diferentes combinações de câmbio, juros, energia e procura.
Dívida Elevada Encurta A Capacidade De Resposta
A capacidade de um país para enfrentar choques depende da margem disponível antes de a crise surgir.
Uma economia com dívida elevada, défices persistentes e grandes necessidades de refinanciamento entra numa emergência com menos alternativas. Aumentar a despesa pode elevar o risco soberano; emitir moeda pode acelerar a inflação; contrair nova dívida pode tornar-se demasiado caro.
O problema não é apenas o volume da dívida, mas a sua estrutura.
Dívida de curto prazo cria necessidade frequente de refinanciamento. Dívida em moeda estrangeira torna-se mais onerosa quando a moeda nacional se desvaloriza. Taxas variáveis transferem rapidamente a subida dos juros para o orçamento. Concentração excessiva nos bancos nacionais pode retirar recursos que poderiam financiar empresas.
Por essa razão, o FMI está a rever a forma como avalia a sustentabilidade da dívida dos países de baixo rendimento, a estrutura dos novos programas financeiros e a capacidade de antecipar riscos no sector financeiro.
Mumssen indicou que a instituição pretende avançar para programas com menos reformas, mas mais específicas e aprofundadas, acompanhadas por maior atenção ao planeamento de contingência.
Esta orientação reconhece que listas extensas de condições podem dispersar capacidade administrativa. A concentração em medidas essenciais — receitas, dívida, empresas públicas, qualidade da despesa e estabilidade financeira — pode produzir resultados mais duradouros.
Tecnologia Amplia Produtividade E Risco
O discurso do responsável do FMI também destacou a inteligência artificial e as finanças digitais.
Estas tecnologias podem elevar produtividade, reduzir custos administrativos, melhorar a cobrança de impostos, ampliar o acesso aos serviços financeiros e acelerar a análise de dados.
Mas criam igualmente novos riscos.
A automatização pode deslocar trabalhadores antes que os sistemas de educação e protecção social estejam preparados. A concentração tecnológica pode aumentar a desigualdade entre empresas e países. Plataformas financeiras digitais podem acelerar movimentos de capitais, propagar falhas operacionais e facilitar a transmissão de choques.
O crescimento das instituições financeiras não bancárias acrescenta outra camada de complexidade. Fundos, plataformas de crédito, fintechs e investidores institucionais desempenham um papel crescente na intermediação financeira, mas nem sempre estão sujeitos aos mesmos mecanismos de supervisão e liquidez aplicáveis aos bancos.
O FMI considera, por isso, necessário reforçar a capacidade de detectar vulnerabilidades antes que se transformem em crises sistémicas.
Para países com menor capacidade regulatória, o desafio consiste em adoptar inovação sem importar riscos que as instituições ainda não conseguem vigiar. A transformação digital exige legislação, protecção de dados, segurança cibernética, supervisão financeira e mecanismos claros de responsabilização.
Moçambique Recebe O Aviso Com Margem Estreita
As recomendações do FMI têm uma relevância particular para Moçambique.
A economia enfrenta simultaneamente crescimento reduzido, necessidades sociais elevadas, vulnerabilidade climática, dependência de importações, dificuldades de financiamento e pressões sobre a dívida.
Na consulta do Artigo IV concluída em Fevereiro, o FMI considerou que Moçambique enfrentava um ambiente macroeconómico complexo, marcado por crescimento fraco, vulnerabilidades fiscais e da dívida e diminuição da ajuda externa. A instituição estimou que o défice fiscal tivesse recuado de 6,2% do PIB em 2024 para 4,5% em 2025, sobretudo através da redução da despesa em bens, serviços e investimento.)
O Fundo advertiu, contudo, que os défices primários poderiam permanecer próximos de 2% do PIB até 2029 e que o aumento dos encargos com juros tenderia a ampliar o desequilíbrio global. A dívida pública foi considerada insustentável sob as políticas então vigentes, enquanto a dívida externa permanecia em risco elevado de sobre-endividamento.
Estes riscos limitam a capacidade do Estado para responder a novos choques sem comprometer outros objectivos.
A situação tornou-se mais sensível com a aceleração dos preços. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a inflação homóloga atingiu 7,51% em Junho de 2026, enquanto a inflação acumulada desde Janeiro chegou a 5,40%.
O Banco de Moçambique mantém a taxa de política monetária MIMO em 9,25%, enquanto a prime rate do sistema financeiro permanece em 15,50% em Julho. As condições continuam, portanto, restritivas para empresas e famílias, mesmo depois das reduções efectuadas na taxa directora desde 2024.
A combinação entre inflação mais elevada, crédito caro e crescimento modesto cria um dilema. Reduzir os juros demasiado depressa pode aumentar as pressões sobre os preços e as divisas. Mantê-los elevados durante muito tempo pode limitar o investimento, a actividade empresarial e a criação de emprego.
A política orçamental também enfrenta escolhas difíceis. Cortes generalizados podem prejudicar educação, saúde, infra-estruturas e recuperação pós-desastres. Mas a manutenção de défices elevados pode aumentar os juros e reduzir ainda mais o espaço para essas mesmas prioridades.
Um Quadro De Médio Prazo Para Proteger Prioridades
A utilidade de um quadro fiscal de médio prazo está precisamente em permitir escolhas explícitas.
Em vez de tratar todas as despesas como igualmente prioritárias, o Governo deve identificar quais programas geram maior retorno económico e social, quais compromissos são incomportáveis e quais riscos podem produzir custos futuros.
Para Moçambique, esse exercício deve integrar pelo menos quatro dimensões.
A primeira é a trajectória da massa salarial, das pensões, dos juros e de outras despesas permanentes. Estes compromissos reduzem a parcela do orçamento disponível para investimento e serviços.
A segunda é a gestão das empresas públicas e garantias do Estado. Passivos que não aparecem imediatamente no défice podem transformar-se rapidamente em dívida pública.
A terceira é a selecção de projectos. Infra-estruturas financiadas por dívida devem ser avaliadas pela capacidade de gerar produtividade, receitas, exportações ou redução de custos, e não apenas pelo volume de investimento anunciado.
A quarta é a preparação para choques. O orçamento deve prever reservas, seguros, mecanismos de contingência e fontes de financiamento para cheias, ciclones, energia e outras emergências.
O próprio FMI observou que Moçambique considera instrumentos como obrigações verdes, sukuk e títulos associados a catástrofes para mobilizar recursos e aprofundar o mercado financeiro. A utilização dessas soluções dependerá, contudo, de transparência, capacidade técnica e credibilidade na gestão da dívida.
A Resiliência Passa A Ser Parte Da Política Económica
O alerta do FMI sugere que resiliência não deve ser tratada como uma resposta posterior às crises. Deve ser incorporada na estrutura normal da política económica.
Um país resiliente não é aquele que evita todos os choques, mas o que consegue absorvê-los sem perder estabilidade, interromper serviços essenciais ou comprometer o desenvolvimento de longo prazo.
Isso exige reservas externas adequadas, dívida sustentável, instituições fiscais funcionais, sistemas financeiros sólidos, protecção social adaptável e capacidade de mobilizar recursos rapidamente.
Também exige confiança.
Quando empresas e famílias acreditam que a inflação será controlada, ajustam preços e salários de forma menos defensiva. Quando investidores confiam na trajectória fiscal, aceitam financiar o Estado em melhores condições. Quando os cidadãos reconhecem coerência nas decisões públicas, aumenta a possibilidade de adesão a reformas difíceis.
O argumento apresentado por Christian Mumssen é, em última instância, que a credibilidade não pode ser construída durante a emergência. Deve existir antes dela.
Para Moçambique, esta mensagem significa que estabilidade de preços, qualidade da despesa, sustentabilidade da dívida e planeamento de contingência não são objectivos separados. Formam uma única arquitectura de confiança económica.
Num mundo em que os choques serão mais frequentes e poderão chegar ao mesmo tempo, a vantagem competitiva dos países dependerá cada vez mais da capacidade de preservar essa arquitectura enquanto protegem o crescimento, o emprego e as prioridades sociais.
Fonte: O Económico






