Resumo
A transição energética global está a impulsionar uma nova disputa económica centrada nos minerais críticos, essenciais para tecnologias como baterias, veículos elétricos e energias renováveis. Segundo a UNCTAD, a procura por lítio, grafite, níquel, cobre, cobalto e terras raras deverá crescer significativamente até 2040, impulsionada pelas tecnologias limpas. No entanto, preocupa a elevada concentração da oferta, com países como a República Democrática do Congo e a China a dominarem a produção global. Esta realidade levanta preocupações sobre a segurança de abastecimento e transforma a corrida aos minerais críticos numa questão de geopolítica e segurança económica, destacando a importância estratégica destes recursos no século XXI.
Segundo a edição de Junho de 2026 do Global Trade Update da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o comércio internacional destes recursos está a transformar profundamente os padrões globais de investimento, produção industrial e relações geoeconómicas.
Lítio, grafite, níquel, cobre, cobalto e terras raras estão no centro desta transformação, por constituírem componentes essenciais para baterias, veículos eléctricos, painéis solares, turbinas eólicas, semicondutores, centros de dados e outras tecnologias que sustentam a economia do futuro.
A Procura Está Apenas A Começar
As projecções apresentadas pela UNCTAD mostram que a procura por minerais críticos deverá crescer de forma expressiva até 2040.
O caso mais impressionante é o do lítio, cuja procura poderá aumentar cerca de 353% relativamente aos níveis actuais. A grafite poderá crescer 131%, enquanto o níquel, as terras raras magnéticas e o cobalto deverão registar aumentos entre 49% e 69%.
O crescimento está directamente associado à expansão das tecnologias limpas.
Segundo a UNCTAD, até 2040 cerca de 87% da procura global de lítio será proveniente de tecnologias ligadas à transição energética, contra 62% actualmente. No caso da grafite, essa participação poderá atingir 52%, reforçando o papel destes recursos na transformação dos sistemas energéticos globais.
A corrida aos minerais críticos tornou-se, assim, inseparável da corrida à descarbonização.
O Problema Não É Apenas A Procura
A principal preocupação dos mercados não reside apenas no crescimento da procura, mas também na elevada concentração da oferta.
Segundo o relatório, a República Democrática do Congo respondeu por 74% da produção mundial de cobalto em 2025. A China produziu 78% da grafite natural global e, juntamente com Austrália e Chile, concentrou mais de 70% da produção mundial de lítio.
A concentração é ainda maior nas actividades de refinação e processamento, onde é capturada grande parte do valor económico.
A China mantém uma posição dominante em várias cadeias de processamento de minerais críticos, enquanto a Indonésia já representa 43% da capacidade mundial de refinação de níquel.
Esta realidade está a gerar preocupações crescentes entre governos e empresas quanto à segurança de abastecimento.
Do Comércio À Geopolítica
O relatório da UNCTAD sublinha que os minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão de recursos naturais.
Transformaram-se numa questão de política industrial, comércio internacional e segurança económica.
À medida que os riscos de abastecimento aumentam, diversos países passaram a utilizar instrumentos de política comercial para proteger cadeias de valor estratégicas e estimular o processamento interno.
Desde 2020 foram introduzidas quase 100 novas medidas relacionadas com exportações de minerais críticos, incluindo impostos à exportação, licenças obrigatórias, quotas e proibições de venda para determinados mercados.
República Democrática do Congo, China e Indonésia destacam-se entre os países que mais recorreram a este tipo de instrumentos.
A tendência reflecte uma crescente competição global pelo controlo de recursos considerados essenciais para a próxima revolução tecnológica.
Uma Oportunidade Para Países Como Moçambique
Para os países em desenvolvimento, o novo ciclo de procura por minerais críticos representa uma oportunidade rara de transformação económica.
Contudo, a UNCTAD alerta que os benefícios não são automáticos.
Historicamente, muitas economias ricas em recursos naturais permaneceram concentradas na exportação de matérias-primas, enquanto as actividades de maior valor acrescentado — processamento, manufactura e desenvolvimento tecnológico — foram realizadas noutros mercados.
A instituição defende que a verdadeira oportunidade está em utilizar os recursos minerais como plataforma para industrialização, transferência de tecnologia, desenvolvimento de competências e criação de cadeias de valor locais.
Para países africanos com importantes reservas minerais, esta questão poderá determinar a diferença entre uma nova fase de desenvolvimento industrial ou a repetição dos modelos tradicionais de exportação de recursos em estado bruto.
Parcerias Multiplicam-Se Em Todo O Mundo
Outro fenómeno identificado pela UNCTAD é a rápida expansão das parcerias internacionais em torno dos minerais críticos.
O relatório contabiliza 73 acordos e instrumentos de cooperação celebrados desde 2007, dos quais 58 foram assinados apenas após 2022.
Estas parcerias abrangem cada vez mais toda a cadeia de valor, desde a prospecção e extracção até à refinação, manufactura e reciclagem.
O movimento demonstra que os minerais críticos passaram a ocupar um papel semelhante ao que o petróleo desempenhou durante grande parte do século XX.
O Desafio Da Próxima Década
A UNCTAD considera que os próximos anos serão decisivos.
À medida que mais países procuram garantir acesso a estes recursos estratégicos, aumenta o risco de fragmentação do comércio internacional através da proliferação de acordos paralelos, restrições comerciais e disputas geoeconómicas.
Por outro lado, uma abordagem mais coordenada poderá facilitar investimentos, reduzir custos e acelerar a transição energética global.
A questão central colocada pelo relatório é particularmente relevante para os países produtores: os minerais críticos serão apenas mais uma commodity exportada ou tornar-se-ão a base para uma nova fase de industrialização e criação de valor?
A resposta a essa pergunta poderá definir parte significativa da geografia económica mundial nas próximas décadas.
Fonte: O Económico



