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Ormuz Opera Por Via Alternativa Enquanto Estados Unidos E Irão Se Aproximam De Acordo

Rota Sul Mantém Circulação Comercial

O Estreito de Ormuz permanece operacional através de uma rota alternativa situada em águas territoriais de Omã, enquanto os Estados Unidos e o Irão procuram alcançar um entendimento que permita uma normalização mais ampla da circulação marítima.

O Comando Central dos Estados Unidos — CENTCOM declarou que a “rota sul do Estreito de Hormuz permanece livre e aberta”, acrescentando que as forças norte-americanas já apoiaram a travessia de mais de mil embarcações comerciais, apesar dos incidentes e ameaças registados durante o conflito.

A informação foi divulgada pela CNBC, que esclarece que o percurso disponível atravessa águas omanitas, e não a zona mais próxima da costa iraniana.

A distinção é decisiva. A existência de uma passagem navegável significa que Hormuz não está fisicamente encerrado a todo o tráfego, mas não equivale à reabertura integral e regular das rotas utilizadas antes da guerra.

A rota sul funciona como solução operacional de contingência, permitindo que parte dos navios atravesse o estreito sem utilizar o corredor controlado ou reivindicado pelo Irão.

“Livre E Aberto” Não Significa Tráfego Normalizado

A declaração do CENTCOM deve ser interpretada dentro do contexto militar e logístico da actual crise.

Washington considera o estreito aberto porque existe uma via disponível para navios comerciais e porque as forças norte-americanas conseguem apoiar algumas travessias. Teerão, porém, continua a contestar o modelo de circulação e a reivindicar autoridade sobre parte da passagem.

Segundo informações anteriores da Reuters, o Irão pretende supervisionar a entrada de navios no Golfo através das águas próximas da sua costa e participar no controlo das saídas pela rota omanita. Os Estados Unidos defendem, em sentido contrário, que todas as faixas devem permanecer acessíveis sem taxas ou autoridade administrativa iraniana. 

A passagem continua, portanto, submetida a escoltas, coordenação militar, avaliações de risco e restrições que não existiam em condições normais.

A abertura efectiva deverá ser medida não apenas pela possibilidade de alguns navios passarem, mas pela recuperação do número habitual de travessias, pela redução dos custos de seguro e pela disposição dos armadores para utilizarem a rota sem assistência extraordinária.

Bessent Antecipa Possibilidade De Acordo Iminente

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que Washington e Teerão poderão alcançar um entendimento para a abertura do estreito ainda esta semana.

“Existe a possibilidade de termos um acordo hoje ou amanhã para abrir o estreito e avançar para uma posição mais normalizada neste conflito”, declarou Bessent numa entrevista ao programa Squawk Box, da CNBC.

A formulação utilizada pelo governante norte-americano confirma que a situação ainda não corresponde a uma normalização completa, apesar da disponibilidade da rota sul.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, também declarou que as discussões com o Irão estavam a evoluir favoravelmente e que o estreito poderia ser aberto “muito em breve”. A Reuters indica, no entanto, que meios oficiais iranianos rejeitaram a existência de um acordo imediato e condicionaram qualquer entendimento à resolução das divergências sobre soberania, segurança e ameaças militares. 

A combinação entre optimismo norte-americano e prudência iraniana mostra que as negociações avançaram, mas continuam expostas a posições políticas incompatíveis.

Omã E Paquistão Procuram Viabilizar Compromisso Temporário

Omã ocupa uma posição central nas negociações por controlar territorialmente a margem sul do estreito, onde se localiza a rota actualmente utilizada.

De acordo com a CNBC, um diplomata do Médio Oriente com conhecimento directo das conversações afirmou que os Estados Unidos e países europeus estavam a exercer influência diplomática para que Omã aceitasse um acordo temporário com o Irão.

Um responsável do Governo paquistanês declarou, por sua vez, que o documento para a reabertura do estreito estava próximo da conclusão. Segundo essa versão, as discussões decorrem directamente entre o Irão e Omã, com mediação do Paquistão e participação indirecta dos Estados Unidos.

O Qatar também participa nos esforços diplomáticos. O Governo qatari anunciou progressos nas iniciativas destinadas a reduzir as divergências e terminar o conflito, depois de contactos entre o Emir Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani e o Presidente Donald Trump. 

A multiplicidade de mediadores reflecte a complexidade do acordo. A reabertura depende simultaneamente de garantias de segurança marítima, definição das rotas, fiscalização das embarcações e delimitação da autoridade exercida por cada Estado.

Controlo Do Estreito É O Principal Activo Negocial De Teerão

O Irão procura transformar a sua posição geográfica em poder político e económico nas negociações.

A Reuters indica que Teerão pretende obter autoridade administrativa sobre o estreito e a possibilidade de cobrar por serviços prestados às embarcações. Washington rejeita qualquer taxa obrigatória e sustenta que Hormuz deve funcionar como uma via internacional livre de controlo exclusivo iraniano. (Reuters)

Para Teerão, aceitar a reabertura sem contrapartidas significaria renunciar a um dos seus principais instrumentos de negociação. Para os Estados Unidos e para os países importadores de energia, reconhecer autoridade iraniana sobre a rota poderia criar uma fonte permanente de incerteza no comércio mundial.

A solução temporária poderá, por isso, concentrar-se na garantia imediata da circulação e adiar para uma fase posterior a discussão sobre taxas, supervisão e soberania.

Esta abordagem reduziria o risco de oferta no curto prazo, mas deixaria por resolver as causas estruturais da disputa.

Petróleo Recupera Parte Das Perdas

Os preços do petróleo registaram uma recuperação ligeira na manhã desta quarta-feira, depois da queda acentuada observada na sessão anterior.

Segundo a CNBC, o Brent subia 0,43%, para 79,70 dólares por barril, depois de ter perdido 5,3% na terça-feira. O West Texas Intermediate avançava 0,21%, para 75,95 dólares, após uma queda de 5,7%.

A pequena recuperação mostra que os investidores continuam cautelosos. As declarações de Bessent reduziram o prémio de risco incorporado nos preços, mas a ausência de um acordo assinado impede uma descida mais estável.

O Wall Street Journal, citando analistas da ING, observa que continuam a existir diferenças importantes entre Washington e Teerão e que qualquer solução provisória poderá deteriorar-se rapidamente caso não sejam resolvidas as regras de gestão da passagem. 

O mercado deixou, assim, de avaliar apenas a possibilidade de reabertura. Passou também a analisar a sustentabilidade jurídica e política do eventual acordo.

Hormuz Continua Essencial Para A Oferta Mundial

A importância económica das negociações decorre da dimensão dos fluxos energéticos que atravessam o estreito.

Dados da Energy Information Administration — EIA mostram que, antes das perturbações, circulavam por Hormuz aproximadamente 20 milhões de barris diários de petróleo e produtos petrolíferos. A rota representa perto de um quinto da oferta mundial e uma parcela ainda maior do comércio marítimo de petróleo. 

A interrupção reduziu as exportações dos produtores do Golfo, elevou os custos dos fretes e seguros e obrigou alguns países a procurar fontes alternativas de abastecimento.

A EIA considera que, mesmo depois de uma reabertura, serão necessários vários meses para que a produção e os fluxos comerciais regressem aos níveis anteriores ao conflito. 

A disponibilidade da rota sul evita uma paralisação total, mas não elimina os constrangimentos de capacidade, segurança e confiança que continuam a limitar os embarques.

Efeito Económico Ultrapassa O Mercado Petrolífero

As perturbações em Hormuz afectam igualmente o transporte de gás natural liquefeito, fertilizantes, alimentos, matérias-primas e produtos industriais.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento — UNCTAD considera que a crise aumentou os custos globais de energia, logística e produção, agravando as dificuldades das economias vulneráveis e dependentes de importações. 

Mesmo com um acordo, parte dos impactos permanecerá incorporada nos contratos de transporte, nos prémios de seguro, nos custos dos inventários e nos preços dos produtos já adquiridos durante o período de maior tensão.

A UNCTAD adverte, por isso, que a reabertura poderá acalmar imediatamente os mercados financeiros, mas não eliminará de forma automática as consequências acumuladas sobre as economias importadoras. 

Moçambique Pode Beneficiar De Uma Normalização Sustentada

Para Moçambique, um acordo duradouro poderá reduzir a volatilidade do preço internacional dos combustíveis e melhorar a previsibilidade das importações.

O impacto poderá reflectir-se na factura petrolífera, nas necessidades de moeda externa, nos custos de transporte e nos preços de bens dependentes da logística rodoviária.

O benefício, porém, dependerá da regularização efectiva dos fluxos e não apenas da existência formal de uma rota alternativa.

Enquanto os armadores continuarem a exigir prémios elevados para atravessar Hormuz e os fluxos permanecerem abaixo da capacidade normal, os custos internacionais poderão continuar superiores aos níveis anteriores ao conflito.

A recente escassez de combustíveis em Maputo e Matola mostra igualmente que a redução do risco internacional precisa de ser acompanhada por soluções internas de financiamento, importação, armazenamento e distribuição.

Acordo Poderá Abrir O Estreito Sem Encerrar A Disputa

As declarações norte-americanas indicam que a diplomacia se encontra mais próxima de produzir uma solução operacional para Hormuz.

A rota sul permite alguma circulação, mais de mil navios terão recebido apoio para atravessar a passagem e os mediadores trabalham num documento que poderá ser concluído ainda esta semana.

A questão central, contudo, permanece por resolver: quem controla a navegação e em que condições?

Um entendimento temporário poderá recuperar o tráfego e reduzir os preços da energia sem solucionar a divergência entre a reivindicação iraniana de autoridade e a exigência norte-americana de acesso livre.

Hormuz pode, assim, reabrir antes de existir uma paz abrangente. O alívio imediato para os mercados dependerá da circulação dos navios; a estabilidade de longo prazo dependerá da capacidade de transformar essa circulação provisória num regime previsível, aceite pelas duas partes e suficientemente seguro para recuperar a confiança do comércio internacional.

Fonte: O Económico

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