Resumo
Richie e Vanessa são criadores de animais de companhia Cães em ambos os casos Criam por amor e com amor e aceitaram falar com a CNN Portugal sobre a escolha deste caminho Vanessa sempre cresceu rodeada de animais A avó era, e é, criadora e foi ela que seguiu as suas pisadas Desde pequeno que era apaixonado por animais, mas foi o Chihuahua que levou Ricardo para o mundo da criação Os dois conhecem bem este mundo e admitem que ouvem coisas terríveis, seja de outros criadores, seja de potenciais compradores Ninguém sabe ao certo o número de criadores existentes em Portugal, mas segundo dados consultados pela CNN Portugal são cerca de 1 100 Estes são os legais Os ilegais são uma incógnita A "fábrica de animais" em Amarante era registado, ao contrário das situações de Palmela e Loures Falámos também com o Tenente-coronel Fernando Alves, da Direção do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA), da GNR, uma das entidades responsáveis pela fiscalização dos criadores de animais de companhia Desde que se lembra, Richie é apaixonado por cães: "Eu encontrava animais na rua e levava-os para casa Às escondidas " Já adulto adotou um cão que é a sua "paixão até hoje Ele já está com 18 anos E graças a Deus continua cá" E foi numa ida ao veterinário com o seu cão que se apaixonou "Fui ao veterinário e conheci a raça Chihuahua Fiquei apaixonado por uma das meninas que a dona tinha, na altura, e ela levou-me a conhecer os bebés Aí tornou-se a minha tragédia", recorda "Costumo dizer que o Chihuahua é um vício Quem tem um quer o segundo e quem tem o segundo quer o terceiro Eu tinha uma menina e ainda a tenho Comecei a olhar para ela com aqueles olhos de 'gostava de continuar a ter mais' Decidi deixá-la criar uma vez, mas eu ainda não era criador E assim foi Tive uma ninhada e fiquei logo com uma filha Começou a vir o bichinho de gostar do parto, da gravidez, daquele processo todo gestacional e comecei à procura de outra chihuahua… uma terceira Conheci uma criadora e adquiri outra Comecei a falar com essa criadora e tornámo-nos bastantes amigos e ela ensinou-me muitas coisas A partir daí a minha vida descambou Quando eu dei conta, tinha 10 Depois disse, mais de 15 não tenho Hoje já tenho mais E foi assim que tudo nasceu" Ou seja, a culpa é do chihuahua "A culpa é do chihuahua", afirma a rir "A minha raça de eleição há de ser sempre o chihuahua" Mesmo assim, faz criação de mais raças "Tenho chihuahuas, tenho Yorkshire, Poodle Toy e Tackle E agora o Biewer Terrier que adquiri este ano" "O mundo dos cães é extremamente grande", assume Richie "Infelizmente há cada vez mais criadores de fundo quintal Não tenho nada contra a uma pessoa que tenha uma cadela e queira fazer uma ninhada e faça tudo em condições Contudo, há criadores que têm montes de cães enjaulados Os cães só servem para procriar e depois vendem a preços irrisórios", admite com tristeza As ninhadas que tem são geridas "Não deixo as minhas cadelas só procriarem Antes disso, elas são as minhas cadelas São parte do meu meio familiar E, portanto, elas têm o devido descanso e podem ir comigo para a praia, o café, para dentro de casa, para o sofá O fundamento delas não é só procriar", explica "Cada cadela minha tem uma ninhada por ano, com exceções Imaginemos que eu tenho uma menina que fez uma cesariana Ela, no ano a seguir, não vai ser mãe Um criador, mais do que criar cães, tem de respeitar os cães Quando comecei a criar cães, não comecei com o intuito de ganhar dinheiro Comecei a criar cães por paixão" Da mesma forma que controla as ninhadas, também é exigente ao nível dos compradores "Não vendo cães só por vender Pronto Vamos supor, uma pessoa vem ter comigo e quer um cão Eu tento prestar atenção e perceber como é que é o seu dia a dia Se tem ou não tem crianças, porque elas precisam de ter a mínima noção do que é um animal" Admite mesmo que já cancelou vendas no momento da entrega "Tive uma senhora que veio buscar um bebé e disse que não ia vender porque percebi que o cão não seria um cão de família, mas um cão de varanda E isso não faz sentido para mim Eu não vendo cães, eu vendo membros de família" Mesmo sem fazer grande publicidade às suas ninhadas nas redes sociais, Richie conta com o "passa palavra" e tem listas de espera "Eu faço uma seleção Tenho listas de espera para ninhadas e dessa lista vou selecionar as pessoas que me parecem como ser as melhores para eles Tento sempre encontrar um match entre o cachorro e a pessoa", acrescenta Os cães que tem estão na sua casa, mas há exigências feitas pela Direção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) que precisa de cumprir "Temos de ter as condições mínimas obrigatórias Ou seja, temos de ter os canis com certas dimensões, tem que ter um pavimento adequado, maternidade, entre outras" No entanto, defende que devia haver mais fiscalização e até testes de DNA "Hoje é muito fácil tornar-se criador Paga-se um x de valor e está tudo certo" E até em criadores registados os compradores podem ser facilmente enganados "Há muita gente que fala na questão do LOP, que é o certificado de origem do cachorro, dos pais Por exemplo, alguém tem uma cadela que não tem LOP e tem bebés Depois, tem uma cadela, que não foi mãe e tem LOP É possível registar a ninhada como a mãe sendo a que tem LOP Não há uma fiscalização para isso As pessoas compram enganadas a pensar que aquela é a mãe dos cachorros quando não é E só por isso os cães valem muito mais" Acontecem mais coisas que não deviam acontecer "Hoje vêm-se coisas absurdas Irmãos a cruzar com irmãos Para mim é um descalabro Vamos ter cães com problemas genéticos sem necessidade nenhuma" Apesar de ser criador, aceita a ideia ‘não compre, adote’ "Há imensos animais para adoção e se toda a gente adotasse um animal, o nosso país seria melhor" Ele próprio tem animais resgatados "Se eu quiser um cão com uma determinada fisionomia, um determinado temperamento, uma determinada personalidade que à partida sabemos que aquela raça contém não vamos encontrar num canil Se eu puser um Yorkshire para adoção, vão aparecer 50 mil pessoas a pedir o cão Mas se eu puser para venda, não E, depois, essas pessoas que o querem adotar vão-me criticar porque estou a vender o cão O que eu quero dizer é, eu apoio associações, eu apoio canis, sem sombra de dúvida, eu próprio tenho animais resgatados Agora, não podemos criticar um criador sério Devemos agir contra pessoas que exploram e maltratam animais" Richie admite que vê cada vez mais animais de raça abandonados, mas não consegue perceber o motivo Mesmo assim fala "em modas" "Conheço criadores que antigamente eram criadores do Lulu da Pomerânia e venderam os cães todos para criarem caniches, poodle toys, porque está na moda" Uma decisão que o choca: "Se não gostar, não vou criar Para mim não faz sentido ter um cão que não me diz nada" Vanessa viveu e cresceu na Suíça Regressou em 2018 a Portugal No entanto, sempre cresceu rodeada de cães "Cresci com a minha avó e a minha avó já criava há muitos anos Nasci ali no meio e fui aprendendo De tanta gente na família, alguém tinha de seguir a avózinha", brinca enquanto fala com a CNN Portugal A primeira raça que teve foi o Montanha dos Pirenéus, mas a dada altura percebeu que precisava de encontrar uma raça mais pequena "Andámos a estudar várias raças, ainda estava na Suíça e este é um país que é uma bíblia de cães Na Suíça as pessoas têm imensos, imensos cães mesmo" Entre todos, apaixonou-se pelo Mini Aussie e o Pastor Australiano "Com o pastor australiano e o Mini Aussie encontrei a possibilidade de poder levar o meu cão para todo o lado e também é um cão que come menos, tem menos problemas de saúde, porque é mais pequeno, é mais ligeiro O instinto disse-me, ‘tenho de aprender tudo sobre esta raça’, porque tenho de criar esta raça, tenho de dar a conhecer esta raça, porque é incrível", explica "Agora só tenho Mini Aussie e Pastor Australiano, para criar", mas "tenho outros cães, mas é só o mesmo o que eu gosto" E admite entre sorrisos que tem "uma verdadeira matilha em casa" Uma publicação partilhada por Vanessa | Mini Aussie & Pastor Australiano Portugal (@guardasdoberco) Tal como Ricardo, Vanessa controla o número de ninhadas "Não gosto de ter constantemente ninhadas, porque gosto de aproveitar a vida com os meus cães Gosto de pegar nas minhas cadelas e levá-las a sair, passear A vida de cão não é vida de canil Aqui, em minha casa, eles vivem soltos, quem quer dormir dentro de casa, dorme dentro de casa, quem não quer, dorme lá fora e está tudo bem Eles dão-se todos bem Para mim é fundamental ser assim, serem livres Claro que quando há cios, tem de haver mais cuidado e separo, mas fora isso estão juntos" O mais importante para Vanessa é a saúde, o carácter e só depois a beleza física "Sem saúde e sem carácter não vale a pena o cão ser lindo de morrer Se ninguém pode tocar, não vale a pena" E é por isso que dá importância a isso "Estou a importar sempre cães que sejam 'super friendly', porque para mim é importante Quando vou ao parque com os cães, se houver uma criança, não quero ter receio Para mim é importantíssimo que eles sejam mais tranquilos, até com outros cães" Depois de 20 anos na Suíça é difícil não fazer comparações e que neste país "tudo é pensado para o bem-estar animal" "Somos sensibilizados na escola, desde sempre, de como é que se cuida de um cão, o que é que se faz, o que é que não se faz" As pessoas são educadas a respeitar os animais "Tanto que até há leis que permitem que as pessoas que têm animais em casa vão a casa na hora do almoço para passear o cão", acrescenta "Há muitas leis, há muitas regras e, lá está, no fundo anda tudo nos eixos Na Suíça também há cães abandonados, mas não é como em Portugal São poucos" Antes de vender os cachorros, Vanessa tenta saber o máximo possível dos compradores Apesar dos seus cães serem caros, diz que tem pessoas com mais posses e menos posses a comprar "Tanto pessoas que ganham um ordenado mínimo e juntaram porque querem o cão, como temos pessoas que têm dinheiro e são pessoas de posses" Isso não é o mais determinante na hora de vender "Tenho pessoas que têm muito dinheiro, que são pessoas com clínicas, negócios e empresas, mas que me dizem, ‘olha, eu trabalho 10 a 12 horas por dia, o cachorro vai ficar sozinho, vai ficar no jardim e só tenho tempo ao fim de semana’ Então eu digo se calhar é melhor não comprar"
Ninguém sabe ao certo o número de criadores existentes em Portugal, mas segundo dados consultados pela CNN Portugal são cerca de 1.100. Estes são os legais. Os ilegais são uma incógnita. A "fábrica de animais" em Amarante era registado, ao contrário das situações de Palmela e Loures. Falámos também com o Tenente-coronel Fernando Alves, da Direção do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA), da GNR, uma das entidades responsáveis pela fiscalização dos criadores de animais de companhia.
Desde que se lembra, Richie é apaixonado por cães: "Eu encontrava animais na rua e levava-os para casa. Às escondidas...". Já adulto adotou um cão que é a sua "paixão até hoje. Ele já está com 18 anos. E graças a Deus continua cá". E foi numa ida ao veterinário com o seu cão que se apaixonou. "Fui ao veterinário e conheci a raça Chihuahua. Fiquei apaixonado por uma das meninas que a dona tinha, na altura, e ela levou-me a conhecer os bebés. Aí tornou-se a minha tragédia", recorda.
"Costumo dizer que o Chihuahua é um vício. Quem tem um quer o segundo e quem tem o segundo quer o terceiro. Eu tinha uma menina e ainda a tenho. Comecei a olhar para ela com aqueles olhos de 'gostava de continuar a ter mais'. Decidi deixá-la criar uma vez, mas eu ainda não era criador. E assim foi. Tive uma ninhada e fiquei logo com uma filha. Começou a vir o bichinho de gostar do parto, da gravidez, daquele processo todo gestacional e comecei à procura de outra chihuahua… uma terceira. Conheci uma criadora e adquiri outra. Comecei a falar com essa criadora e tornámo-nos bastantes amigos e ela ensinou-me muitas coisas. A partir daí a minha vida descambou. Quando eu dei conta, tinha 10. Depois disse, mais de 15 não tenho. Hoje já tenho mais. E foi assim que tudo nasceu".
Ou seja, a culpa é do chihuahua? "A culpa é do chihuahua", afirma a rir. "A minha raça de eleição há de ser sempre o chihuahua". Mesmo assim, faz criação de mais raças. "Tenho chihuahuas, tenho Yorkshire, Poodle Toy e Tackle. E agora o Biewer Terrier que adquiri este ano".
"O mundo dos cães é extremamente grande", assume Richie. "Infelizmente há cada vez mais criadores de fundo quintal. Não tenho nada contra a uma pessoa que tenha uma cadela e queira fazer uma ninhada e faça tudo em condições. Contudo, há criadores que têm montes de cães enjaulados. Os cães só servem para procriar e depois vendem a preços irrisórios", admite com tristeza.
As ninhadas que tem são geridas. "Não deixo as minhas cadelas só procriarem. Antes disso, elas são as minhas cadelas. São parte do meu meio familiar. E, portanto, elas têm o devido descanso e podem ir comigo para a praia, o café, para dentro de casa, para o sofá. O fundamento delas não é só procriar", explica. "Cada cadela minha tem uma ninhada por ano, com exceções. Imaginemos que eu tenho uma menina que fez uma cesariana. Ela, no ano a seguir, não vai ser mãe. Um criador, mais do que criar cães, tem de respeitar os cães. Quando comecei a criar cães, não comecei com o intuito de ganhar dinheiro. Comecei a criar cães por paixão".
Da mesma forma que controla as ninhadas, também é exigente ao nível dos compradores. "Não vendo cães só por vender. Pronto. Vamos supor, uma pessoa vem ter comigo e quer um cão. Eu tento prestar atenção e perceber como é que é o seu dia a dia. Se tem ou não tem crianças, porque elas precisam de ter a mínima noção do que é um animal".
Admite mesmo que já cancelou vendas no momento da entrega. "Tive uma senhora que veio buscar um bebé e disse que não ia vender porque percebi que o cão não seria um cão de família, mas um cão de varanda. E isso não faz sentido para mim. Eu não vendo cães, eu vendo membros de família".
Mesmo sem fazer grande publicidade às suas ninhadas nas redes sociais, Richie conta com o "passa palavra" e tem listas de espera. "Eu faço uma seleção. Tenho listas de espera para ninhadas e dessa lista vou selecionar as pessoas que me parecem como ser as melhores para eles. Tento sempre encontrar um match entre o cachorro e a pessoa", acrescenta.
Os cães que tem estão na sua casa, mas há exigências feitas pela Direção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) que precisa de cumprir. "Temos de ter as condições mínimas obrigatórias. Ou seja, temos de ter os canis com certas dimensões, tem que ter um pavimento adequado, maternidade, entre outras".
No entanto, defende que devia haver mais fiscalização e até testes de DNA. "Hoje é muito fácil tornar-se criador. Paga-se um x de valor e está tudo certo". E até em criadores registados os compradores podem ser facilmente enganados. "Há muita gente que fala na questão do LOP, que é o certificado de origem do cachorro, dos pais. Por exemplo, alguém tem uma cadela que não tem LOP e tem bebés. Depois, tem uma cadela, que não foi mãe e tem LOP. É possível registar a ninhada como a mãe sendo a que tem LOP. Não há uma fiscalização para isso. As pessoas compram enganadas a pensar que aquela é a mãe dos cachorros quando não é. E só por isso os cães valem muito mais".
Acontecem mais coisas que não deviam acontecer? "Hoje vêm-se coisas absurdas. Irmãos a cruzar com irmãos. Para mim é um descalabro. Vamos ter cães com problemas genéticos sem necessidade nenhuma".
Apesar de ser criador, aceita a ideia ‘não compre, adote’. "Há imensos animais para adoção e se toda a gente adotasse um animal, o nosso país seria melhor". Ele próprio tem animais resgatados.
"Se eu quiser um cão com uma determinada fisionomia, um determinado temperamento, uma determinada personalidade que à partida sabemos que aquela raça contém não vamos encontrar num canil. Se eu puser um Yorkshire para adoção, vão aparecer 50 mil pessoas a pedir o cão. Mas se eu puser para venda, não. E, depois, essas pessoas que o querem adotar vão-me criticar porque estou a vender o cão. O que eu quero dizer é, eu apoio associações, eu apoio canis, sem sombra de dúvida, eu próprio tenho animais resgatados. Agora, não podemos criticar um criador sério. Devemos agir contra pessoas que exploram e maltratam animais".
Richie admite que vê cada vez mais animais de raça abandonados, mas não consegue perceber o motivo. Mesmo assim fala "em modas". "Conheço criadores que antigamente eram criadores do Lulu da Pomerânia e venderam os cães todos para criarem caniches, poodle toys, porque está na moda". Uma decisão que o choca: "Se não gostar, não vou criar. Para mim não faz sentido ter um cão que não me diz nada".
Vanessa viveu e cresceu na Suíça. Regressou em 2018 a Portugal. No entanto, sempre cresceu rodeada de cães. "Cresci com a minha avó e a minha avó já criava há muitos anos. Nasci ali no meio e fui aprendendo. De tanta gente na família, alguém tinha de seguir a avózinha", brinca enquanto fala com a CNN Portugal.
A primeira raça que teve foi o Montanha dos Pirenéus, mas a dada altura percebeu que precisava de encontrar uma raça mais pequena. "Andámos a estudar várias raças, ainda estava na Suíça e este é um país que é uma bíblia de cães. Na Suíça as pessoas têm imensos, imensos cães mesmo". Entre todos, apaixonou-se pelo Mini Aussie e o Pastor Australiano.
"Com o pastor australiano e o Mini Aussie encontrei a possibilidade de poder levar o meu cão para todo o lado e também é um cão que come menos, tem menos problemas de saúde, porque é mais pequeno, é mais ligeiro. O instinto disse-me, ‘tenho de aprender tudo sobre esta raça’, porque tenho de criar esta raça, tenho de dar a conhecer esta raça, porque é incrível", explica.
"Agora só tenho Mini Aussie e Pastor Australiano, para criar", mas "tenho outros cães, mas é só o mesmo o que eu gosto" E admite entre sorrisos que tem "uma verdadeira matilha em casa".
Uma publicação partilhada por Vanessa | Mini Aussie & Pastor Australiano Portugal (@guardasdoberco)
Tal como Ricardo, Vanessa controla o número de ninhadas. "Não gosto de ter constantemente ninhadas, porque gosto de aproveitar a vida com os meus cães. Gosto de pegar nas minhas cadelas e levá-las a sair, passear. A vida de cão não é vida de canil. Aqui, em minha casa, eles vivem soltos, quem quer dormir dentro de casa, dorme dentro de casa, quem não quer, dorme lá fora e está tudo bem. Eles dão-se todos bem. Para mim é fundamental ser assim, serem livres. Claro que quando há cios, tem de haver mais cuidado e separo, mas fora isso estão juntos".
O mais importante para Vanessa é a saúde, o carácter e só depois a beleza física. "Sem saúde e sem carácter não vale a pena o cão ser lindo de morrer. Se ninguém pode tocar, não vale a pena". E é por isso que dá importância a isso.
"Estou a importar sempre cães que sejam 'super friendly', porque para mim é importante. Quando vou ao parque com os cães, se houver uma criança, não quero ter receio. Para mim é importantíssimo que eles sejam mais tranquilos, até com outros cães".
Depois de 20 anos na Suíça é difícil não fazer comparações e que neste país "tudo é pensado para o bem-estar animal". "Somos sensibilizados na escola, desde sempre, de como é que se cuida de um cão, o que é que se faz, o que é que não se faz". As pessoas são educadas a respeitar os animais. "Tanto que até há leis que permitem que as pessoas que têm animais em casa vão a casa na hora do almoço para passear o cão", acrescenta. "Há muitas leis, há muitas regras e, lá está, no fundo anda tudo nos eixos. Na Suíça também há cães abandonados, mas não é como em Portugal. São poucos".
Antes de vender os cachorros, Vanessa tenta saber o máximo possível dos compradores. Apesar dos seus cães serem caros, diz que tem pessoas com mais posses e menos posses a comprar. "Tanto pessoas que ganham um ordenado mínimo e juntaram porque querem o cão, como temos pessoas que têm dinheiro e são pessoas de posses".
Isso não é o mais determinante na hora de vender. "Tenho pessoas que têm muito dinheiro, que são pessoas com clínicas, negócios e empresas, mas que me dizem, ‘olha, eu trabalho 10 a 12 horas por dia, o cachorro vai ficar sozinho, vai ficar no jardim e só tenho tempo ao fim de semana’. Então eu digo se calhar é melhor não comprar".
Depois há quem diga "‘trabalho por turnos, tenho pausas e posso ir a casa, ou vai a mãe, ou a namorada. A escolha é logo direcionada para a pessoa que tem mais disponibilidade, não é a pessoa que tem mais dinheiro, é a pessoa que tem disponibilidade e arranja disponibilidade. Ter um cão mexe com a rotina, é importante que a pessoa tenha noção que não é um brinquedo".
E, como criadora, Vanessa deixa algumas garantias e exigências nos seus contratos. "Há uma coisa que escrevo no contrato, que é... em caso de dificuldade, em caso de qualquer problema, antes de pensarem em dar o cão, abandonar ou vender, falem comigo primeiro. Porque não quero nenhum dos meus cães num canil. Nem quero que os meus cães passem de mão em mão. Qualquer dificuldade, o cão volta para aqui", acrescenta.
Neste momento, vive uma situação destas. Uma tutora, que teve um azar na vida, pediu-lhe para ficar uns meses com o seu cão. "Ele está aqui e está ótimo. É o tempo de ela dar uma reviravolta na vida. Apesar de ter agora dificuldades nunca maltratou o cão. Ela ama o cão". A oferta de acolher os animais é também válida, por exemplo, quando os donos vão de férias.
Com sinceridade assume que devia haver mais fiscalização: "São vidas que estás a trazer ao mundo, és responsável pelas vidas que estás a trazer". Vanessa partilha frequentemente, nas redes sociais o seu dia a dia como criadora. O lado bom, o mau. Os passeios com os seus animais. Conselhos para quem tem cães. Nos vídeos que divulga conseguimos perceber melhor como gere as coisas e sua sinceridade não passa despercebida.
A Direção do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA), da GNR, é uma das entidades responsáveis pela fiscalização da criação de animais de companhia. O Tenente-coronel Fernando Alves é o responsável por este serviço e aceitou falar com a CNN Portugal sobre a criação de animais de estimação.
A quem compete a fiscalização? "É a DGAV - Direção-geral de Alimentação e Veterinária - e as entidades policiais", explica. "Nós temos acesso a um conjunto de bases de dados e quando necessitamos de saber alguma situação sobre isso, consultamos".
O Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente pode agir "por iniciativa própria", mas há situações em que vai acompanhado de outras entidades, porque "há coisas que são muito técnicas, nomeadamente na área da medicina veterinária. E as nossas ações, por norma, podem ser acompanhadas por médicos veterinários municipais ou por alguém que seja designado por parte da DGAV para tal".
Quando a SEPNA está em missão não pode ser impedida de entrar num espaço, mesmo que o espaço de criação seja na casa da pessoa. "Se essa é a sede da empresa onde ele labora, ele tem de nos dar acesso ao local onde estão os animais. Não queremos ver o quarto, nem a casa de banho, nem a sala, nem nada disso. Queremos ver o sítio onde estão os animais e queremos fiscalizar. Porque é aqui o local de criação", explica o Tenente-coronel.
E se for uma situação ilegal? "Pode haver situações dessas", afirma o militar. "Mas aí já entramos noutros cenários. Se for uma residência própria e não houver nenhum registo formal, já temos de ter alguma cobertura a nível judicial para entrar na casa da pessoa".
"A linha SOS Ambiente recebe denúncias de toda a gente, até denúncias anónimas", esclarece o Tenente-coronel. E estas são acompanhadas dentro do que lhes é permitido. "Dentro daquilo que podemos fazer, dentro daquilo que são as nossas competências e quando não são competências nossas também encaminhamos para as entidades certas".
"Se houver, por exemplo, uma situação de maus-tratos, isso é visto com a DGAV. Mas, normalmente, quando há retirada dos animais, é porque há uma situação já muito grave de maus-tratos". E nem todas as fiscalizações implicam isso mesmo: "Perante outras situações que haja ilegalidades, que são contraordenações e que são suscetíveis de serem reparadas, sem perigo iminente para a saúde e para o bem-estar dos animais, não se tiram os animais".
O recente caso de Amarante é uma situação limite e sem querer falar com caso concreto, o Tenente-coronel Fernando Alves explicou o que acontece. "Aqui já estamos a falar do código penal. E nesse tipo de situações, normalmente, até a autoridade judiciária é chamada. Vamos fazer uma retirada e para onde é que eles vão? Esta articulação toda tem de ser feita. Quando já temos grandes provas de que aqui há maus-tratos e são muitos animais, já estamos à espera de os trazer, vamos com entidades, estamos devidamente preparados. O CROA - Centro de Recolha Oficial de Animais –, ligados às Câmaras Municipais, por exemplo, é uma das entidades chamada".
Com base na experiência de muitos anos, quando há fotografias ou filmagens, as denúncias ganham força, porque é mais fácil abrir "um processo-crime". Se não houver indícios fortes, "às vezes não é tão simples como parece". É óbvio que perante a prática de um crime, quando se deslocam a um local, as autoridades têm legitimidade de agir "porque está o crime a acontecer".
Às vezes a própria GNR lança campanhas para a adoção de animais, mas o tenente-coronel lembra que "não tomamos partidos, o mais importante para nós é o equilíbrio e o bem-estar dos animais". Até porque, admite, "há bons criadores e bem hajam". A questão é "se não temos dinheiro para comprar um animal desses há sempre essa hipótese de adotar e de não estarmos a promover a ilegalidades. Já que também temos muitos animais para serem adotados que se podem revelar amigos para a vida. E são espetaculares".
O Tenente-coronel Fernando Alves revelou ainda à CNN Portugal o número de denúncias recebidas nos últimos três anos. Em 2023, foram registadas 3.520 denúncias, divididas nos sub âmbitos de animais de companhia; animais perigosos e animais potencialmente perigosos". Destas, apenas três estavam relacionadas com criação de animais de companhia.
Já em 2024 registaram-se 3.673 denúncias, nos sub âmbitos de animais de companhia; animais perigosos e animais potencialmente perigosos. Mais uma vez, só quatro casos estavam relacionados com criação de animais de companhia. Quanto a 2025 foram registadas 4.403 denúncias e apenas quatro relacionadas com criação.
Para quem estiver a pensar comprar um cão a SEPNA, da GNR, deixa alguns conselhos e sinais a ter em atenção:
- Desconfiar de ofertas demasiados baixas para determinado tipo de raça de animal. Analisar preços praticados no mercado;
- Verificar se todos os requisitos obrigatórios de venda online estão presentes no anúncio: número de identificação eletrónica da cria e da mãe (Número SIAC – Sistema de Identificação de Animais de Companhia); o número de inscrição do criador (verificar junto da DGAV), comprovativos médicos por forma a atestar a saúde do animal;
- Se o animal for de raça pura verificar o número de registo no livro de origens Português (LOP);
- Análise rigorosa do criador com visita às instalações de criação, para verificar condições de alojamento higiene e saúde dos animais;
- A compra unicamente via online e à distância são amplamente desaconselhadas;
- Desconfie de pedido de transferências bancárias à distância e envio do animal por transportadora;
- Exija sempre finalização de transação em contacto presencial;
- Exija sempre fatura da compra.
Além da GNR e dos criadores, a CNN Portugal também tentou falar com o Clube Português de Canicultura (CPC) e com a Direção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), mas nenhuma destas entidades respondeu aos nossos emails.
Mesmo assim a CNN Portugal teve acesso a um documento, datado de fevereiro de 2026, da DGAV que permitiu identificar quantos criadores estão oficialmente registados em Portugal.
Este documento, intitulado Alojamentos de animais de companhia com fins lucrativos autorizados, divulga os inscritos para "Fins higiénicos", "Hotel" e "Criação/Reprodução". Há vários casos em que aparece Hotel/Criação/Reprodução. Tal como surgem as categorias "Treino" e "Creches".
O número de criadores chega aos 1.108 registos. E estes são os casos de situações legais. Criadores registados, devidamente identificados, e que podem ser alvo de fiscalizações. Infelizmente, o caso de Amarante, estava nesta lista. Ao contrário das recentes situações em Palmela, onde a GNR identificou duas pessoas suspeitas do crime de maus-tratos a animais de companhia e apreendeu 54 cães durante uma operação de fiscalização ou, ainda, em Loures, onde 20 cães foram resgatados "em estado de saúde debilitado" de barracões.
Com base no mesmo documento, foi ainda possível saber quais as 20 raças com maior número de criadores em Portugal.
Referência da raça
junto à palavra Criação
Apesar de não ter respondido aos emails da CNN Portugal, foi possível encontrar estatísticas, na página oficial do Clube Português de Canicultura, sobre o número de animais registados, por exemplo, em 2025: foram 14.469 cães. Sendo que destes, a raça com o maior número de registos foi o Pastor Alemão (1.340).
Fonte: TVI





