Por: Ten-coronel Manuel Bernardo Gondola
Será que a África tem história?
Na verdade, essa pergunta se baseou em um texto que li de um pensador africano chamado Joseph Ki-Zerbo, intitulado "A África Tem História". Quando li esse título e o texto, obviamente, soaram para mim como uma resposta. Ou seja, Ki-Zerbo estava respondendo a alguém. Foi a partir daí que começaram as minhas inquietações. Mas por que a África não teria história?
Estava eu ali, nos anos finais da minha graduação em Filosofia, e, ao longo de toda a minha vida, essa pergunta ecoou em minha mente. Na minha própria história como africano, tentei 'entender' por que conhecemos tão pouco da nossa própria trajectória, das nossas origens ancestrais ou da história do continente africano, e por que tão pouco nos foi contado?
Então, a partir dessa premissa, comecei a questionar. Para nós, na filosofia, a pergunta é fundamental, pois 'farejamos' o indício e, a partir daí, 'perseguimos' as respostas por meio das fontes. Por isso, quando me perguntei se a África tem história, levei isso muito a sério e passei a reflectir: quem negou a história da África? Alguma pessoa? Algum pensador? É aí que chegamos justamente a Friedrich Hegel. Este filósofo alemão afirmou que a África não tem história. Porquê? Porque, para Hegel, uma sociedade, para ser considerada histórica, precisava de três elementos:
- Objectividade
- Estado
Lembrem-se de que estamos falando de um pensador europeu que está “determinando” as características de uma sociedade histórica. E, para ele, a África não possui nenhum desses três elementos: nem objectividade enquanto sociedade, nem Estado enquanto organização, e tampouco o Deus cristão. Ele ainda afirma que a África é composta por três partes distintas. Quais são essas partes?
Ele explica que existe a África ao sul do Saara, que ele chama de África propriamente dita. Depois, diz que existe a África europeia, a que fica ao norte do deserto, margeia o Mar Mediterrâneo e o baixo Nilo, e é definida por ele como o único vale da África que se religa à Ásia, próximo ao Chifre da África, na região da Etiópia e da Eritreia.
Então, para Hegel, essas três regiões são geograficamente distintas no continente africano. E ele afirma categoricamente que a África propriamente dita seria apenas essa ao sul do Saara, ou seja, a África subsaariana. E ele ainda diz: «a África propriamente dita, tão longe quanto a história regista, conservou-se fechada, sem laços com o resto do mundo; é a terra do ouro, debruçado sobre si mesma, a terra da infância que além do surgimento da historia consciente, está envolvida na cor negra da noite…[…] O que caracteriza os negros, é precisamente o facto de que sua consciência não tenha ainda chegado à intuição de nenhuma objectividade firme, como por exemplo Deus, a Lei , onde o homem se sustentasse na sua vontade, possibilitando assim a intuição do seu ser…Como já dito, o negro representa o homem natural, em toda a sua selvageria e petulância; é preciso fazer abstração de qualquer respeito e qualquer moralidade, do que se chama sentimento, se se deseja de facto conhecê-lo ; não se pode encontrar nada nesse carácter que possa lembrar o homem».
Essas são afirmações de Friedrich Hegel em sua obra "Lições sobre a Filosofia da História". É importante entendermos que esse pensador, que moldou todo o pensamento ocidental, determinou a não-humanidade dos povos da África subsaariana. Ele afirma exactamente que não há nada nesse carácter que possa lembrar o homem.
Estamos falando de um momento em que teorias darwinistas foram usadas de forma muito equivocada, mas intencional, para descaracterizar a humanidade de outros povos. Isso ocorreu não apenas com o continente africano, mas também com os povos nativos das Américas e da Ásia, bem como em relação às mulheres.
Por isso, é fundamental entendermos a que Hegel se refere. Ele descreve uma "característica não humana" dos povos ao sul do Saara, uma visão que influenciaria todo um pensamento posterior, embora ele não tenha sido o único a propagá-la.
Por exemplo, nós temos o Victor Hugo, sim, o grande escritor. Ele perguntou: "Que terra é essa, a África?" Bom, ele fez esse discurso em 18 de Maio de 1879, durante um banquete sobre a abolição da escravidão. Olha que curioso! Ele viu na África um universo absolutamente desconhecido, no qual a Europa, se quisesse tornar-se um novo mundo, deveria trazer a "civilização".
Mas a afirmação de Victor Hugo é categórica: “A Ásia tem sua história, a América tem sua história, a própria Austrália tem sua história; a África não tem história”. Victor Hugo “bebe” desse pensamento ocidental que sustentou essa ideia, dessa intelectualidade que moldou o pensamento sobre a África, principalmente nos séculos XVIII e XIX. É uma afirmação categórica dizer que a África não tem história. E por que é importante negar a história da África? Por que, para essas pessoas, foi tão importante negar a historicidade das sociedades africanas?
Mas não para por aí. Nós também temos aqui o Immanuel Kant. O Kant tem um texto sobre isso que, apesar de longo, eu acho necessário que você, como estudante de História (Ciências Sociais) e Filosofia, saiba o que ele disse sobre a África. Ele afirma:
«Os negros da África, por natureza, não têm nenhum sentimento que se eleve acima do pueril. O senhor Hume desafia quem que que seja a citar um único exemplo de um negro demonstrando talento e afirma que dentre as centenas de milhares de negros que são transportados de seus países para outros , mesmo dentre um grande numero deles q




