O sistema alimentar mundial chega ao actual episódio de El Niño excepcionalmente forte em melhores condições do que nas grandes crises climáticas das últimas décadas.
Stocks agrícolas elevados, avanços tecnológicos, maior produtividade e o surgimento de novos grandes exportadores aumentaram a capacidade de o mercado absorver perdas regionais de produção sem necessariamente reproduzir, com a mesma intensidade, os choques de preços observados em episódios anteriores.
É esta a principal conclusão de uma análise da Reuters sobre a evolução estrutural da agricultura mundial, que assinala que a produção agrícola global vem superando o crescimento do consumo e da população desde a década de 1980.
A transformação resulta de várias décadas de aumento dos rendimentos por hectare, utilização mais eficiente de fertilizantes, melhoria da irrigação, desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e maior capacidade de protecção das culturas.
O resultado é um sistema alimentar global que continua vulnerável ao clima, mas que dispõe hoje de uma margem de absorção substancialmente superior à existente durante os grandes episódios de El Niño de 1997-98 e 2015-16.
Mais Produção Por Hectare Mudou A Equação Alimentar
A expansão da produção agrícola mundial não ocorreu exclusivamente através do aumento da área cultivada.
Uma parte importante resultou de ganhos de produtividade.
Variedades de maior rendimento, utilização de fertilizantes, melhores sistemas de irrigação e aperfeiçoamento da protecção das culturas permitiram aumentar a produção de cereais e oleaginosas essenciais como arroz, trigo, milho e soja.
Andrew Whitelaw, da consultora agrícola australiana Episode 3, considera que, mesmo em condições de seca, melhores práticas de irrigação e avanços na ciência agrícola permitem actualmente preservar níveis de produção comercialmente viáveis.
Esta alteração é economicamente importante.
Num sistema agrícola com baixa produtividade, uma redução da precipitação traduz-se rapidamente numa forte queda da oferta. Quando os rendimentos agrícolas são mais elevados e existe maior capacidade tecnológica para gerir a escassez de água, o mesmo choque climático tende a produzir um impacto relativamente menor.
Não significa eliminar perdas. Significa reduzir a elasticidade da produção face ao choque climático.
El Niño Ainda Não Terá Mostrado Todo O Seu Impacto
A maior resiliência não elimina, contudo, o risco.
A seca associada ao El Niño já está a afectar o calendário agrícola em importantes regiões da Ásia, incluindo Índia, Sudeste Asiático e Austrália.
A Índia enfrenta uma época de monções deficitária, enquanto regiões produtoras de trigo na Austrália apresentam perspectivas de maior secura. Indonésia e Tailândia registam igualmente défices de humidade que podem afectar diferentes culturas.
O meteorologista Chris Hyde, da SkyFi, citado pela Reuters, considera que o fenómeno poderá intensificar-se durante o quarto trimestre de 2026 e início de 2027, podendo tornar-se um dos episódios de El Niño mais fortes alguma vez registados.
Isso significa que parte importante do impacto agrícola ainda poderá estar por materializar.
Os precedentes justificam prudência.
Nos episódios severos de 1997-98 e 2015-16, a redução das colheitas provocou aumentos significativos nos preços do açúcar e do óleo de palma, afectou a disponibilidade de arroz no Sudeste Asiático, reduziu as exportações australianas de trigo e obrigou países da África Austral a ampliar importações de milho.
Stocks Tornaram-Se A Primeira Linha De Defesa
A principal diferença em 2026 está nas reservas disponíveis.
O mercado entra no período crítico com stocks elevados de vários produtos agrícolas essenciais.
A Índia, responsável por cerca de 40% das exportações mundiais de arroz, possui reservas tão elevadas que enfrenta constrangimentos de capacidade de armazenamento. Segundo a Reuters, os stocks indianos equivalem a mais de um ano do volume total das exportações mundiais do cereal.
No trigo, quase metade dos stocks mundiais encontra-se na China, maior produtor e consumidor mundial do cereal.
Esta reserva poderá reduzir a necessidade de importações chinesas caso a seca comprometa a produção de fornecedores importantes como a Austrália, limitando a pressão sobre o mercado internacional.
Os stocks globais de óleo de palma também se encontram próximos de máximos históricos, ainda que o aumento da utilização do produto pelo programa de biodiesel da Indonésia possa reduzir essa disponibilidade nos próximos meses.
A existência de reservas elevadas funciona como uma espécie de seguro físico contra choques de produção.
Quando uma colheita falha, o mercado não depende exclusivamente da nova produção: pode recorrer aos stocks acumulados anteriormente.
Brasil E Rússia Redesenharam O Mapa Da Oferta
Outra transformação estrutural ocorreu na geografia das exportações agrícolas.
Há três décadas, o comércio mundial de algumas das principais commodities estava mais concentrado num conjunto relativamente reduzido de grandes fornecedores.
Hoje, novas potências agrícolas ampliaram significativamente a oferta disponível.
O Brasil tornou-se o maior exportador mundial de soja. As suas exportações aumentaram mais de 13 vezes desde 1997/98, segundo dados compilados pela Reuters.
Na Rússia, a mudança foi igualmente profunda.
As exportações de trigo passaram de aproximadamente um milhão de toneladas em 1997/98 para 48 milhões de toneladas no último ano.
Esta diversificação dos centros produtores aumenta a capacidade de o comércio mundial compensar perdas numa determinada região.
Uma quebra na produção australiana, por exemplo, pode ser parcialmente compensada por maiores disponibilidades no Mar Negro ou noutras origens. Da mesma forma, alterações na oferta norte-americana de soja encontram actualmente uma alternativa muito maior no Brasil.
O sistema torna-se, assim, menos dependente de um único espaço geográfico — embora guerras, sanções e restrições ao comércio possam voltar a concentrar riscos.
Tecnologia Está A Reduzir O Custo Económico Da Seca
A transformação não se limita ao volume produzido.
A agricultura de 2026 dispõe de instrumentos que praticamente não existiam durante o El Niño de 1997-98.
Híbridos de milho tolerantes à seca foram amplamente adoptados em várias regiões de África e das Américas desde 2015, permitindo preservar parte dos rendimentos em períodos de precipitação irregular.
Variedades de trigo mais resistentes ao calor e à escassez de água ganharam espaço na Índia e Austrália.
No Sul e Sudeste Asiático, variedades de arroz de ciclo mais curto permitem aos agricultores adaptar o calendário de produção a monções cada vez mais imprevisíveis.
Ao mesmo tempo, imagens de satélite, previsões climáticas sazonais, mapas de humidade dos solos, sistemas GPS e aplicação dirigida de fertilizantes permitem utilizar recursos de forma mais eficiente.
Mais recentemente, plataformas baseadas em inteligência artificial começaram a integrar informação meteorológica, características dos solos e dados das culturas para recomendar datas de plantio, níveis de irrigação, aplicação de fertilizantes e gestão de pragas.
Máximo Torero, Economista-Chefe da FAO, destaca que os governos dispõem hoje de informação muito superior à existente em anteriores crises climáticas, permitindo antecipar riscos e preparar respostas com maior antecedência.
Geopolítica Pode Ser O Elo Mais Frágil
Paradoxalmente, um dos maiores riscos para a produção agrícola de 2026 não nasce directamente no campo.
Nasce no mercado energético e nas cadeias globais de fornecimento de insumos.
As guerras no Médio Oriente e na região do Mar Negro estão a pressionar disponibilidade e preços de combustíveis e fertilizantes.
A crise no Estreito de Ormuz assume particular relevância.
Antes do bloqueio associado à guerra com o Irão, aquela passagem marítima assegurava aproximadamente um quinto dos fluxos mundiais de petróleo bruto e gás natural liquefeito, segundo a Reuters.
A ligação com a agricultura é directa.
O diesel é essencial para tractores, colheitadeiras, transporte e sistemas de irrigação. O gás natural é uma matéria-prima fundamental na produção de fertilizantes nitrogenados.
Quando energia e fertilizantes encarecem, os agricultores enfrentam duas alternativas: absorver custos mais elevados ou reduzir a aplicação de insumos.
A segunda opção pode comprometer os rendimentos agrícolas precisamente no momento em que o clima exige maior capacidade de resposta.
Torero adverte, por isso, que uma parte importante da evolução do mercado alimentar durante o segundo semestre dependerá da disponibilidade de insumos e do impacto da crise de Ormuz sobre os preços dos fertilizantes.
Resiliência Não Significa Imunidade À Inflação Alimentar
A abundância relativa de stocks pode limitar movimentos extremos dos preços, mas não impede necessariamente a inflação alimentar.
Um choque climático pode afectar diferentes produtos de forma desigual.
Culturas altamente concentradas geograficamente podem sofrer aumentos significativos mesmo quando o balanço agregado dos cereais permanece confortável.
Além disso, o preço pago pelo consumidor não depende apenas do valor da matéria-prima agrícola.
Inclui transporte, processamento, energia, embalagem, armazenagem e distribuição.
Por isso, mesmo num contexto em que os stocks mundiais evitem uma crise generalizada de escassez, custos elevados de energia, fertilizantes e logística podem continuar a transmitir-se aos preços finais dos alimentos.
A grande diferença poderá estar na intensidade: menos risco de uma ruptura sistémica da oferta, mas possibilidade real de pressões selectivas sobre preços e determinados mercados.
África Austral Continua Particularmente Exposta
Para a África Austral, as conclusões apresentam uma leitura ambivalente.
Por um lado, maior disponibilidade mundial de cereais e uma base exportadora mais diversificada aumentam a possibilidade de recorrer ao mercado internacional caso ocorram défices regionais.
Foi precisamente o que aconteceu em episódios anteriores de El Niño, quando países da região tiveram de aumentar importações de milho.
Por outro lado, a capacidade de importar não elimina o custo económico da dependência externa.
Uma seca regional pode reduzir simultaneamente a produção agrícola, os rendimentos rurais e a disponibilidade doméstica de alimentos, ao mesmo tempo que aumenta a necessidade de divisas para financiar importações.
Se os preços internacionais dos combustíveis, fertilizantes e fretes permanecerem elevados, a factura tende a aumentar adicionalmente.
Para Moçambique, A Lição Está Na Produtividade
Para Moçambique, o aspecto mais relevante desta transformação global poderá estar menos nos stocks internacionais e mais nas razões que permitiram construí-los.
A maior resistência do sistema alimentar mundial ao El Niño resulta de décadas de ganhos de produtividade, investigação agrícola, melhoramento de sementes, irrigação, fertilização, informação meteorológica e capacidade de armazenamento.
São precisamente áreas em que a agricultura moçambicana ainda dispõe de uma margem significativa de transformação.
Num país onde grande parte da produção continua dependente da chuva, o aumento da variabilidade climática torna a produtividade agrícola também uma questão de gestão de risco económico.
Irrigação, sementes adaptadas, armazenamento, extensão rural, informação climática e melhor acesso a insumos deixam de ser apenas instrumentos para produzir mais em anos normais. Tornam-se mecanismos para evitar grandes perdas nos anos adversos.
Da mesma forma, reservas estratégicas e melhores sistemas de armazenagem podem reduzir a velocidade com que uma má colheita se transforma em escassez e inflação.
O “Super” El Niño Será Um Teste À Agricultura Moderna
O actual El Niño poderá, por isso, constituir um dos maiores testes à transformação estrutural ocorrida na agricultura mundial ao longo das últimas três décadas.
O sistema entra no choque com vantagens importantes: grandes stocks, maior número de exportadores, melhor ciência agrícola e instrumentos tecnológicos muito mais sofisticados.
Mas enfrenta igualmente riscos que não estavam presentes com a mesma intensidade em episódios anteriores: guerras simultâneas em regiões estratégicas, perturbações energéticas, fertilizantes mais caros e cadeias comerciais ainda expostas a decisões políticas.
Se as reservas e a tecnologia conseguirem evitar uma repetição das crises alimentares associadas aos grandes episódios anteriores de El Niño, haverá uma demonstração importante do valor económico dos ganhos acumulados de produtividade.
Para Moçambique, a conclusão é particularmente relevante: a melhor protecção contra os choques climáticos não começa quando a seca chega. Constrói-se durante anos, através de produtividade, tecnologia, armazenamento e mercados agrícolas mais eficientes.
Fonte: O Económico



