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Reformas Práticas E Estados Capazes Contrariam A Estagnação Global Do Desenvolvimento

Questões-Chave

O desenvolvimento mundial está a perder velocidade. Depois de décadas marcadas pela redução da pobreza, aumento da esperança de vida, expansão da escolarização e melhoria do acesso a serviços essenciais, o progresso económico e social avança agora ao ritmo mais lento dos últimos 75 anos.

O alerta consta de uma reflexão assinada por Paschal Donohoe, Director-Geral e responsável pelo conhecimento no Grupo Banco Mundial, e Indermit Gill, economista-chefe e vice-presidente sénior para a Economia do Desenvolvimento, baseada nas conclusões do Atlas of Global Development 2026

Segundo o Atlas, a desaceleração atravessa praticamente todos os domínios que determinam o bem-estar das populações: redução da pobreza, saúde, educação, rendimentos, acesso à electricidade, infra-estruturas e participação social. Mantidas as tendências actuais, mais de 50 economias em desenvolvimento poderão necessitar de um século ou mais para alcançar os níveis de desenvolvimento hoje observados nos países de rendimento elevado. 

O problema não se resume, portanto, a uma recuperação económica mais lenta depois da pandemia. Trata-se de um enfraquecimento estrutural da capacidade de os países transformarem crescimento económico em produtividade, emprego, serviços públicos e melhoria sustentada das condições de vida.

Choques Recentes Agravaram Uma Desaceleração Que Já Estava Em Curso

A pandemia, os conflitos, os desastres climáticos e o aumento do endividamento aprofundaram as dificuldades dos países em desenvolvimento. Mas o Banco Mundial observa que a perda de velocidade começou antes destes choques.

A explicação encontra-se também no crescimento reduzido da produtividade, no investimento insuficiente, na fragilidade institucional e na predominância de políticas orientadas para responder a emergências imediatas, sem continuidade suficiente para produzir transformações de longo prazo. 

Esta distinção é importante. Quando a desaceleração é atribuída exclusivamente a acontecimentos externos, a resposta tende a concentrar-se na assistência financeira, no alívio da dívida ou na estabilização temporária da economia.

Quando se reconhece que parte do problema está na baixa produtividade, na debilidade do Estado, na reduzida capacidade de execução e na ausência de investimento estruturante, a agenda muda. Passa a exigir reformas institucionais, infra-estruturas, competências, melhor afectação do capital e condições para o crescimento das empresas.

O desenvolvimento não é, nesta perspectiva, apenas uma consequência da disponibilidade de financiamento. Depende da capacidade de transformar recursos em resultados, assegurar continuidade às políticas e fazer com que trabalhadores, empresas e capitais se desloquem para actividades mais produtivas.

Ruanda Mostra O Papel Da Capacidade Institucional

A trajectória do Ruanda ocupa um lugar central na análise do Banco Mundial.

Depois do genocídio de 1994, poucas projecções antecipavam a dimensão da recuperação económica e social que o país alcançaria nas décadas seguintes. O Banco Mundial estima que a pobreza extrema tenha recuado de cerca de 90% para menos de 40%. Caso mantenha o ritmo observado, o país poderá reduzi-la para menos de 10% até 2050. 

O crescimento económico foi determinante, mas não explica isoladamente o resultado. O Ruanda combinou investimento público, maior capacidade de execução do Estado e uma transformação gradual da estrutura produtiva.

Parte da força de trabalho transferiu-se de actividades de baixa produtividade para sectores de maior valor, com destaque para o comércio, turismo, transportes, serviços e organização de conferências internacionais.

A experiência ruandesa mostra que o crescimento produz impactos mais duradouros quando é acompanhado por instituições capazes de definir prioridades, coordenar actores, executar investimentos e manter uma direcção estratégica ao longo do tempo.

Não significa que todos os aspectos do modelo ruandês sejam transferíveis para outros países. A principal lição é que políticas ambiciosas sem instituições que assegurem implementação, acompanhamento e correcção produzem resultados limitados.

Conectividade Digital Avança Por Caminhos Diferentes

A República Quirguiz e o Camboja demonstram que um mesmo objectivo de desenvolvimento pode ser alcançado através de estratégias distintas.

Na República Quirguiz, o acesso à Internet aumentou de aproximadamente 30%, em 2015, para mais de 90%, em 2024, segundo a análise do Banco Mundial. O país investiu na expansão das infra-estruturas físicas, instalou cabos de fibra óptica em áreas insuficientemente servidas e reforçou as ligações transfronteiriças. 

O projecto Digital CASA permitiu instalar mais de três mil quilómetros de fibra óptica nas sete regiões do país e ligar milhares de escolas, unidades sanitárias, bibliotecas e administrações locais à Internet de alta velocidade

O Camboja percorreu um trajecto diferente. O acesso digital, estimado pelo artigo do Banco Mundial em cerca de 7% no ponto de partida, aproximou-se de 70%, impulsionado sobretudo pela rápida adopção do telefone móvel, pelo investimento privado e pela passagem directa para a banda larga móvel, sem necessidade de reproduzir integralmente as redes fixas utilizadas nas economias mais avançadas. 

As duas experiências demonstram que a transformação digital não exige necessariamente uma única arquitectura.

Países com menor atractividade comercial ou grandes territórios rurais podem precisar de maior investimento público em redes de base. Mercados com elevada penetração móvel e operadores privados dinâmicos podem avançar mais rapidamente através de telecomunicações móveis e concorrência empresarial.

O elemento comum foi a existência de um objectivo nacional claro: ligar rapidamente a população à economia digital e utilizar a conectividade como plataforma para educação, saúde, serviços públicos, inclusão financeira e criação de empresas.

Infra-Estrutura Digital Passa A Ser Tão Básica Quanto Estradas E Energia

A expansão da Internet deixou de representar apenas uma melhoria nas comunicações. Tornou-se uma infra-estrutura fundamental para a produtividade.

A conectividade permite que pequenas empresas acedam a clientes e fornecedores, reduz os custos de informação, facilita pagamentos, aproxima os cidadãos dos serviços públicos e amplia o acesso à formação.

Nas zonas rurais, pode ligar produtores aos preços dos mercados, permitir o acesso a previsões meteorológicas, facilitar transferências financeiras e reduzir o custo de deslocação para serviços administrativos.

Mas a disponibilidade de sinal não é suficiente. Os ganhos dependem também do preço dos equipamentos e dos dados, da qualidade da rede, das competências digitais, da segurança das plataformas e da capacidade das instituições para transformar conectividade em serviços úteis.

A principal lição da República Quirguiz e do Camboja não é, portanto, que a instalação de fibra ou a expansão das redes móveis resolva automaticamente os desafios do desenvolvimento. É que a tecnologia produz resultados quando investimento, regulamentação, concorrência e políticas públicas convergem em torno de uma prioridade executável.

Etiópia Combina Rede Nacional E Soluções Fora Da Rede

A experiência da Etiópia demonstra a importância de adaptar as soluções às condições territoriais.

Em 2012, apenas uma pequena parcela das comunidades rurais tinha acesso à rede eléctrica. Actualmente, quase metade da população rural possui alguma forma de acesso, de acordo com o Banco Mundial. Cerca de três quartos dos agregados rurais que obtiveram electricidade fizeram-no através de soluções solares. 

Em áreas onde a densidade populacional e a proximidade das infra-estruturas justificavam o investimento, o país expandiu a rede nacional. Nas comunidades remotas, adoptou sistemas solares domésticos e mini-redes.

A Etiópia evitou, deste modo, condicionar toda a expansão da electricidade à construção de grandes redes centralizadas, cuja instalação poderia ser demorada ou economicamente inviável em comunidades dispersas.

A combinação de soluções permitiu acelerar o acesso, embora o país continue a enfrentar um dos maiores défices energéticos de África. Estimativas recentes indicam que dezenas de milhões de etíopes ainda não dispõem de electricidade suficiente ou fiável. 

No âmbito da Missão 300, cerca de 4,6 milhões de pessoas foram ligadas à electricidade na Etiópia, apoiadas por reformas que reduziram os custos das ligações. 

A experiência mostra que o desenvolvimento não precisa de esperar por uma solução perfeita e universal. Pode avançar através de combinações pragmáticas, desde que estas respondam às condições económicas, geográficas e institucionais de cada território.

Não Existe Uma Fórmula Única, Mas Existem Fundamentos Comuns

Os quatro países partiram de realidades distintas e avançaram através de sectores diferentes.

O Ruanda concentrou-se na capacidade institucional, no investimento público e na transformação estrutural. A República Quirguiz reforçou a infra-estrutura física de telecomunicações. O Camboja beneficiou da expansão privada das redes móveis. A Etiópia combinou sistemas eléctricos centralizados e descentralizados.

Apesar das diferenças, as experiências apresentam elementos comuns: definição de prioridades, investimento em infra-estruturas, abertura à inovação, continuidade das políticas e capacidade de implementação.

Também mostram que o desenvolvimento não resulta necessariamente de programas amplos que procuram resolver todos os constrangimentos simultaneamente.

Em contextos de recursos limitados, a selecção de alguns bloqueios decisivos pode produzir efeitos multiplicadores. Electricidade permite instalar indústrias e conservar alimentos. Internet reduz custos de transacção e amplia serviços. Estradas ligam produtores aos mercados. Instituições capazes fazem com que os investimentos sejam concluídos, operados e mantidos.

A qualidade da escolha é tão importante quanto a dimensão do financiamento.

Conhecimento Só Gera Desenvolvimento Quando Alcança A Execução

É neste contexto que o Grupo Banco Mundial está a estruturar o chamado Knowledge Bank.

A instituição pretende complementar o seu papel tradicional de financiador com uma função mais activa na identificação, adaptação e disseminação de soluções que tenham demonstrado resultados.

O objectivo é reduzir a distância entre evidência e implementação: quando um país encontra uma forma eficaz de expandir energia, digitalizar serviços ou elevar a produtividade, outros devem poder aprender com essa experiência sem recomeçar todo o processo. 

Esta abordagem reconhece que a transferência de conhecimento não pode limitar-se à reprodução de políticas.

Uma solução bem-sucedida precisa de ser ajustada à dimensão do país, capacidade fiscal, qualidade institucional, geografia, estrutura empresarial e disponibilidade de competências.

O conhecimento de desenvolvimento torna-se útil quando permite identificar o princípio que produziu o resultado, separar esse princípio das características específicas do país de origem e adaptá-lo a uma nova realidade.

Missão 300 Dá Escala Às Soluções Energéticas

Os autores apresentam a Missão 300 como exemplo da dimensão necessária para produzir mudanças visíveis.

A iniciativa conjunta do Grupo Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento pretende ligar 300 milhões de pessoas à electricidade em África até 2030. O Banco Mundial assumiu a meta de alcançar 250 milhões, enquanto o Banco Africano de Desenvolvimento deverá contribuir com os restantes 50 milhões.)

Até Junho de 2026, mais de 50 milhões de pessoas em 40 países já tinham obtido acesso à electricidade através de intervenções associadas à iniciativa. 

A estratégia cobre toda a cadeia energética, desde a geração e transmissão até à distribuição e às ligações finais, combinando expansão das redes, mini-redes e sistemas solares.

A electricidade é tratada não apenas como serviço social, mas como infra-estrutura económica. Permite operar sistemas de irrigação, unidades de processamento, redes digitais, hospitais, escolas e pequenas empresas.

Esta ligação entre energia e produção é decisiva. A electrificação só produz o seu impacto máximo quando é acompanhada por investimentos que transformem a energia disponível em emprego, rendimento, serviços e actividade empresarial.

Para Moçambique, A Questão Central É A Selecção De Prioridades Executáveis

As experiências apresentadas pelo Banco Mundial oferecem uma leitura relevante para Moçambique.

O país enfrenta simultaneamente necessidades de estabilidade macroeconómica, criação de empregos, infra-estruturas, energia, conectividade, capital humano, transformação produtiva e resiliência climática.

O novo Quadro de Parceria do Grupo Banco Mundial para Moçambique, referente ao período 2026–2031, coloca no centro a criação de mais e melhores empregos, apoiada por infra-estruturas fundamentais, corredores económicos, energia, formação da força de trabalho e mobilização de capital privado. 

A convergência com as experiências do Ruanda, República Quirguiz, Camboja e Etiópia está na necessidade de transformar prioridades gerais em intervenções concretas.

Para Moçambique, isso pode significar ligar energia a zonas produtivas, conectividade digital a serviços e empresas, corredores a cadeias de valor e formação profissional às necessidades reais do mercado.

O Mozambique Economic Update de Março de 2026 defende igualmente uma abordagem pragmática e baseada em ecossistemas, na qual os instrumentos de política são alinhados com as capacidades do país e com os sectores que apresentam maior potencial de produtividade. 

Esta perspectiva afasta-se da ideia de que uma única grande reforma produzirá transformação generalizada. O progresso pode resultar de sequências de intervenções bem coordenadas, em sectores e territórios onde existam condições para gerar resultados demonstráveis.

Energia E Digitalização Podem Tornar-Se Plataformas De Produtividade

Moçambique integra a Missão 300 através de um Compacto Nacional de Energia que procura ampliar o acesso, mobilizar investimento, melhorar o funcionamento do sector eléctrico e utilizar os recursos energéticos como instrumento de industrialização e criação de empregos. 

O país possui igualmente projectos destinados a acelerar a conectividade, melhorar os serviços públicos digitais e expandir a economia digital. Contudo, diagnósticos recentes continuam a identificar baixos níveis de conectividade, limitações na infra-estrutura digital e insuficiência de competências tecnológicas. 

A experiência internacional indica que estes investimentos devem ser avaliados pelo seu efeito produtivo, e não apenas pelo número de ligações instaladas.

Uma ligação eléctrica que não seja suficientemente fiável para suportar uma empresa tem impacto económico limitado. Uma comunidade com cobertura de Internet, mas sem equipamentos, competências ou serviços digitais acessíveis, permanece parcialmente excluída.

O desafio consiste em converter infra-estruturas em utilização produtiva: energia para irrigação e indústria; conectividade para serviços financeiros, educação e negócios; estradas para comércio; e instituições para assegurar continuidade e qualidade.

O Desenvolvimento Acelera Quando Capital E Trabalho Se Tornam Mais Produtivos

Por detrás das experiências analisadas está um princípio económico comum: o desenvolvimento exige que trabalho e capital se desloquem para utilizações mais produtivas.

Um trabalhador que passa de uma actividade de subsistência para um serviço, indústria ou exploração agrícola mais produtiva tende a gerar maior rendimento. Uma estrada que reduz custos logísticos aumenta o retorno do investimento. A electricidade permite mecanização. A conectividade facilita inovação, informação e escala.

A transformação estrutural ocorre quando estes movimentos se acumulam e alteram a composição da economia.

O crescimento baseado apenas na expansão de sectores extractivos ou em grandes investimentos sem ligações suficientes ao tecido empresarial pode elevar o Produto Interno Bruto sem produzir uma transformação equivalente do emprego e das condições de vida.

Os casos destacados pelo Banco Mundial mostram, pelo contrário, a importância de criar mecanismos através dos quais o crescimento alcance empresas, trabalhadores, comunidades e serviços públicos.

A Disciplina Da Implementação Distingue Ambição De Transformação

A mensagem central não é que os países devam copiar o Ruanda, o Camboja, a República Quirguiz ou a Etiópia.

É que a estagnação não constitui um destino inevitável, mesmo num contexto internacional marcado por dívida, conflitos, alterações climáticas e menor crescimento.

Os países ainda podem avançar quando identificam obstáculos concretos, adoptam soluções compatíveis com as suas condições, investem em infra-estruturas fundamentais e desenvolvem instituições capazes de executar.

A dimensão dos programas importa, mas a consistência da implementação é decisiva. Projectos sem continuidade, infra-estruturas sem manutenção e reformas sem capacidade institucional dificilmente alteram a trajectória de desenvolvimento.

Os exemplos reunidos pelo Banco Mundial demonstram que diferentes caminhos podem produzir progressos. O elemento comum é a passagem da intenção para a execução, do investimento para o serviço e da política para o resultado.

Num mundo em que dezenas de países poderão precisar de um século para reduzir a distância que os separa das economias avançadas, acelerar esta passagem tornou-se uma das principais prioridades da política de desenvolvimento.

Fonte: O Económico

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