Resumo
Miami transformou-se numa espécie de colónia da América Latina, com influências espanholas por toda a parte e uma adoração por Lionel Messi. Com Portugal a jogar contra a Colômbia no feudo de Messi, surge a questão de como será recebido Cristiano Ronaldo. Argentinos e colombianos expressam respeito por ambos os jogadores, com colombianos a torcerem por Ronaldo e argentinos a elogiarem a carreira de Cristiano. A atmosfera em Miami é de festa e diversidade, com adeptos de várias nacionalidades a celebrar juntos. A rivalidade entre Messi e Ronaldo parece ser ultrapassada pelo respeito mútuo e pela apreciação do talento de ambos.
O seu nome? Messi. Lionel Messi.
Desde que ele aterrou na Florida, a cidade construi um altar só para ele. Mas o destino, que no futebol tem sempre um sentido de humor muito particular, ditou que fosse exatamente aqui, no quintal de Messi, que Portugal disputasse o último e decisivo jogo da fase de grupos.
Frente à Colômbia, que está a um Peru e a uma Bolívia de distância da Argentina.
A pergunta, portanto, impunha-se: como irá ser recebido Cristiano Ronaldo no feudo de Lionel Messi? Fomos para a rua de Miami tentar escutar quem dita as regras da paixão sul-americana. E a resposta é uma lição de cultura desportiva.
«Eu acho que o Cristiano vai ser bem recebido, como um histórico jogador de futebol que é. Miami é uma cidade que adora o futebol, sobretudo desde que o Messi veio para aqui jogar. E aqui todos os grandes jogadores de futebol são bem recebidos», atira um de três adeptos argentinos que viajam juntos.
«Miami ama o Messi, mas o Cristiano já transcendeu a rivalidade que as pessoas criaram. O Cristiano é uma lenda e quem ama o Messi tem grande respeito por ele. Os dois permitiram a toda uma geração viver uma batalha épica entre dois grandes jogadores», sublinha outro.
A conversa decorre por entre música e muita festa, em Ocean Drive, numa Torre de Babel de nacionalidades, sotaques e camisolas. Há colombianos, mexicanos, equatorianos, brasileiros, alguns espanhóis, um ou outro português. Aqueles três amigos, porém, falam muito alto, soltam frequentes gargalhas e trazem a camisola celeste. Não há que enganar: são mesmo argentinos.
«É impossível, com a idade que estes dois mitos têm, que alguém queira o mal de um deles. Só temos de aproveitar os últimos momentos que cada um tem para oferecer ao futebol.»
Ora se os argentinos têm respeito por Cristiano Ronaldo, os colombianos vão mais longe do que isso. Para além de James, Luís Díaz ou Suárez, no coração dos colombianos ainda há espaço para Ronaldo. Dolores, uma adepta que veio de Bogotá, resume bem o sentimento geral.
«Viemos ver o Ronaldo. Nós amamo-lo! Queremos que ganhe o título e que leve a taça do Mundial à Colômbia para no-la mostrar», atira a rir.
«Ele merece ser campeão do mundo. A carreira de Cristiano merece essa taça. Por isso espero que faça um grande Mundial e que não marque à Colômbia. Que fiquem empatados!»
Mas será que o Hard Rock Stadium consegue passar noventa minutos sem a tradicional provocação de gritos por Messi?
«Messi, Messi, Messi.»
«Consegue, claro. A Colombia ama Ronaldo. Vão gritar mais pelo Cristiano do que por Messi. E por Luís Díaz, claro», insiste Dolores.
Uma amiga ao lado, corrige-a. Nem Messi, nem Ronaldo.
«Lucho, Lucho, Lucho», atira, lembrando Luis Díaz, a figura maior da Colômbia.
A ideia de que os colombianos se vão juntar aos argentinos nos cânticos por Messi é, portanto, rapidamente desmentida. Um avô colombiano, que passeia com o filho e o neto, diz até ter dúvidas que na Colômbia as pessoas gostem mais de Messi do que de Ronaldo.
«Da nossa parte não vão ouvir 'Messi, Messi, Messi'. Talvez dos argentinos, mas nós não. Da nossa parte vão ouvir gritos por James e por Lucho [Díaz]», explica.
«O Cristiano é um ídolo global, um profissional impressionante dentro e fora de campo durante toda a vida. Ser assobiado por nós? Não, não, não, não, não. De jeito nenhum. Cristiano Ronaldo é uma personagem muito especial. Um profissional impressionante durante toda a carreira. Durante toda a sua vida foi isso que ele demonstrou: um craque dentro e fora do campo.»
A prova maior dessa admiração global está ali mesmo, ao lado do avô. O neto, um jovem com não mais de dez anos, treina numa escola de futebol na Colômbia e tem em Cristiano o ídolo número um. Apresenta-se com a camisola da Colômbia, mas diz ter em casa uma de Portugal com o nome e o número de Cristiano Ronaldo.
«Chega aqui, diz-lhes como é», atira o pai.
O miúdo aproxima-se, um pouco envergonhado. Quando lhe perguntamos porquê, a resposta é pronta: «Pela forma como Cristiano joga e pelos troféus que ganha.»
E quando fores grande queres jogar como o Messi ou como o Ronaldo?, perguntamos.
O miúdo não hesita. «Como o Cristiano, claro.»
Jairo é outro dos milhares de colombianos que andam por ali. Está sentado numa esplanada, com a esposa e o filho, e diz que é normal haver alguma animosidade, afinal de contas vão ser adversários na última jornada da fase de grupos. Mas não mais do que isso.
«O Cristiano tem uma receção muito boa em toda a América Latina e, na Colômbia, somos metade Cristiano e metade Messi. Acho que vão elogiá-lo e que muita gente vem só para os ver, porque é o seu último Mundial. É um sonho para todos nós fazermos parte do fim de uma lenda como o Cristiano. Para a maioria dos colombianos, é um privilégio.»
Voltamos aos argentinos. Afinal de contas é no coração deles que o sentimento por Messi bate mais forte. E vivem milhares de argentinos em Miami. Milhares de colombianos, venezuelanos, haitianos, cubanos, hondurenhos, claro, mas também milhares de argentinos.
Ignacio não é um desses, afinal de contas viajou com os amigos de Córdoba, mas ele é a prova viva dessa devoção. Tem uma coleção com mais de 200 camisolas de Messi em casa.
«Quanto dinheiro gastei? Não sei, não é uma questão de dinheiro. É paixão. É uma mostra de afeto ao maior da história», justifica.
«Mas o público argentino não odeia o Cristiano. Vai haver gritos por Messi? Sim, provavelmente, isso faz parte. Mas o Cristiano não vai ser assobiado. Todos os adeptos gostam muito dele, há muito respeito. Toda a comunidade latina o respeita, é um grande ídolo.»
No fim de contas, Miami pode ser a cidade de Messi, mas Cristiano Ronaldo não tem fronteiras. E se o destino quiser ser verdadeiramente poético, ali mesmo ao lado, um amigo de Ignacio, o tal argentino das 200 camisolas, já tem o guião escrito para o fim do torneio.
«Um Portugal-Argentina na final. Seria a final desejada por todo o mundo futebolístico. Messi contra Cristiano, no último jogo de ambos num Mundial. Que loucura!»
Fonte: TVI




