Resumo
Komil, do Uzbequistão, viajou com amigos até Houston para ver Cristiano Ronaldo jogar. Num hotel, encontraram mexicanos e tentaram convencê-los a apoiar Ronaldo e o Uzbequistão, mas não Portugal. Após um tratado internacional no elevador, os grupos separaram-se, com os mexicanos a celebrar e os uzbeques a sonhar com um resultado improvável: Ronaldo marcar três golos e o Uzbequistão quatro. No final, cada um seguiu o seu caminho, com os mexicanos a festejar e os uzbeques a acreditarem no sucesso da sua missão diplomática. Cristiano Ronaldo levava a bola para casa, o Uzbequistão os três pontos, e os mexicanos mais uma rodada de cervejas.
O cenário deu-se já depois da meia-noite. Imagine, leitor: um grupo de cinco ou seis mexicanos carregados de cervejas, com aquele ar de quem acha um roubo os preços de hotel nos Estados Unidos, mas que mesmo assim só quer chegar ao quarto para que a fiesta comece.
De repente cruzam-se com três adeptos do Uzbequistão, faladores e bem dispostos, com uma missão diplomática inadiável: convencer os mexicanos a torcerem por Cristiano Ronaldo e pelo Uzbequistão. Mas atenção: por Portugal, nem pensar.
«Ronaldo e Uzbequistão, ok? Portugal, não», repetiam os uzbeques, perante o olhar algo enfadado dos mexicanos.
«Se o Ronaldo marcar e o Uzbequistão marcar, tens de lançar o teu chapéu para o relvado», acrescentou um uzbeque, já a invejar o sombrero colorido de um deles.
Entretanto, para sorte dos mexicanos, os grupos separaram-se: os americanos ficaram no rés-do-chão. Nós dirigíamo-nos para o elevador.
«Portugal?», atirou um. Sim, Portugal.
O elevador começou a subir e eu, incapaz de resistir a este tratado internacional em curso, meti conversa. O líder da comitiva uzbeque, percebendo que tinha ali mais público para a sua causa, assumiu o papel de professor primário e começou a dar uma aula de fonética:
«Uzbequistão. Repitam comigo: Uz, be, quis, tão», ia dizendo, enquanto eu repetia para defender a honra de Portugal: sim, conhecemos o Uzbequistão e sabemos como se procuncia.
«Uzbequistão!», insistiu, explicando logo ali o plano perfeito para eles:
«Mas o Ronaldo marca um golo, somos grandes fãs do Ronaldo. Todos os uzbeques são grandes fãs de Ronaldo, ele é como uma figura histórica. Todos o respeitamos. Se ele marcar um golo, ficamos felizes. Força, Ronaldo. E força, Uzbequistão, ao mesmo tempo.»
Fez uma pausa dramática, olhou para nós, portuguses, e atirou uma nova proposta para cima da mesa. Provavelmente irrecusável para ele.
«Então, o Ronaldo marca três golos, um hat-trick. E o Uzbequistão marca quatro golos. 4-3, ficamos todos felizes. Combinado?»
Não, não está combinado, mas entretanto nós saímos aqui, no segundo andar. Houve só tempo para dizer que se chamava Komil e qual era a conta de Instagram dele.
Entretanto a porta fechou-se e eles lá seguiram, a pensar no sucesso diplomático que tinham alcançado no espaço entre dois andares. Cristiano Ronaldo levava a bola para casa, o Uzbequistão leva os três pontos e os mexicanos celebravam com mais uma rodada de cervejas.
Quer dizer, três golos assentavam bem a Ronaldo, sem dúvida. E os mexicanos até mereciam mais uma rodada. Mas o resto... esqueçam lá isso.
Fonte: TVI






