“Essa televisão vai apodrecer-te os miolos.” Quem nunca ouviu uma versão desta frase, dita por uma avó a passar pela sala? Pois bem, um novo estudo veio dar-lhe uma réplica curiosa, embora, como quase sempre em ciência, a conclusão seja bastante mais matizada do que o título assustador que anda a circular. A investigação, publicada numa revista científica associada à Alzheimer’s Association, seguiu mais de 1.700 adultos durante quase 24 anos. E encontrou uma associação que fez levantar sobrancelhas: os homens que viam TV com frequência na meia-idade tendiam, décadas depois, a apresentar menor volume cerebral em regiões vulneráveis à doença de Alzheimer, além de mais sinais do tipo de dano associado ao declínio cognitivo. Antes de desligares a televisão para sempre, é preciso perceber exatamente o que o estudo diz e, sobretudo, o que não diz.
O ponto mais interessante não é “a TV faz mal”. É a comparação. Os participantes cujo trabalho os obrigava a estar sentados grande parte do dia tendiam a ter cérebros com aspeto mais saudável do que os que passavam horas em frente à televisão apesar de, em ambos os casos, estarem sentados.

Por outras palavras, o problema não parece ser estar sentado em si, mas o que se está a fazer enquanto se está sentado. “Durante anos concentrámo-nos em quanto tempo as pessoas passam sentadas. As nossas descobertas sugerem que devíamos também prestar atenção ao que estão a fazer enquanto isso”, resumiu um dos autores, o biólogo David Raichlen, da Universidade do Sul da Califórnia.
A explicação proposta é a da chamada reserva cognitiva. Ver televisão é uma atividade mentalmente passiva. Já o trabalho de secretária, mesmo sedentário, costuma envolver planear, ler, escrever, decidir e resolver problemas, atividades que mantêm o cérebro em esforço e que, segundo estudos anteriores, podem ajudar a construir defesas contra o envelhecimento cerebral.
Aqui está o detalhe que obriga a travar qualquer conclusão apressada: o efeito apareceu nos homens, mas não nas mulheres. A própria equipa ficou surpreendida.

As hipóteses avançadas são várias e nenhuma está confirmada. Homens e mulheres podem acumular tempo sentado de forma diferente, elas tendem a interromper mais vezes; eles, a preferir maratonas longas de desporto ou filmes no sofá. Podem existir diferenças hormonais, fatores de estilo de vida ou formas distintas de o cérebro envelhecer. Seja qual for a razão, esta diferença entre sexos é um sinal claro de que a história é mais complexa do que “TV encolhe o cérebro”.
E é aqui que convém ter cuidado com os títulos alarmistas. Este é um estudo observacional, o que significa que encontrou uma associação, não provou uma causa. Ver muita televisão pode estar ligado a menor volume cerebral. Isto sem que uma coisa cause a outra e pode haver um terceiro fator por trás de ambas, ou a relação pode até correr no sentido inverso.
Além disso, o tempo de televisão foi reportado pelos próprios participantes, um método bem menos fiável do que uma medição objetiva. E os autores admitem que outros comportamentos não medidos, petiscar, beber álcool ou dormitar em frente ao ecrã, podem ter contribuído para os resultados.
Ou seja: não é para levar como uma sentença, mas como uma pista.

Apesar das limitações, o estudo tem méritos: acompanhou pessoas durante quase um quarto de século e usou ressonâncias magnéticas em vez de se ficar por testes de memória. E aponta para uma ideia razoável e alinhada com outras investigações, a de que um cérebro ativo enquanto está sentado se comporta de forma diferente de um cérebro passivo.
A leitura útil não é demonizar a televisão, mas equilibrar. Alternar o serão passivo com atividades que puxam pela cabeça, ler, fazer puzzles, um passatempo manual, uma conversa, parece ser bom para o cérebro. E, já agora, fazer umas pausas a meio da maratona de streaming não faz mal a ninguém, mesmo que a tua plataforma preferida já não te obrigue a isso com intervalos publicitários.
Fonte: Zero Zero




