Resumo
O secretário-geral da ONU, António Guterres, participou do Diálogo Anual de Alto Nível entre Nações Unidas e União Africana em Addis Ababa, Etiópia, alertando que a África será a primeira vítima da crise no Oriente Médio, com impactos como desaceleração do crescimento e aumento da inflação mesmo com a abertura do estreito de Ormuz. Guterres criticou "ingerências externas" que agravam conflitos na África, mencionando o Sudão como exemplo, onde armas financiadas por nações não africanas dificultam acordos de paz. Na esfera económica, destacou a importância dos minerais africanos para a economia verde e digital, enfatizando a necessidade de evitar a exploração sem valor agregado. Guterres sublinhou a importância de priorizar a África e reconhecer o legado do colonialismo, escravidão e tráfico transatlântico, defendendo reformas institucionais para promover o desenvolvimento africano.
António Guterres também se reuniu com o presidente da Comissão da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf, e com o presidente da França, Emmanuel Macron.
Impactos da crise no Oriente Médio
No encontro com os dois líderes ele disse que a África será “a primeira vítima da crise no Oriente Médio”, ressaltando que mesmo com uma eventual abertura imediata do estreito de Ormuz, o continente sofreria com desaceleração do crescimento e aumento da inflação.
Guterres adicionou que as dificuldades de acesso à energia produzida por combustíveis fósseis e a fertilizantes serão muito maiores para a África, com custos mais elevados e inflação mais severa.
O líder da ONU disse que essa é uma razão adicional para fazer todo o possível para apoiar o continente africano neste momento particularmente difícil e para “pôr fim a esse pesadelo decorrente da crise no Oriente Médio”.
O presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf (à direita), saudou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, na 10.ª Conferência da União Africana–Nações Unidas, em Adis Abeba
Fornecimento de armas
Mais cedo, ao discursar para os líderes africanos, António Guterres afirmou que “ingerências externas” estão agravando muitos dos conflitos que se desenrolam no continente e tornando-os mais difíceis de resolver.
Ele citou o caso do Sudão, enfatizando que as armas que chegam ao país “são financiadas sobretudo por nações não africanas, que possuem interesses difíceis de compreender”.
O líder da ONU declarou que tais ações têm consequências trágicas, como drones matando civis e destruindo infraestrutura essencial, e tornam “extremamente difíceis” as negociações de acordos de paz.
Guterres lembrou que os esforços de mediação da própria União Africana são frequentemente prejudicados, como no caso da Líbia, onde o bloco abriu uma frente diplomática, mas foi surpreendido por uma intervenção militar externa.
O secretário-geral ressaltou que, desde então, a Líbia se tornou o epicentro a partir do qual os dramas do terrorismo no Sahel e em outras regiões africanas se desenvolveram.
“Vantagem extraordinária” com minerais essenciais
Na esfera econômica, ele ressaltou que a África possui uma “vantagem extraordinária”, com minerais essenciais para o desenvolvimento da economia verde e da economia digital.
Guterres destacou que a ONU vai se colocar na “linha de frente” para evitar o mesmo mecanismo de exploração do passado, no qual os recursos saem da África sem valor agregado, enquanto as consequências ambientais e sociais permanecem no continente.
Emocionado ao mencionar que esta provavelmente será a última cúpula da qual participará como secretário-geral, Guterres disse que priorizar a África em todas as áreas de atuação da ONU é uma “questão política e moral decisiva”.
Ele declarou que é essencial não esquecer do legado do colonialismo, da escravidão e do tráfico transatlântico, e de valorizar a demanda da União Africana por reconhecimento e reparação dessas mazelas.
O líder da ONU ressaltou ainda o compromisso de exigir a reforma de instituições financeiras internacionais, bem como do Conselho de Segurança, para remover obstáculos que dificultam o desenvolvimento africano.
Fonte: ONU






