Resumo
O Banco Comercial e de Investimentos (BCI) fechou o ano de 2025 com resultados mistos: enquanto expandiu a atividade comercial e melhorou indicadores financeiros, viu os lucros caírem 40,31% devido ao agravamento do risco soberano, aumento de imparidades e custos extraordinários. O banco reportou um lucro líquido de 3,604 mil milhões de meticais, comparado com os 6,039 mil milhões de 2024, atribuindo a redução ao aumento de riscos na dívida pública e custos extras. Apesar disso, a atividade comercial manteve-se resiliente, com o produto bancário a crescer 4,23% para 22,373 mil milhões de meticais, impulsionado pela margem financeira e receitas de comissões. A margem financeira beneficiou da redução de custos de financiamento, refletindo a descida das taxas de juro e otimização da gestão de tesouraria. As comissões líquidas cresceram 10,35%, impulsionadas pela banca eletrónica e serviços digitais, contribuindo para a melhoria do rácio Cost-to-Income.
De acordo com o Relatório e Contas 2025, o resultado líquido do banco caiu 40,31%, fixando-se em 3,604 mil milhões de meticais, contra 6,039 mil milhões registados em 2024.
A instituição atribui esta redução sobretudo ao agravamento dos factores de risco associados aos títulos da dívida pública e ao elevado volume de custos extraordinários relacionados com processos de devolução de comissões e juros a clientes, decorrentes da interpretação do Aviso n.º 19/GBM/2017 do Banco de Moçambique.
Ainda assim, o banco sublinha que a actividade comercial permaneceu resiliente ao longo do exercício.
O produto bancário cresceu 4,23%, atingindo 22,373 mil milhões de meticais, sustentado essencialmente pelo desempenho da margem financeira e pelo crescimento das receitas líquidas de comissões.
Margem Financeira Beneficia Da Redução Dos Custos De Funding
A margem financeira ascendeu a 17,644 mil milhões de meticais, representando um crescimento de 7,11% face a 2024.
Segundo o relatório, o desempenho reflectiu sobretudo a redução significativa dos juros e encargos similares pagos pelo banco, particularmente sobre depósitos de clientes, num contexto de descida das taxas de juro e redução das reservas obrigatórias iniciada pelo Banco de Moçambique em Janeiro de 2025.
O BCI refere igualmente que beneficiou da optimização da gestão de tesouraria, da maior utilização de aplicações remuneradas no Banco de Moçambique e do crescimento das operações em moeda estrangeira.
O relatório destaca que a redução das reservas obrigatórias libertou recursos remunerados no Banco de Moçambique, permitindo ao banco aplicar mais fundos em instrumentos remunerados e compensar parcialmente o impacto da descida das taxas de juro sobre a margem financeira.
Banca Electrónica E Comissões Sustentam Crescimento Das Receitas
As comissões líquidas cresceram 10,35%, alcançando 3,034 mil milhões de meticais.
O banco atribui este desempenho à crescente utilização dos canais de banca electrónica, expansão da base de clientes e aumento do volume de transacções digitais.
As receitas provenientes de cartões, banca electrónica e prestação de serviços assumiram maior relevância na estrutura de rendimentos da instituição, reflectindo a contínua digitalização da actividade bancária.
Ao mesmo tempo, o rácio Cost-to-Income melhorou de 46,21% para 44,32%, evidenciando ganhos de eficiência operacional e racionalização de custos.
Custos Extraordinários E Imparidades Penalizam Resultados
Apesar da melhoria operacional, os resultados líquidos acabaram fortemente pressionados por factores extraordinários e pelo agravamento do risco soberano.
Os Outros Gastos Operacionais cresceram 40,83%, totalizando 354,642 milhões de meticais, influenciados por perdas extraordinárias, custos associados à devolução de comissões cobradas indevidamente e reforço das provisões relacionadas com inspecções do Banco de Moçambique.
Paralelamente, os resultados em operações financeiras caíram 7,44%, reflectindo a redução da disponibilidade de divisas no mercado nacional e a diminuição dos ganhos líquidos em operações cambiais.
O banco reconhece igualmente que o agravamento do perfil de risco da carteira soberana teve impacto relevante na necessidade de reforço das imparidades.
Qualidade Do Crédito Deteriora-Se
Os indicadores de qualidade da carteira de crédito deterioraram-se de forma significativa em 2025.
O rácio de crédito em incumprimento (NPL) agravou-se para 13,19%, face aos 10,19% registados em 2024.
Ao mesmo tempo, a cobertura do crédito vencido por imparidades recuou para 73,6%, contra 79,1% no exercício anterior.
O relatório indica que a deterioração reflecte o agravamento do risco de crédito associado à conjuntura económica e ao perfil de risco soberano.
Os activos financeiros líquidos do banco recuaram 12,52%, fixando-se em 50,274 mil milhões de meticais.
Depósitos Crescem E Reforçam Estrutura De Liquidez
Apesar do contexto adverso, os recursos de clientes cresceram 4,47%, atingindo 191,689 mil milhões de meticais.
Os depósitos em moeda nacional continuaram a representar a principal componente da estrutura de financiamento do banco, com destaque para os depósitos à ordem, que representam mais de 61% da carteira total.
O BCI afirma que a expansão dos depósitos foi impulsionada pelo aumento da base de clientes, crescimento da actividade económica e impacto positivo da política monetária acomodatícia.
O banco sublinha igualmente que manteve uma posição de liquidez “elevada e robusta” ao longo do exercício.
Capitalização E Solvabilidade Mantêm-Se Confortáveis
Os capitais próprios do banco aumentaram 15,33%, alcançando 37,084 mil milhões de meticais.
O rácio de Fundos Próprios de Base (Tier 1) subiu para 31,34%, enquanto o rácio global de solvabilidade atingiu 31,44%, ambos confortavelmente acima dos mínimos regulamentares definidos pelo Banco de Moçambique.
Segundo o relatório, o reforço da capitalização resultou essencialmente da retenção integral dos resultados líquidos de 2024 e da redução dos activos ponderados pelo risco.
Apesar da forte deterioração dos lucros, o BCI considera que os resultados de 2025 demonstram resiliência operacional num contexto marcado pela desaceleração económica, pressão sobre divisas, deterioração do risco soberano e aumento das exigências prudenciais no sistema financeiro nacional.
Fonte: O Económico






