Resumo
O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, defendeu em Luanda que o turismo deve ser um dos principais impulsionadores da economia do país, contribuindo para diversificar a base produtiva e reduzir a dependência do gás natural. Durante a Cimeira de Investimento do Fórum Global do Turismo 2026, Chapo destacou a importância de reposicionar o turismo como setor estratégico de crescimento, emprego e projeção internacional. Enquanto reconhece os investimentos no gás natural, o Presidente salienta a necessidade de diversificar a economia moçambicana. O turismo é visto como um setor transformador, capaz de gerar emprego em várias áreas, desde pequenos produtores a grandes investidores. Chapo realça a inclusividade do turismo e a importância do desenvolvimento de infraestruturas para tornar Moçambique mais competitivo neste setor.
A posição foi apresentada durante o painel de Diálogo Presidencial da Cimeira de Investimento do Fórum Global do Turismo 2026, realizada sob o lema “Moldando o Futuro do Turismo em Destinos Emergentes”. Perante investidores, decisores públicos, instituições internacionais e líderes empresariais, o Chefe do Estado expôs a visão do Governo para reposicionar o turismo como sector estratégico de crescimento, emprego, inclusão e projecção internacional de Moçambique.
Embora tenha reconhecido a dimensão dos investimentos previstos no sector do gás natural liquefeito, avaliados entre 50 e 60 mil milhões de dólares nos próximos dez anos, Daniel Chapo deixou claro que Moçambique não pretende ancorar o seu futuro económico apenas nas indústrias extractivas.
“Não queremos concentrar-nos apenas no gás. Queremos diversificar a nossa economia”, afirmou o Presidente, referindo-se aos grandes projectos energéticos em curso no país, envolvendo empresas como a ENI, a TotalEnergies e a ExxonMobil.
Turismo Como Sector De Transformação
A mensagem presidencial coloca o turismo no centro de uma estratégia económica mais ampla. Ao contrário dos sectores extractivos, que tendem a gerar emprego mais especializado e concentrado em determinadas fases dos projectos, o turismo tem capacidade de irradiar benefícios por várias camadas da economia, desde pequenos produtores e comerciantes informais até operadores hoteleiros, transportadores, guias turísticos, empresas de serviços, gestores e investidores de grande escala.
“O turismo gera emprego desde a mulher que vende produtos na rua até ao gestor de topo de um hotel, resort ou estância turística de luxo”, declarou Daniel Chapo, sublinhando o carácter inclusivo do sector.
Esta leitura é particularmente relevante para Moçambique, país com uma extensa costa, ilhas, praias, parques naturais, biodiversidade, património cultural e corredores ecológicos com forte potencial de atracção turística. A questão central, porém, continua a ser a transformação desse potencial em projectos estruturados, financiáveis, sustentáveis e capazes de gerar valor local.
Para o Governo, o turismo deve deixar de ser visto apenas como actividade complementar e passar a ser tratado como uma plataforma económica capaz de articular infra-estruturas, transportes, energia, água, formação profissional, serviços financeiros, promoção internacional e integração territorial.
Infra-Estruturas No Centro Da Competitividade
Daniel Chapo apontou o desenvolvimento de infra-estruturas como uma das condições essenciais para tornar Moçambique mais competitivo enquanto destino turístico e de investimento. Estradas, corredores de desenvolvimento, abastecimento regular de água e energia eléctrica foram destacados como factores indispensáveis para desbloquear o potencial das zonas de maior vocação turística, ecológica e económica.
A abordagem reflecte uma visão integrada do sector. Sem infra-estruturas adequadas, destinos com elevado potencial permanecem limitados na sua capacidade de receber visitantes, atrair investidores, garantir serviços de qualidade e integrar comunidades locais nas cadeias de valor do turismo.
O turismo, nesta perspectiva, não se desenvolve isoladamente. Depende da qualidade das ligações rodoviárias e aéreas, da estabilidade no fornecimento de energia, do acesso à água, da segurança, da conectividade digital, da capacitação de recursos humanos e da previsibilidade do ambiente regulatório.
Conectividade Aérea Como Desafio Africano
Outro ponto central da intervenção presidencial foi a conectividade aérea no continente africano. Daniel Chapo lamentou que algumas rotas entre países africanos continuem a depender de escalas na Europa ou no Médio Oriente, o que encarece viagens, dificulta a mobilidade regional e limita a criação de circuitos turísticos integrados.
O Presidente elogiou a ligação aérea entre Luanda e Maputo, actualmente operada cinco vezes por semana, mas defendeu o reforço das conexões no espaço da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. A possibilidade de aumentar a frequência para voos diários entre as duas capitais foi igualmente discutida no encontro com o Presidente angolano, João Lourenço.
A melhoria da conectividade aérea entre Moçambique e Angola pode facilitar a circulação de turistas, empresários, investidores e mercadorias, além de criar condições para pacotes turísticos regionais que liguem destinos complementares na África Austral.
Daniel Chapo referiu ainda o apoio do Banco Africano de Desenvolvimento a iniciativas voltadas para a reestruturação de companhias aéreas africanas, com o objectivo de facilitar circuitos turísticos integrados e reduzir barreiras à mobilidade no continente.
Reformas, Vistos E Ambiente De Negócios
No plano legislativo e regulatório, o Presidente defendeu reformas destinadas a tornar Moçambique mais atractivo para o investimento privado. Entre as medidas sugeridas estão a simplificação dos processos administrativos, a facilitação na emissão de vistos e a eventual introdução dos chamados “vistos dourados” para investidores estrangeiros que realizem investimentos de grande dimensão e pretendam residência permanente.
“É importante criar um ambiente favorável aos investidores nacionais e estrangeiros. Se possível, devemos até introduzir vistos dourados para investidores que realizem grandes investimentos e desejem residência permanente nos nossos países”, afirmou.
A proposta insere-se numa visão de concorrência internacional por capital, turistas, talentos e projectos. Num mercado global em que vários destinos emergentes procuram atrair investimento turístico, a rapidez dos processos, a clareza das regras e a facilidade de mobilidade tornam-se factores de competitividade.
Para Moçambique, a simplificação administrativa pode ser decisiva para transformar interesse empresarial em decisões concretas de investimento, sobretudo em sectores como hotelaria, resorts, marinas, parques turísticos, ecoturismo, formação profissional e serviços complementares.
Cabo Delgado E A Mensagem Aos Investidores
A segurança em Cabo Delgado foi igualmente abordada pelo Chefe do Estado. Daniel Chapo procurou tranquilizar os investidores, afirmando que os desafios existentes estão circunscritos a uma parte do território nacional e não devem ser generalizados a todo o país.
Como sinal de recuperação da confiança internacional, o Presidente referiu que o projecto da TotalEnergies foi retomado em Novembro do ano passado e que o Governo trabalha para concluir, em Setembro próximo, a decisão final de investimento da ExxonMobil, num projecto estimado em 20 mil milhões de dólares.
Esta mensagem é relevante porque a percepção de risco continua a influenciar decisões de investimento, não apenas nos sectores extractivos, mas também em turismo, infra-estruturas, logística e serviços. Ao separar os desafios localizados da imagem global do país, o Governo procura proteger a atractividade de destinos turísticos e corredores económicos com elevado potencial.
Angola E Moçambique Reforçam Agenda Económica
À margem da cimeira, Daniel Chapo manteve um encontro de alto nível com o Presidente angolano, João Lourenço, numa altura em que Moçambique e Angola procuram aprofundar a cooperação económica e comercial.
O reforço das ligações aéreas entre Luanda e Maputo, a atracção de investimento estrangeiro e a implementação de projectos estruturantes estiveram no centro das conversações. Os dois Chefes de Estado passaram em revista o estado da cooperação bilateral e reafirmaram a vontade política de abrir novas frentes de parceria em sectores estratégicos.
Este encontro dá continuidade a uma aproximação iniciada com maior intensidade em 2025, quando Daniel Chapo realizou uma visita oficial de trabalho a Angola e testemunhou a assinatura de acordos de cooperação em áreas como transportes, turismo, cultura e acção social.
A diplomacia económica entre Maputo e Luanda ganha, assim, uma dimensão prática: facilitar conectividade, estimular investimento, aproximar empresários e transformar relações políticas históricas em ganhos económicos concretos.
Novos Parceiros Sinalizam Interesse
A agenda de Daniel Chapo em Luanda incluiu encontros com dirigentes de organizações internacionais e líderes empresariais de Angola, dos Emirados Árabes Unidos e de outros mercados. Entre os interlocutores estiveram a Secretária-Geral da ONU Turismo, Shaikha Al Nuwais, o Presidente do World Tourism Forum Institute e representantes de grupos empresariais interessados em sectores como turismo, infra-estruturas, logística, agro-indústria, energia, águas, indústria e formação profissional.
A Secretária-Geral da ONU Turismo manifestou intenção de visitar Moçambique para aprofundar oportunidades de cooperação, com destaque para a valorização do potencial costeiro e a capacitação de profissionais qualificados para o sector turístico.
“Falámos sobre os seus planos para o turismo, e uma das questões que enfatizou foi a beleza da costa de Moçambique. Prometi-lhe que visitaria o país para ver como podemos ajudar”, afirmou Shaikha Al Nuwais.
Também o Grupo Mangrove Investment, dos Emirados Árabes Unidos, manifestou disponibilidade para apoiar a modernização das infra-estruturas moçambicanas. O seu director executivo, Christos Grigorakis, afirmou que os Emirados estão empenhados em apoiar Moçambique no desenvolvimento e transformação das suas infra-estruturas nos próximos anos.
Do lado angolano, o Grupo OPAIA anunciou intenção de estabelecer presença permanente em Moçambique, através da criação de um escritório e de uma empresa local, privilegiando parcerias com empresários moçambicanos. O grupo aponta interesse em sectores como construção civil, energia, águas, indústria e fertilizantes.
Diplomacia Económica Com Foco Em Resultados
Daniel Chapo classificou a deslocação a Luanda como “extremamente positiva e produtiva”, sublinhando que os contactos realizados reforçam a estratégia de diplomacia económica activa de Moçambique, orientada para a atracção de investimento, criação de emprego e promoção do desenvolvimento económico sustentável.
O Presidente garantiu que instituições nacionais competentes, incluindo a Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações, o Gabinete Central de Reformas e Projectos Estratégicos da Presidência da República e os ministérios sectoriais, irão acompanhar os processos para assegurar que as intenções manifestadas se traduzam em resultados concretos.
Este ponto é central para a credibilidade da agenda. A captação de interesse internacional só terá impacto económico se for seguida por estruturação de projectos, acompanhamento institucional, definição de prioridades, eliminação de obstáculos administrativos e capacidade de execução.
Turismo Como Alternativa Estratégica
A intervenção de Daniel Chapo em Luanda marca uma tentativa de reposicionar o turismo no debate económico nacional. Ao apresentar o sector como alternativa estratégica à dependência do gás, o Presidente sinaliza que Moçambique precisa de uma matriz de crescimento mais diversificada, inclusiva e territorialmente distribuída.
O gás natural continuará a desempenhar papel relevante na economia moçambicana, sobretudo pela dimensão dos investimentos previstos e pelo potencial de receitas futuras. Mas a aposta no turismo permite colocar no centro da agenda económica áreas com maior capacidade de geração directa de emprego, ligação às comunidades, estímulo a pequenas empresas e promoção internacional do país.
A questão decisiva será transformar discurso em execução. Moçambique dispõe de activos naturais e culturais relevantes, mas precisa de infra-estruturas, segurança, conectividade, formação, financiamento, promoção consistente e ambiente regulatório competitivo.
A mensagem de Luanda é, por isso, mais do que uma defesa do turismo. É uma proposta de diversificação económica: usar os recursos naturais, a localização geográfica, a diplomacia regional e as parcerias internacionais para construir um modelo de crescimento menos dependente da extracção e mais assente em serviços, emprego, investimento e integração africana.
Fonte: Documento “Chapo defende o turismo como motor de transformação económica de Moçambique”.
Fonte: O Económico






