InícioEconomiaSem Estradas, O Crescimento Não Chega Ao Emprego

Sem Estradas, O Crescimento Não Chega Ao Emprego

Resumo

A criação de emprego em Moçambique está diretamente ligada à capacidade de transformar o crescimento económico em atividade empresarial viável, destacando a importância crucial da infraestrutura, especialmente das estradas, para o desenvolvimento das empresas no país. O economista moçambicano Egas Daniel sublinhou que a falta de infraestruturas limita a capacidade de crescimento das empresas, afetando a produção, o transporte, o acesso a mercados e a mobilidade dos trabalhadores. Para gerar mais empregos, Moçambique precisa de setores com maior intensidade de mão-de-obra e mais ligações à economia local, como a agricultura comercial, a agro-indústria, a construção, o turismo, os transportes, a logística, o comércio e os serviços empresariais, mas estes setores dependem de infraestruturas adequadas para prosperar.

Questões-Chave

A criação de emprego em Moçambique não depende apenas de mais investimento ou de taxas de crescimento económico mais elevadas. Depende, antes de tudo, da capacidade de transformar esse crescimento em actividade empresarial viável, capaz de produzir, transportar, vender, contratar e reinvestir.

É neste ponto que a infra-estrutura deixa de ser apenas uma questão de obras públicas e passa a ser uma questão central de política económica e de emprego.

Na NOVAfrica Conference on Economic Development, realizada em Carcavelos, Portugal, o economista moçambicano Egas Daniel, do International Growth Centre, chamou atenção para uma realidade estrutural: a principal limitação ao desenvolvimento das empresas em Moçambique continua a ser a falta de infra-estruturas, particularmente de estradas.

O argumento é relevante porque coloca o debate no lugar certo. Uma estrada não representa apenas ligação entre dois pontos geográficos. Pode significar menor custo de transporte, maior acesso a mercados, menor desperdício de produtos agrícolas, mais previsibilidade na entrega de mercadorias, maior mobilidade de trabalhadores e melhores condições para o surgimento de pequenos negócios em zonas anteriormente isoladas.

Quando uma empresa não consegue fazer chegar a sua produção ao mercado com regularidade, rapidez e custos competitivos, a capacidade de crescer fica comprometida antes mesmo de se discutir crédito, tecnologia ou expansão comercial.

Quando A Estrada Passa A Ser Política De Emprego

Egas Daniel destacou que, nos últimos dez anos, a população moçambicana terá crescido a uma média anual de 2,8%, ritmo superior ao crescimento económico registado fora do sector extractivo. A comparação é particularmente importante: uma economia pode crescer em termos agregados sem criar empregos suficientes para absorver os jovens que entram todos os anos no mercado de trabalho.

A indústria extractiva ilustra bem essa limitação. Os megaprojectos podem elevar exportações, receitas fiscais e investimento directo estrangeiro, mas a sua capacidade de gerar emprego directo em larga escala é limitada. Para criar oportunidades de trabalho mais disseminadas, o país precisa de sectores com maior intensidade de mão-de-obra e mais ligações à economia local.

É aqui que entram a agricultura comercial, a agro-indústria, a construção, o turismo, os transportes, a logística, o comércio e os serviços empresariais. Mas estes sectores dependem de condições materiais que não podem ser ignoradas.

Um produtor agrícola precisa de estradas transitáveis para escoar a colheita antes que se deteriore. Um operador turístico precisa de acesso seguro e previsível aos destinos. Uma empresa de construção depende de materiais, equipamentos, energia e transporte. Um negócio logístico só existe onde há corredores funcionais, mercados conectados e serviços de apoio.

A falta de estradas, portanto, não é apenas um constrangimento rural. É um factor que condiciona o próprio surgimento de cadeias de valor, aumenta os custos de transacção e reduz a capacidade de as empresas moçambicanas competirem dentro e fora do país.

Estudos do Banco Mundial sobre o investimento rural em Moçambique mostram que o reforço da despesa pública em estradas está associado à redução do tempo de acesso aos transportes e à criação de emprego privado, com efeitos mais expressivos nas zonas rurais. A implicação é clara: quando o investimento público aproxima comunidades, mercados e serviços, cria condições para que a actividade privada se expanda.

Mais Do Que Construir, É Preciso Ligar A Economia

A resposta ao défice de infra-estruturas não deve limitar-se à construção de novas estradas. O desafio é escolher investimentos que criem efectivamente conectividade económica.

Uma estrada com impacto transformador é aquela que liga uma zona produtiva a um mercado, um centro agrícola a uma unidade de processamento, um distrito turístico a um aeroporto ou porto, ou uma comunidade a serviços de saúde, educação e energia. É também aquela que recebe manutenção adequada e continua utilizável durante todo o ano, incluindo nos períodos de chuva.

Moçambique precisa, por isso, de combinar os grandes corredores logísticos com redes secundárias e terciárias capazes de ligar produtores, pequenas empresas e comunidades aos principais centros de consumo e exportação.

A ligação entre estradas, mercados e emprego é especialmente importante para reduzir as assimetrias territoriais. Sem investimento em conectividade, as oportunidades tendem a concentrar-se nas cidades e nos corredores já consolidados, enquanto uma parte significativa da população continua afastada de redes de produção, comércio e serviços.

A política de infra-estruturas deve ser orientada por uma pergunta simples: que actividade económica poderá crescer com esta ligação? A resposta deve considerar não apenas o volume de tráfego, mas também o potencial de produção agrícola, turismo, comércio transfronteiriço, acesso a serviços públicos e integração de pequenas e médias empresas.

Burocracia Também Encarece O Emprego

O diagnóstico de Egas Daniel não se limita às estradas. O economista apontou igualmente os entraves burocráticos ligados ao quadro regulatório, à criação de empresas e à fraca comunicação entre instituições públicas.

Este é um aspecto decisivo. Uma empresa pode estar ligada por estrada a um mercado, mas continuará a enfrentar dificuldades se demorar demasiado tempo a obter licenças, se tiver de percorrer várias instituições para cumprir obrigações administrativas ou se as entidades públicas não partilharem informação entre si.

A fragmentação institucional tem um custo económico directo. Aumenta o tempo gasto pelos empresários, cria incerteza, abre espaço para custos informais e reduz a capacidade de planear investimentos. Para as pequenas empresas, que geralmente dispõem de menos recursos financeiros e administrativos, estes custos podem determinar a diferença entre sobreviver, desistir ou permanecer na informalidade.

A melhoria do ambiente de negócios exige, por isso, mais do que simplificação formal de procedimentos. Exige instituições que funcionem de forma coordenada, plataformas digitais interoperáveis, regras previsíveis, prazos claros e mecanismos de resposta que reduzam a distância entre o Estado e quem quer investir, produzir ou contratar.

O Banco Mundial tem colocado a criação de mais e melhores empregos no centro do seu novo Quadro de Parceria com Moçambique para o período 2026–2031. A orientação reforça uma ideia essencial: emprego não surge como resultado automático do crescimento. Resulta da combinação entre infra-estruturas, ambiente regulatório, investimento privado, acesso a mercados e qualificação da força de trabalho.

Competências E Gestão: O Outro Lado Da Equação

A qualidade das infra-estruturas e das instituições é indispensável, mas não resolve, por si só, o problema do emprego. A economia também precisa de trabalhadores com competências adequadas e de empresas com capacidade de gestão.

Egas Daniel destacou a importância de formar pessoas em áreas como turismo, construção, logística e agricultura. São sectores com potencial de absorção de mão-de-obra, mas onde a produtividade depende de conhecimentos práticos, certificação, domínio de técnicas e capacidade de adaptação às exigências do mercado.

A formação deve, contudo, estar mais próxima da procura real das empresas. Não basta aumentar o número de formandos; é necessário garantir que as competências adquiridas correspondem às necessidades de quem produz, constrói, transporta, gere hotéis, processa alimentos ou presta serviços especializados.

David McKenzie, economista do Banco Mundial, chamou ainda atenção para outro desafio: a escassez de gestores capazes de fazer pequenas empresas crescerem para médias e de médias empresas se tornarem maiores, mais produtivas e mais organizadas.

Esta observação merece atenção especial num país onde a diversificação económica dependerá, em grande medida, da capacidade de fortalecer o tecido empresarial nacional. O empresário precisa de acesso a crédito, mas também de competências de gestão financeira, controlo de custos, planeamento, marketing, gestão de pessoas, qualidade e negociação com grandes compradores.

A criação de empregos sustentáveis depende de empresas que sobrevivam, cresçam e se formalizem. E empresas só crescem de forma consistente quando combinam oportunidades de mercado, boa gestão e um ambiente operacional que não penalize quem produz.

Uma Agenda De Execução Para Empregos Mais Sustentáveis

A discussão sobre emprego em Moçambique precisa de sair da lógica de medidas isoladas. Não haverá uma resposta única para uma pressão demográfica tão elevada e para uma economia que procura diversificar-se para além dos grandes projectos extractivos.

As estradas são fundamentais, mas precisam de ser acompanhadas por energia fiável, telecomunicações, serviços financeiros, logística, água, segurança e instituições públicas mais eficientes. A formação é indispensável, mas precisa de estar ligada às vocações económicas dos territórios. As reformas regulatórias são necessárias, mas devem produzir resultados concretos para as empresas, sobretudo as pequenas e médias.

A prioridade deve ser construir ecossistemas económicos onde seja possível produzir, transformar, transportar, vender e contratar com custos competitivos.

Isto implica tratar a infra-estrutura como parte de uma estratégia de emprego; a simplificação administrativa como parte de uma estratégia de competitividade; e a formação profissional como parte de uma estratégia de transformação produtiva.

O alerta deixado por Egas Daniel é, no fundo, um convite a uma mudança de enfoque. Moçambique não precisa apenas de crescer. Precisa de criar as condições para que o crescimento chegue às empresas, se transforme em trabalho produtivo e alcance os territórios onde vive a maior parte da população.

Fonte: O Económico

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Prestianni: «Temos um treinador novo e quero mostrar as minhas capacidades»

0
Gianluca Prestianni, avançado do Benfica, revela em entrevista à rádio Vélez Sarsfield o desejo de vingar no clube português, após ter sido persuadido por José...
- Advertisment -spot_img