Estudo da Organização Internacional do Trabalho indica que 22,9% do emprego no Sudeste Asiático está exposto à inteligência artificial generativa, mas apenas 3,3% se encontra na categoria de exposição mais elevada. O principal impacto, até agora, não é a eliminação generalizada de postos de trabalho, mas a reorganização de tarefas, competências e modelos empresariais. Para economias como Moçambique, o maior risco poderá ser ficar fora dos ganhos de produtividade.
A inteligência artificial generativa está a entrar nos locais de trabalho com rapidez suficiente para alterar tarefas, processos e competências, mas ainda não produziu a vaga generalizada de despedimentos antecipada por algumas das previsões mais alarmistas.
Um novo estudo da Organização Internacional do Trabalho mostra que perto de 80 milhões de trabalhadores do Sudeste Asiático exercem actividades profissionais com algum grau relevante de exposição à tecnologia.
A dimensão é significativa: representa 22,9% do emprego nos países da Associação das Nações do Sudeste Asiático, ASEAN. Contudo, exposição não significa necessariamente substituição.
Apenas 3,3% da força de trabalho regional, aproximadamente 11,7 milhões de pessoas, encontra-se em profissões classificadas na categoria de exposição mais elevada. Em sentido contrário, cerca de 67% dos trabalhadores permanecem em ocupações para as quais não foi identificada exposição à inteligência artificial generativa.
O estudo, intitulado Generative AI and Labour Markets in ASEAN: Significant Exposure, Limited Disruption, Uneven Preparedness, sugere que a tecnologia está, nesta fase, a transformar mais postos de trabalho do que a eliminá-los.
A distinção é decisiva para compreender a verdadeira natureza da mudança em curso.
Exposição Não É Sinónimo de Desemprego
Uma profissão é considerada exposta quando parte das tarefas que a compõem pode ser executada, acelerada ou alterada por ferramentas de inteligência artificial.
Isso não significa que todas as funções desempenhadas por uma pessoa possam ser automatizadas, nem que a empresa tenha adoptado a tecnologia, possua recursos para o fazer ou pretenda dispensar trabalhadores.
Um assistente administrativo, por exemplo, pode utilizar IA para redigir documentos, organizar informação, preparar resumos ou responder a comunicações de rotina. Mas continuará a ser necessário tomar decisões, interpretar situações, interagir com colegas, validar conteúdos, resolver excepções e assumir responsabilidade pelo resultado.
É por essa razão que a OIT distingue entre a automatização de tarefas e a eliminação integral de profissões.
A análise global da organização, actualizada em 2025, concluiu que um em cada quatro trabalhadores no mundo se encontra numa ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Ainda assim, a necessidade de intervenção humana significa que a maioria dos empregos tende a ser modificada, e não tornada redundante.
No Sudeste Asiático, essa tendência já começa a ser observada. Apesar do elevado potencial de exposição, o emprego em várias profissões afectadas continuou a aumentar. A OIT não encontrou, até ao momento, evidência de uma ruptura generalizada nos mercados de trabalho da região.
A ausência de despedimentos em massa não significa, contudo, ausência de impacto. A transformação pode ocorrer de forma gradual, através da redução de novas contratações, redefinição de funções, aumento das exigências de produtividade ou desaparecimento de tarefas de entrada que tradicionalmente permitiam aos jovens adquirir experiência.
O Primeiro Impacto Pode Surgir nas Novas Contratações
Uma empresa não precisa de despedir trabalhadores para reduzir o emprego futuro.
Se ferramentas de inteligência artificial permitirem que uma equipa realize mais tarefas com o mesmo número de pessoas, a organização poderá simplesmente deixar de preencher vagas quando alguém sair ou reduzir a contratação de novos profissionais.
Este efeito é mais difícil de observar do que uma vaga imediata de despedimentos, mas pode alterar profundamente as oportunidades disponíveis para jovens e recém-graduados.
A OIT assinala sinais ainda limitados de enfraquecimento dos resultados laborais para jovens em determinadas funções de entrada. Não se trata de uma tendência geral, mas constitui um alerta para profissões em que os trabalhadores começam por executar tarefas rotineiras de pesquisa, redacção, organização de dados, apoio administrativo ou produção básica de conteúdos.
Historicamente, essas tarefas funcionaram como etapa de aprendizagem. Um jovem advogado começava por pesquisar jurisprudência; um analista financeiro preparava folhas de cálculo; um jornalista transcrevia entrevistas; um programador corrigia pequenos erros; um assistente elaborava minutas.
Quando a tecnologia absorve parte destas funções, surge uma nova questão: como formar profissionais experientes se as tarefas que antes serviam de porta de entrada forem reduzidas?
As empresas terão de repensar os modelos de aprendizagem no trabalho. Em vez de eliminar as posições iniciais, poderão utilizá-las para ensinar supervisão de sistemas, validação de resultados, resolução de problemas e conhecimento sectorial.
Singapore e Filipinas Lideram a Exposição
A intensidade da transformação varia consideravelmente entre os países da ASEAN.
Entre os nove mercados com dados comparáveis, Singapore apresenta a maior proporção de trabalhadores em profissões com mais do que exposição mínima à IA generativa: 42,2% do emprego.
As Filipinas surgem em segundo lugar, com 28,1%, reflectindo o peso dos serviços empresariais, centros de atendimento, tecnologias de informação e processamento administrativo.
A exposição atinge 21,7% na Indonésia, 20,8% no Vietname e 20,6% na Tailândia.
Estas diferenças resultam da estrutura das economias.
Países com maior concentração de emprego em escritórios, finanças, serviços profissionais, tecnologias de informação e administração apresentam maior exposição. Economias onde predomina o trabalho manual, agrícola ou informal possuem, em princípio, menor percentagem de profissões directamente afectadas.
Contudo, menor exposição não representa necessariamente uma vantagem.
Uma economia pode apresentar baixo risco imediato de automatização porque uma grande parte da população trabalha em actividades com pouca tecnologia, reduzida produtividade e baixos rendimentos. Nesses casos, o problema não é a possibilidade de a IA eliminar empregos, mas a incapacidade de utilizar a tecnologia para melhorar esses empregos.
A Adopção Continua Muito Abaixo do Potencial
O estudo encontra uma diferença importante entre aquilo que a IA pode tecnicamente fazer e aquilo que as empresas efectivamente fazem com ela.
A adopção permanece numa fase inicial e concentra-se, sobretudo, em actividades intensivas em tecnologia. Mesmo em funções administrativas altamente expostas, a utilização sistemática de ferramentas generativas ainda é relativamente limitada.
Existem várias explicações.
Muitas empresas não possuem dados organizados, sistemas digitais compatíveis, políticas internas, competências técnicas ou recursos financeiros para integrar a tecnologia. Outras receiam riscos relacionados com confidencialidade, propriedade intelectual, erros, cibersegurança e responsabilidade legal.
A adopção empresarial exige, portanto, muito mais do que permitir aos trabalhadores utilizar uma aplicação disponível na Internet.
Implica definir quais tarefas podem ser apoiadas, que informação pode ser introduzida, como validar os resultados, quem responde por decisões erradas e como proteger os dados de clientes, trabalhadores e parceiros.
A produtividade também não resulta automaticamente do acesso à ferramenta.
Uma pessoa pode concluir uma tarefa mais rapidamente, mas a empresa só obtém ganhos efectivos quando reorganiza processos, elimina duplicações, melhora a qualidade e utiliza o tempo libertado em actividades de maior valor.
É por isso que os aumentos de produtividade observados em tarefas individuais ainda não se converteram, de forma clara, em transformações mensuráveis do emprego e da produtividade agregada.
Mulheres Estão Mais Expostas
A distribuição dos riscos também não é neutra em termos de género.
Segundo a OIT, as mulheres têm mais do dobro da probabilidade dos homens de exercer profissões classificadas na categoria de elevada exposição à inteligência artificial generativa.
A diferença resulta da sua maior concentração em funções administrativas, de secretariado, apoio de escritório e determinadas profissões técnicas e intelectuais nas quais grande parte do trabalho envolve informação, texto, documentos e comunicação.
Esta realidade pode produzir dois resultados muito diferentes.
Com políticas adequadas, a tecnologia poderá reduzir tarefas repetitivas, aumentar a produtividade, apoiar modalidades de trabalho mais flexíveis e facilitar o acesso das mulheres a funções de maior responsabilidade.
Sem formação e protecção, poderá reduzir oportunidades justamente em áreas que constituem importantes fontes de emprego feminino formal.
A resposta não deve ser afastar as mulheres da tecnologia, mas assegurar que estejam entre as primeiras beneficiárias dos programas de capacitação, requalificação e progressão profissional.
A desigualdade futura poderá depender menos de quem está exposto e mais de quem recebe preparação para trabalhar com os novos sistemas.
Pequenas Empresas Podem Ficar Para Trás
As micro, pequenas e médias empresas representam outra área crítica.
Grandes organizações possuem maior capacidade para adquirir sistemas, contratar especialistas, proteger dados, experimentar ferramentas e absorver erros durante o processo de adopção.
Uma pequena empresa raramente dispõe das mesmas condições.
Pode beneficiar fortemente da IA na contabilidade, atendimento ao cliente, marketing, pesquisa de mercados, elaboração de propostas, controlo de stocks e análise financeira. Mas também enfrenta dificuldades para escolher soluções adequadas, avaliar fornecedores, formar trabalhadores e compreender riscos jurídicos.
A OIT recomenda, por isso, que os governos apoiem directamente as pequenas empresas, em vez de assumirem que a difusão da tecnologia ocorrerá espontaneamente.
Esse apoio pode incluir centros de demonstração, formação sectorial, assistência técnica, padrões de segurança, ferramentas partilhadas e incentivos à digitalização.
Sem estas medidas, poderá surgir uma nova desigualdade empresarial: grandes empresas apoiadas por sistemas avançados aumentam a produtividade, enquanto pequenos negócios permanecem presos a processos manuais e perdem competitividade.
A divisão não ocorreria apenas entre trabalhadores humanos e máquinas, mas entre empresas que sabem utilizar a tecnologia e empresas que não conseguem aceder aos seus benefícios.
Formação Não Pode Limitar-se a Cursos de Programação
A resposta mais frequente às transformações tecnológicas é defender mais formação. Mas a natureza dessa formação é determinante.
Nem todos os trabalhadores precisam de se tornar programadores, engenheiros de dados ou especialistas em inteligência artificial.
A maior necessidade estará provavelmente na literacia aplicada: compreender o que os sistemas podem fazer, formular instruções adequadas, verificar resultados, identificar erros, proteger dados e combinar a tecnologia com conhecimento profissional.
Um contabilista deverá saber utilizar a IA no trabalho financeiro sem comprometer informação confidencial. Um professor terá de avaliar conteúdos gerados automaticamente. Um profissional de saúde precisará de distinguir apoio à decisão de substituição do julgamento clínico. Um gestor deverá saber quando uma recomendação algorítmica é inadequada.
As chamadas competências humanas também ganharão valor.
Pensamento crítico, criatividade, comunicação, ética, julgamento, empatia, negociação e capacidade de trabalhar em situações ambíguas são precisamente as dimensões que os sistemas generativos ainda não reproduzem de forma fiável.
O objectivo da requalificação não deve ser ensinar pessoas a competir com máquinas na produção de tarefas repetitivas. Deve prepará-las para utilizar a tecnologia enquanto assumem funções que exigem contexto, responsabilidade e relacionamento humano.
O Risco Para África Pode Ser Diferente
Os resultados da ASEAN oferecem uma referência útil para África, mas o ponto de partida é diferente.
Em grande parte do continente, a adopção empresarial da inteligência artificial ainda é limitada. Um estudo do Banco Mundial indica que competências relacionadas com IA aparecem em menos de 0,6% dos anúncios de emprego africanos, abaixo dos níveis de 1% a 2% observados nos Estados Unidos e na Europa.
A menor presença da tecnologia reduz o risco imediato de substituição em larga escala, mas aumenta outro perigo: o alargamento do fosso de produtividade em relação às economias que adoptam rapidamente estes sistemas.
O Banco Mundial adverte que os países em desenvolvimento que atrasarem a preparação poderão enfrentar uma economia mundial dividida entre nações capacitadas pela IA, com produtividade crescente, e países incapazes de acompanhar a transformação.
A África Subsaariana recebe actualmente mais de 22 milhões de novos participantes na população em idade activa por ano. O número poderá ultrapassar 33 milhões anuais até 2050, tornando a criação de empregos produtivos um dos maiores desafios económicos do continente.
Neste contexto, preservar trabalhos de baixa produtividade não será suficiente.
A prioridade terá de ser utilizar tecnologia para melhorar agricultura, logística, serviços financeiros, educação, saúde, Administração Pública e pequenas empresas, ao mesmo tempo que se criam novas actividades produtivas.
Para Moçambique, a Questão É Preparar Antes da Ruptura
Em Moçambique, a inteligência artificial ainda não parece constituir uma ameaça imediata de despedimentos em massa.
A elevada informalidade, o peso da agricultura, a reduzida digitalização de muitas empresas e a limitada disponibilidade de competências tecnológicas restringem a velocidade da adopção.
Mas estes mesmos factores podem impedir o País de beneficiar dos ganhos de eficiência.
A preparação deverá começar antes de o impacto se tornar visível no emprego. Esperar por uma ruptura para então formar trabalhadores significaria responder tarde a uma transformação que ocorre gradualmente.
O Governo encontra-se a desenvolver instrumentos relacionados com transformação digital, infra-estruturas públicas digitais e governação de dados. O Banco Mundial considera que esta fase oferece uma oportunidade para estabelecer uma estrutura coerente de protecção, partilha e utilização de dados, que são a base do funcionamento dos sistemas de IA.
A agenda nacional deverá ligar tecnologia, educação, emprego e política empresarial.
As escolas e universidades precisam de rever programas; as empresas devem formar trabalhadores; o Estado terá de actualizar normas laborais e de protecção de dados; e as instituições de apoio empresarial deverão ajudar as PMEs a adoptar soluções adequadas à sua dimensão.
A Administração Pública também pode funcionar como utilizador estratégico, aplicando sistemas de IA em serviços administrativos, análise de informação, planeamento, fiscalização e atendimento ao cidadão, sem eliminar a responsabilidade humana pelas decisões.
Governar a Tecnologia, Não Apenas Adoptá-la
O debate sobre inteligência artificial não pode ficar limitado à pergunta sobre quantos empregos serão destruídos.
É necessário perguntar quem controla os sistemas, que dados os alimentam, quem beneficia dos ganhos de produtividade e como serão distribuídos os custos da transição.
Uma empresa pode utilizar IA para melhorar o trabalho, reduzir tarefas repetitivas e criar novas oportunidades. Pode também utilizá-la para intensificar a vigilância, aumentar metas, reduzir autonomia e transferir riscos para os trabalhadores.
A diferença dependerá da governação.
A OIT defende uma abordagem centrada no ser humano, baseada em diálogo social, requalificação, protecção social, apoio empresarial e participação dos trabalhadores nas decisões sobre a introdução das tecnologias.
Também será necessário proteger os trabalhadores cujas funções forem efectivamente reduzidas.
Mesmo que a economia, no seu conjunto, não enfrente desemprego em massa, determinados sectores, empresas e grupos profissionais poderão sofrer perdas concentradas. Sistemas de formação, apoio ao rendimento e intermediação laboral terão de responder a essas transições.
O Emprego Não Desaparece, Mas Muda de Conteúdo
A principal mensagem do estudo não é que a inteligência artificial seja inofensiva.
É que o seu impacto ocorre de forma mais complexa do que uma substituição directa entre máquina e trabalhador.
Empregos podem permanecer enquanto as tarefas mudam profundamente. Profissões podem continuar a crescer, mas exigir competências diferentes. Empresas podem conservar trabalhadores e, simultaneamente, contratar menos jovens. A produtividade pode aumentar sem que os benefícios sejam distribuídos de forma equilibrada.
Os cerca de 80 milhões de trabalhadores expostos no Sudeste Asiático representam, por isso, uma antecipação do futuro do trabalho em outras regiões.
A tecnologia poderá ampliar as capacidades humanas, melhorar serviços e tornar empresas mais competitivas. Mas também poderá aprofundar desigualdades entre trabalhadores, empresas e países.
O resultado não está predeterminado pelo algoritmo.
Dependerá das políticas de formação, das decisões empresariais, da qualidade das instituições e da capacidade de assegurar que a produtividade gerada pela inteligência artificial se traduza em melhores empregos, rendimentos mais elevados e oportunidades mais amplas.
Para países como Moçambique, o desafio mais urgente talvez não seja impedir que as máquinas substituam trabalhadores. Será garantir que trabalhadores e empresas não sejam excluídos de uma economia mundial cada vez mais assistida por máquinas.
Fonte: O Económico


