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O moçambicano que tornou moda cortar o cabelo em casa e até conquistou Geny Catamo

Entre música e cortes de cabelo, Filipe transformou uma atividade iniciada na pandemia, em Maputo, numa marca de referência em estilo e modernidade, criando emprego para jovens, conquistando clientes ‘estrela’, como Geny Catamo, sonhando até criar uma academia.

A história de ‘Don Felipe’, com quase 200 mil seguidores nas redes sociais, começa com o barbeiro Filipe Mutimba, atualmente com 24 anos, que cresceu num ambiente de criatividade e desenho, encontrando nabarbearia uma forma de transformar a vocação numa profissão, influenciado pelo irmão mais velho, ligado ao setor.

Com a pandemia da covid-19, adaptou-se rapidamente e começou a fazer cortes ao domicílio, uma fase que viria a ser decisiva para a construção da sua carteira de clientes e para o arranque do negócio.

“Dificuldades criam bons negócios. Então, eu já havia começado na área e comecei a fazer o corte ao domicílio por causa da covid, porque as pessoas já não iam à barbearia e tal. Então criei essa forma de trabalhar que foi funcional até aos dias de hoje”, recorda.

Nesse período, deslocava-se com uma mala profissional equipada com máquinas, tesouras, pentes e acessórios, garantindo a continuidade do serviço fora do espaço físico.

Em 2021, com uma base de clientes já formada, abriu o próprio salão em Malhampsene, com um investimento inicial de 275 euros, que aplicou numa cadeira, espelho e máquina de corte.

O sonho transformou-se em local de trabalho para vários jovens. A equipa do ‘Don Felipe’ é composta por quatro profissionais e o modelo de negócio combina atendimento no salão e serviço ao domicílio, sobretudo para clientes com agendas apertadas, incluindo atletas e figuras públicas, como é agora o caso de jogadores da seleção moçambicana de futebol.

Dentro da barbearia, a experiência vai além do corte de cabelo, num ambiente marcado pela música e pela constante produção de conteúdos para as redes sociais, regularmente com dezenas de milhares de interações cada, numa das imagens de marca do ‘Don Felipe’.

“Os jogadores da seleção fizeram toda a diferença para mim”, afirma Filipe, sublinhando ainda que também atende outros atletas moçambicanos a atuar no estrangeiro.

Sempre que regressam ao país, os jogadores recorrem ao serviço, muitas vezes em hotéis, o que reforçou a componente móvel do negócio, momentos que frequentemente partilha também nas redes sociais, cada um com dezenas de milhares de interações e comentários.

A presença de Geny Catamo, estrela da seleção moçambicana e avançado do Sporting, de férias em Moçambique, teve impacto imediato, com aumento de seguidores, mais pedidos de marcação e maior fluxo de clientes.

“Tive um aumento de seguidores nas redes sociais, solicitações de cortes ao domicílio, cortes na barbearia. E hoje em dia temos uma carteira de clientes um bocadinho elevada“, refere, acrescentando que o salão chegou a registar grande afluência de pessoas apenas para ver o jogador.

O crescimento da marca ganhou outra dimensão com a chegada de outros internacionais, como Renildo Mandava, que atualmente joga em Inglaterra pelo Sunderland, cuja visibilidade internacional ampliou a projeção da barbearia.

O impacto também se reflete na perceção dos clientes, como Divano Neide, frequentador regular há um ano, que descobriu o salão através das redes sociais e de recomendações de amigos, acabando por encontrar um conceito que, até então, associava apenas ao estrangeiro.

“Se tu fores apostar em algo melhor também vais perceber que vais ganhar. Lá fora tu consegues olhar, e ter uma autoestima ainda melhor”, relata.

Além da atividade comercial, Filipe Mutimba tem participado em iniciativas em escolas e comunidades, onde partilha a experiência como forma de incentivar o empreendedorismo juvenil.

O barbeiro destaca ainda a projeção internacional do seu trabalho, referindo uma viagem à África do Sul como momento marcante, onde foi convidado a trabalhar com estudantes finalistas de cursos de estética.

“Fiquei impressionado também com a quantidade de pessoas que me assistem fora de Maputo. E em Portugal também há muita gente a assistir. E ainda não fui, mas tenho uma vontade grande de poder um dia estar lá a exercer essa que é a minha função”, afirma.

Tal como acontece nas redes sociais, a procura é elevada na barbearia. Clientes chegam cedo e permanecem algum tempo em convívio no exterior, enquanto no interior os quatro barbeiros trabalham em simultâneo. Música, dança, brincadeiras e interação constante ajudam a criar conteúdos que depois circulam ‘online’, reforçando a popularidade da marca e atraindo novos clientes, incluindo empresários e figuras públicas.

O espaço, que começou de forma simples, evoluiu e o preço dos cortes varia entre 250 meticais (3,5 euros), para os serviços básicos, e 2.500 meticais (34,3 euros) em pacotes específicos, como os destinados a noivos. Entre os pedidos mais frequentes estão cortes inspirados em jogadores de futebol europeus.

Apesar da notoriedade alcançada, o objetivo não passa por uma expansão acelerada, mas pela consolidação do projeto, incluindo a criação de uma academia de formação em barbearia e estética, com vista a formar novos profissionais e criar oportunidades de emprego.

“Uma academia é capaz de formar barbeiros, é capaz de empregar barbeiros e vários especialistas da área da beleza e estética. E seria uma grande honra ou um sonho realizado para mim ter uma academia em Moçambique, no centro da cidade”, aponta, acreditando que Moçambique é um “bom sítio” para o negócio.

 

Fonte: Observador

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