Por: Alfredo Júnior
A Universidade de São Paulo (USP) apresentou oficialmente uma central de bioenergia capaz de transformar resíduos orgânicos em electricidade, biometano e biofertilizantes, numa iniciativa considerada um dos mais avançados projectos de economia circular da América Latina. A unidade, instalada no Instituto de Energia e Ambiente (IEE-USP), processa actualmente até 25 toneladas de resíduos orgânicos por dia, provenientes sobretudo dos restaurantes da Cidade Universitária e de instituições parceiras.
O projecto começou a ser desenvolvido em 2018 e entrou em operação parcial em 2021. Com a entrada em funcionamento da Unidade de Produção de Biometano, a central passou a operar em pleno, permitindo o aproveitamento integral dos resíduos alimentares para a produção de energia renovável e fertilizantes destinados à agricultura. O investimento total rondou os 10 milhões de reais.
Segundo os investigadores responsáveis, cada tonelada de resíduos processada gera aproximadamente 120 metros cúbicos de biogás, capazes de produzir entre 160 e 200 kWh de electricidade, ou de serem convertidos em 100 a 120 metros cúbicos de biometano, combustível que pode substituir a gasolina ou o gás natural em veículos. O processo também produz cerca de 800 litros de digestato por tonelada, do qual são recuperados aproximadamente 12 quilogramas de fertilizantes orgânicos.
Além de reduzir a quantidade de resíduos encaminhados para aterros sanitários, a iniciativa permite diminuir os custos associados ao tratamento do lixo orgânico. De acordo com a USP, a universidade gastava cerca de 500 reais por tonelada para enviar estes resíduos aos aterros. Com a nova central, esse custo é reduzido, ao mesmo tempo que a instituição passa a gerar energia e combustíveis renováveis, criando uma nova fonte de receitas.
A tecnologia baseia-se na biodigestão anaeróbia, um processo biológico no qual microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigénio, produzindo biogás rico em metano. Após um processo de purificação, esse biogás transforma-se em biometano, um combustível renovável que pode abastecer veículos ou ser injectado na rede de gás. O material remanescente é convertido em biofertilizante, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e promovendo uma agricultura mais sustentável.
Os responsáveis pelo projecto defendem que o modelo pode ser replicado por municípios, regiões metropolitanas, indústrias alimentares, centrais de abastecimento e grandes cadeias de restauração. Estimativas da equipa técnica indicam que cerca de 300 unidades semelhantes seriam suficientes para tratar todo o volume de resíduos orgânicos domésticos gerados na cidade de São Paulo. Para todo o estado seriam necessárias aproximadamente 600 centrais, enquanto cerca de três mil poderiam processar a totalidade dos resíduos orgânicos urbanos produzidos no Brasil.
Especialistas consideram que iniciativas deste tipo representam um avanço significativo na gestão sustentável de resíduos, ao integrarem produção de energia limpa, redução das emissões de gases com efeito de estufa e reaproveitamento de nutrientes. Num contexto em que os resíduos orgânicos continuam a representar mais de metade do lixo urbano em muitos países, tecnologias de valorização energética são apontadas como uma das principais soluções para reduzir a pressão sobre os aterros sanitários e acelerar a transição para uma economia circular.






