Por: Alfredo Júnior
Mais de 3,5 milhões de moçambicanos enfrentam actualmente níveis elevados de insegurança alimentar, colocando Moçambique entre os países mais afectados da África Austral. As províncias de Cabo Delgado e Nampula continuam a concentrar os casos mais graves, numa combinação de conflito armado, deslocações forçadas, fracas colheitas e aumento dos preços dos alimentos, segundo a 70.ª edição do Food Security Monitor da Aliança para uma Revolução Verde em África (AGRA), divulgada este mês.
O relatório da AGRA estima que 3.517.915 pessoas em Moçambique enfrentam níveis de insegurança alimentar classificados como IPC Fase 3 (Crise) ou superior, representando cerca de 18% da população analisada. O país surge entre os mais afectados da região, atrás apenas da Nigéria, Sudão do Sul, Quénia e Malawi.
Embora algumas regiões do centro e sul do país tenham beneficiado das recentes colheitas agrícolas, o norte continua a registar um quadro particularmente preocupante. A AGRA alerta que os distritos afectados pelo conflito em Cabo Delgado e o norte de Nampula deverão permanecer em situação de crise alimentar pelo menos até Janeiro de 2027, devido à persistência da insegurança, às deslocações populacionais, à perda de meios de subsistência e ao limitado acesso das famílias aos alimentos e aos mercados.
O documento indica igualmente que as necessidades de assistência alimentar deverão atingir o pico entre Agosto e Setembro, período correspondente à época de escassez, quando entre 2,5 e 2,9 milhões de pessoas poderão necessitar de apoio humanitário. Entre os grupos mais vulneráveis encontram-se os deslocados internos e as famílias pobres dependentes da agricultura de subsistência.
Segundo a AGRA, apesar de alguma estabilização recente dos preços internos, Moçambique continua a enfrentar fortes pressões no mercado alimentar. O relatório assinala que o preço do milho registou um aumento anual de 51,2%, um dos maiores entre os países monitorizados, reduzindo significativamente o poder de compra das famílias de baixos rendimentos.
A análise coincide com as avaliações da rede internacional FEWS NET, que atribui o agravamento da insegurança alimentar à conjugação de vários factores, nomeadamente o conflito armado em Cabo Delgado, a recuperação lenta das cheias registadas no início de 2026, períodos de seca em algumas zonas agrícolas, fracas reservas alimentares e oportunidades limitadas de rendimento para as famílias rurais.
Também a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura considera Moçambique um dos principais focos de insegurança alimentar no continente africano. A organização refere que os conflitos, os fenómenos climáticos extremos e os elevados preços dos alimentos continuam a comprometer a produção agrícola e os meios de subsistência de milhões de pessoas. Segundo a FAO, mais de 740 mil pessoas permanecem deslocadas internamente, enquanto milhares de famílias regressadas às zonas afectadas pelo conflito enfrentam dificuldades para retomar a actividade agrícola.
Especialistas em segurança alimentar defendem que, além da assistência humanitária imediata, será necessário acelerar investimentos na agricultura resiliente, na recuperação de infra-estruturas rurais, na irrigação, no acesso a sementes melhoradas e no restabelecimento da segurança em Cabo Delgado para reduzir a dependência da ajuda alimentar. Alertam igualmente que o fenómeno climático El Niño poderá agravar os riscos para a próxima campanha agrícola, caso se confirmem previsões de secas e chuvas irregulares em várias regiões da África Austral.






