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UNECA Recebe Orientações Para Apoiar Prioridades Nacionais
O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, recebeu, nesta segunda-feira, 3 de Agosto, o Secretário Executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África, Claver Gatete, num encontro destinado a aprofundar a cooperação económica e identificar áreas concretas de apoio ao desenvolvimento de Moçambique.
Segundo a nota informativa da Presidência da República, a audiência permitiu apresentar à delegação da UNECA a visão do Chefe do Estado para o crescimento económico e a transformação estrutural do país, tendo sido seleccionados como domínios prioritários a energia, as infra-estruturas, os corredores de comércio, os minerais e a agricultura.
Claver Gatete explicou que a visita resultou de um convite formulado por Daniel Chapo para que a organização avaliasse a forma como poderá apoiar Moçambique na sua trajectória de desenvolvimento.
“Estou aqui com a minha equipa a convite do Presidente, para vir ver como podemos apoiar Moçambique na sua jornada de desenvolvimento”, declarou o responsável das Nações Unidas no final da audiência.
O encontro não resultou ainda no anúncio de projectos, montantes financeiros ou calendários específicos. Estabeleceu, porém, uma orientação sectorial para a cooperação subsequente entre a UNECA, o Governo e outros parceiros.
Energia É Colocada Na Base Da Industrialização
A energia ocupou uma posição central na apresentação feita pelo Presidente da República.
Claver Gatete referiu que Daniel Chapo destacou o aproveitamento da energia hidroeléctrica e o desenvolvimento dos recursos de gás, incluindo os projectos localizados em Cabo Delgado.
“O Presidente detalhou as áreas-chave que são muito críticas, incluindo, naturalmente, o desenvolvimento do sector energético — especialmente a energia hidroeléctrica —, as áreas em termos de gás e o seu desenvolvimento, especialmente em regiões que incluem Cabo Delgado”, afirmou o Secretário Executivo da UNECA.
A inclusão conjunta da hidroelectricidade e do gás indica uma abordagem de diversificação da matriz energética, combinando os recursos utilizados na exportação com a necessidade de assegurar electricidade fiável e competitiva para a economia nacional.
A UNECA tem defendido que a energia não deve ser tratada apenas como um sector de infra-estruturas. Num documento apresentado em Fevereiro de 2026, a organização considera que as decisões energéticas influenciam directamente a agricultura, a indústria, a digitalização, a gestão da água, o emprego e a resiliência económica.
Nesta perspectiva, o valor económico dos recursos energéticos de Moçambique não será determinado apenas pela quantidade de electricidade gerada ou de gás exportado. Será igualmente influenciado pela capacidade de fornecer energia às empresas, apoiar a transformação industrial, reduzir custos produtivos e expandir o acesso das famílias.
Infra-Estruturas Precisam De Ligar Produção, Mercados E Emprego
A cooperação proposta inclui igualmente o desenvolvimento de infra-estruturas, área que a UNECA considera indispensável para qualquer processo de transformação económica.
Numa intervenção realizada em Julho, Claver Gatete afirmou que as grandes mudanças económicas são construídas sobre infra-estruturas capazes de integrar energia, logística, sistemas digitais, facilitação do comércio, parques industriais, competências e emprego.
Esta formulação amplia o conceito tradicional de infra-estrutura. Uma estrada, porto, central eléctrica ou linha ferroviária produz maior valor quando está ligada a zonas agrícolas, unidades industriais, centros logísticos e mercados.
Moçambique possui corredores com capacidade para servir a economia nacional e países do interior da África Austral. A vantagem geográfica não se converte automaticamente em transformação estrutural quando a carga apenas atravessa o território, sem estimular processamento, armazenagem, fornecimento de serviços ou criação de empresas.
A cooperação com a UNECA poderá, por isso, concentrar-se no desenho de infra-estruturas como plataformas produtivas, ligando o transporte ao desenvolvimento empresarial, à industrialização e ao comércio regional.
Porto Da Beira Assume Papel Na Integração Regional
O Porto da Beira foi destacado por Claver Gatete como uma das infra-estruturas com maior importância estratégica.
“O Presidente destacou os corredores de comércio e, em particular, o Porto da Beira, que está a facilitar a ligação com muitos países do escritório sub-regional da SADC, mas também da Comunidade da África Oriental”, afirmou o Secretário Executivo.
A posição da Beira permite servir países sem acesso directo ao mar e integrar fluxos provenientes do Zimbabwe, Zâmbia, Malawi e de outras economias da região.
Um relatório da UNECA publicado em 2026 identifica o Porto da Beira como uma saída crítica para países do interior da África Austral e assinala os investimentos destinados a modernizar e ampliar a sua capacidade.
A relevância do corredor não deve ser avaliada apenas pelo volume de mercadorias movimentadas. Deve incluir o tempo de passagem nas fronteiras, custo logístico, fiabilidade ferroviária, qualidade das estradas, digitalização dos procedimentos, disponibilidade de armazéns e capacidade de atrair unidades de processamento ao longo da rota.
A própria UNECA tem defendido que a digitalização portuária e a coordenação entre autoridades, operadores e instituições de gestão dos corredores são determinantes para melhorar os fluxos comerciais africanos.
Corredores Devem Produzir Economia Ao Longo Do Território
A transformação dos corredores em instrumentos de desenvolvimento exige que os seus benefícios ultrapassem os portos e os grandes operadores logísticos.
Ao longo das rotas podem ser desenvolvidos centros de armazenagem, plataformas agro-logísticas, unidades de processamento, parques industriais, oficinas, serviços financeiros, fornecedores de transporte e infra-estruturas energéticas.
Esta abordagem permite que o corredor deixe de funcionar predominantemente como passagem de carga e se transforme numa faixa de concentração de investimento e emprego.
A UNECA considera que a integração da África Austral deverá apoiar-se nos mecanismos já construídos pela SADC, COMESA e União Aduaneira da África Austral, ao mesmo tempo que avança a implementação da Área de Comércio Livre Continental Africana.
Para Moçambique, esta integração cria uma oportunidade de ampliar os mercados disponíveis para as empresas nacionais. Também aumenta a concorrência, exigindo maior produtividade, certificação, escala e capacidade de cumprir padrões regionais.
Os corredores deverão, assim, ser acompanhados por políticas de desenvolvimento empresarial e facilitação comercial que permitam às empresas moçambicanas utilizar as infra-estruturas para exportar, e não apenas assistir à circulação de produtos de outros países.
Minerais Entram Na Agenda Da Transformação Produtiva
Os recursos minerais constituíram outra das áreas abordadas durante a audiência.
Claver Gatete afirmou que a UNECA está disponível para apoiar Moçambique na definição de caminhos que permitam utilizar o sector mineral como instrumento de crescimento e desenvolvimento inclusivo.
A questão central para as economias africanas deixou de estar apenas na capacidade de extrair recursos. Passou a incluir a transformação local, a ligação com fornecedores, a produção de energia, a qualificação dos trabalhadores e a inserção em cadeias de valor regionais.
A UNECA estima que África detenha aproximadamente 30% das reservas mundiais de minerais críticos, mas capte menos de 5% do valor acrescentado associado às respectivas cadeias produtivas.
A diferença resulta da exportação de matérias-primas com reduzido processamento, enquanto as fases de refinação, fabrico de componentes, tecnologia e comercialização permanecem concentradas noutras regiões.
Moçambique participa numa iniciativa regional lançada em Junho pela SADC e liderada pela UNECA para desenvolver cadeias de valor responsáveis nos minerais essenciais à transição energética. O programa, com implementação prevista entre 2026 e 2031, envolve igualmente África do Sul, Namíbia, Zâmbia, Zimbabwe e República Democrática do Congo. (
Recursos Minerais Precisam De Ligar-Se À Indústria
A cooperação no domínio mineral poderá apoiar a criação de políticas que aproximem a mineração da industrialização.
Isto implica identificar quais minerais podem ser processados internamente, que infra-estruturas energéticas são necessárias, que mercados regionais podem absorver os produtos e quais competências devem ser desenvolvidas.
Numa intervenção recente, Claver Gatete defendeu que os países africanos devem abandonar a posição de simples exportadores de minerais e construir capacidade para processar, refinar e fabricar no continente.
Para Moçambique, esta orientação poderá ser aplicada ao grafite, areias pesadas e outros recursos associados à transição energética e às cadeias industriais.
A agregação de valor não deverá ser interpretada apenas como instalação de grandes fábricas. Pode incluir serviços técnicos, manutenção, laboratórios, transporte especializado, produção de componentes, investigação e fornecimento de bens às empresas mineiras.
O desenvolvimento destas ligações exige energia fiável, logística competitiva, formação profissional e previsibilidade regulatória — precisamente os domínios incluídos na agenda discutida entre o Presidente da República e a UNECA.
Agricultura Deve Evoluir Para Cadeias Agro-Industriais
A agricultura foi igualmente identificada como uma área prioritária da futura cooperação.
O sector emprega grande parte da população moçambicana, mas permanece caracterizado por baixa produtividade, reduzida irrigação, perdas pós-colheita, acesso limitado ao financiamento e fraca ligação à indústria transformadora.
A transformação agrícola exige mais do que aumentar a produção primária. Pressupõe integrar sementes, irrigação, mecanização, assistência técnica, armazenamento, processamento, embalagem, transporte e acesso aos mercados.
A UNECA tem colocado a agricultura e o agro-processamento entre os sectores capazes de apoiar a industrialização verde e a criação de cadeias de valor na África Austral.
A ligação entre agricultura e corredores comerciais pode ampliar o alcance económico dos investimentos. Zonas de elevada produção precisam de estradas rurais, energia, frio, centros de recolha e ligação eficiente aos portos e mercados regionais.
Sem estas condições, o aumento da produção pode resultar em excedentes não comercializados, perdas ou preços reduzidos pagos aos produtores.
Sectores Prioritários Formam Uma Única Arquitectura Económica
Energia, infra-estruturas, corredores, minerais e agricultura não constituem cinco agendas independentes.
A energia permite operar minas, sistemas de irrigação, unidades de processamento e cadeias de frio. Os corredores transportam matérias-primas, produtos agrícolas e bens industriais. Os minerais podem sustentar novas indústrias. A agricultura cria procura por logística, equipamentos, fertilizantes e serviços.
O potencial da cooperação com a UNECA estará na capacidade de integrar estes sectores numa arquitectura comum.
Uma central eléctrica ligada a um corredor pode abastecer parques industriais e centros de processamento agrícola. Uma ferrovia utilizada para minerais pode também transportar fertilizantes e produção agrícola. Um porto mais eficiente pode facilitar exportações e reduzir o custo das importações de equipamentos.
Esta integração reduz o risco de construir infra-estruturas subutilizadas ou de desenvolver projectos extractivos sem ligações relevantes à economia nacional.
UNECA Pode Contribuir Com Política, Coordenação E Mobilização
A UNECA não funciona predominantemente como financiador directo de grandes infra-estruturas. A sua vantagem encontra-se na análise económica, desenho de políticas, assistência técnica, coordenação regional e mobilização de parceiros.
A instituição pode apoiar estudos de viabilidade económica, organização de cadeias regionais de valor, harmonização regulatória, facilitação do comércio e articulação com a Área de Comércio Livre Continental Africana.
Claver Gatete afirmou que a audiência permitiu obter orientações claras sobre a forma como a organização deverá actuar.
“Agora temos directrizes de actuação claras em termos de como apoiar o país daqui para a frente. Vamos continuar a trabalhar com os ministros e com outras partes interessadas para garantir que conseguimos concretizar a visão do Presidente”, declarou.
A passagem da orientação política para programas concretos exigirá a identificação das instituições responsáveis, resultados esperados, instrumentos de financiamento e prazos.
Cooperação Deve Ser Traduzida Em Programas Mensuráveis
O encontro definiu uma direcção, mas não apresentou ainda compromissos financeiros nem projectos individualizados.
A etapa seguinte deverá converter as cinco áreas prioritárias em programas com objectivos verificáveis.
No sector energético, poderão ser acompanhados a capacidade adicional de geração, as ligações à rede e o acesso das empresas. Nos corredores, importam o tempo de trânsito, o custo logístico, o volume de carga e a actividade produtiva criada ao longo das rotas.
Na mineração, os indicadores deverão incluir processamento interno, fornecedores nacionais, emprego qualificado e receitas. Na agricultura, a avaliação precisa de considerar produtividade, armazenamento, transformação local e rendimento dos produtores.
Sem esta estrutura, a cooperação corre o risco de permanecer concentrada em estudos, encontros e declarações sem uma ligação clara aos resultados económicos.
Prioridades Criam Uma Agenda De Transformação Integrada
A audiência entre Daniel Chapo e Claver Gatete coloca a cooperação com a UNECA dentro das prioridades económicas mais relevantes para Moçambique.
A escolha da energia, dos corredores, dos minerais e da agricultura reflecte activos que o país já possui: recursos naturais, posição geográfica, acesso ao Oceano Índico, potencial hidroeléctrico e uma ampla base agrícola.
O desafio consiste em transformar estas vantagens em capacidade produtiva, empresas, emprego, exportações de maior valor e desenvolvimento territorial.
A UNECA manifestou disponibilidade para acompanhar esse processo em articulação com o Governo, o sistema das Nações Unidas e outros parceiros.
A dimensão do resultado será definida pela integração entre os sectores. Energia sem indústria, corredores sem produção local, mineração sem processamento e agricultura sem mercados podem ampliar actividade económica sem produzir a transformação estrutural pretendida.
A cooperação ganha, por isso, maior relevância quando permite converter os recursos existentes numa economia mais diversificada, regionalmente integrada e capaz de gerar oportunidades em escala.
Fonte: O Económico




