Resumo
A educação em Moçambique está a tornar-se um privilégio reservado a quem pode pagar, à medida que as escolas públicas enfrentam abandono e falta de qualidade, enquanto o ensino privado floresce como um negócio lucrativo. Salas superlotadas, falta de recursos e professores desmotivados são comuns nas escolas públicas, levando muitos pais a sacrificar para pagar mensalidades escolares exorbitantes nas escolas privadas. Algumas instituições cobram anuidades que chegam a 1,6 milhão de meticais por ano, criando uma desigualdade educacional preocupante. Até as escolinhas infantis aderiram a esta lógica comercial agressiva, com mensalidades elevadas para cuidar de crianças pequenas. A educação transformou-se assim numa conta pesada para muitas famílias moçambicanas, refletindo a crise no sistema público de ensino e a crescente comercialização do setor privado.
Durante muito tempo, a educação foi apresentada como a maior esperança de transformação social de um país. Era vista como a ponte entre a pobreza e a dignidade, entre a exclusão e a oportunidade. Hoje, porém, em Moçambique, essa ideia parece estar a morrer lentamente diante dos nossos olhos. A educação deixou de ser um direito universal para transformar-se, silenciosamente, num privilégio reservado aos que conseguem pagar.
Enquanto o ensino público se afunda em abandono, precariedade e falta de qualidade, cresce um mercado milionário à volta da educação privada. Escolas, colégios e pequenas escolinhas multiplicam-se por toda parte como verdadeiras empresas, explorando o desespero de pais que já perderam a confiança no sistema público. O acto de ensinar deixou de ser uma missão social para tornar-se um negócio altamente lucrativo.
A realidade das escolas públicas no país é dolorosa e humilhante. Salas superlotadas, alunos sentados no chão, falta de carteiras, ausência de livros, professores desmotivados, infraestruturas degradadas e um sistema que parece funcionar apenas para sobreviver ao próximo dia. Há escolas onde centenas de crianças disputam atenção de um único professor. Há alunos que concluem níveis inteiros sem saber ler correctamente ou interpretar um simples texto.
O mais grave é que este cenário já se tornou normal. O Estado parece habituado ao fracasso do ensino público. As promessas de reformas repetem-se todos os anos, mas as escolas continuam sem laboratórios, sem bibliotecas, sem condições mínimas de aprendizagem. A educação pública foi empurrada para um estado de sobrevivência permanente, e quando o Estado falha, o mercado aparece.
Foi exactamente nesse vazio que surgiu a explosão das escolas privadas e das chamadas “escolinhas”. Em quase todos os bairros, aparecem instituições privadas oferecendo aquilo que o ensino público deixou de garantir: organização, segurança, disciplina e alguma qualidade. Mas nada disso vem sem preço.
Hoje, muitas famílias vivem sufocadas para pagar mensalidades escolares porque têm medo de condenar os filhos ao fracasso das escolas públicas. Há pais que sacrificam alimentação, saúde e outras necessidades básicas apenas para manter os filhos numa escola privada. A educação passou a ser uma conta pesada dentro de casa. E os valores cobrados chocam qualquer cidadão comum.
Em algumas escolas privadas internacionais instaladas no país, as anuidades variam aproximadamente entre 191 mil meticais e 1,6 milhão de meticais por ano, o equivalente a cerca de 17 mil até 150 mil meticais mensais. Existem instituições onde uma única criança custa mais por mês do que o salário anual de muitos trabalhadores moçambicanos.
O mais inquietante é que até as escolinhas infantis entraram nessa lógica comercial agressiva. Pais pagam mensalidades extremamente elevadas apenas para deixar crianças pequenas durante algumas horas enquanto trabalham.
E quando a educação se transforma em mercadoria, a desigualdade deixa de ser consequência para tornar-se projecto social. Os filhos dos pobres são empurrados para escolas públicas degradadas, sem qualidade e sem perspectivas. Já os filhos das famílias com capacidade financeira frequentam instituições modernas, com tecnologia, professores qualificados e oportunidades internacionais.
A verdade é dura: Moçambique está a assistir a uma privatização silenciosa da educação. Não declarada oficialmente, mas evidente na prática. Quanto mais o ensino público piora, mais o sector privado cresce. Quanto maior o desespero das famílias, maior o lucro das instituições privadas. E onde está o governo diante desta realidade? onde está a fiscalização das mensalidades abusivas? Onde está o investimento sério no ensino público? Onde estão as políticas capazes de devolver dignidade às escolas do Estado?
A sensação que fica é que o abandono do ensino público não é apenas incompetência, tornou-se conveniência. Um sistema de ensino fragilizado cria espaço para um mercado educativo extremamente rentável. E enquanto alguns lucram, milhões de crianças ficam condenadas à mediocridade imposta pela pobreza.
Nenhum país desenvolve-se destruindo a sua escola pública. Nenhuma nação constrói justiça social quando transforma a educação em produto de luxo. Porque uma escola pública forte não beneficia apenas os pobres; beneficia toda a sociedade. É nela onde nasce a igualdade de oportunidades, a mobilidade social e a construção de cidadania.
E talvez seja exactamente isso que mais assusta: a normalização da desigualdade. O país começa a aceitar como natural que apenas quem tem dinheiro merece ensino de qualidade. Começa-se a aceitar que crianças de famílias sem condições financeiras estudem em condições indignas. Começa-se a aceitar que professores trabalhem sem motivação e sem recursos, mas não deveria ser normal.
Uma sociedade que transforma a educação em negócio está, na verdade, a vender o próprio futuro. Está a fabricar gerações inteiras condenadas à exclusão, ao desemprego e à dependência. Está a aprofundar divisões sociais perigosas que amanhã poderão transformar-se em revolta, instabilidade e colapso moral. Desta feita, a educação nunca deveria ser vista como mercadoria. Porque quando aprender passa a depender do dinheiro, a desigualdade deixa de ser acidente e passa a ser política.
E no futuro, que tipo de país restará quando milhões de crianças crescerem sem acesso digno ao conhecimento, enquanto a educação continuar reservada apenas para quem pode pagar?






