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Da chacota à glória: o segredo dos Knicks para a conquista da NBA

Milhares de adeptos dos New York Knicks celebraram a conquista da NBA pela primeira vez, outros esperaram 53 anos. Entre 1973 e 2026, este emblema variou entre a esperança e a amargura, vendo-se amarrado à frustração. Todavia, a reestruturação iniciada em 2020 viria a dar frutos.

Há um ano, os Knicks eliminaram os campeões em título – os Boston Celtics de Neemias Queta – mas perderam a final da Conferência Este para os Indiana Pacers (4-2).

No rescaldo a 248 vitórias em 445 jogos, o proprietário James Dolan e o presidente Leon Rose arriscaram despedir Tom Thibodeau, experiente “coach” – de 68 anos – que assumiu a equipa em 2020 e devolveu-a aos playoffs, o que não acontecia desde 2013. Em cinco temporadas, Thibodeau alcançou os playoffs por quatro vezes. Ainda assim, a chefia entendeu que o treinador atingira o fim de ciclo, gerando inúmeras críticas dos adeptos, escaldados por 26 anos de amargura e chacota – até em filmes e séries.

As conquistas de 1973 e 1970 e as finais da NBA perdidas em 1999 e 1994 pareciam um patamar utópico.

Antes de 2025/26, Dolan – empresário ao leme da franquia desde 1999 – era descrito como o pior entre os proprietários na NBA e o responsável pelo afastamento de ícones.

Um ano volvido é bem mais fácil analisar a escolha de Dolan e Rose. O plano passava pela conquista da NBA à boleia de um “coach” flexível na ideia de jogo, na forma de lidar com o plantel e na gestão de minutos, uma vez que Thibodeau descuidava a rotação.

Depois de vários alvos falhados, os Knicks contrataram Mike Brown, de 56 anos, que havia orientado Cleveland Cavaliers, Los Angeles Lakers e Sacramento Kings, onde trabalhou com Neemias Queta. Além disso, Brown foi adjunto nos San Antonio Spurs, Indiana Pacers e nos Golden State Warriors.

Nunca só, o “coach” fez-se acompanhar por um adjunto para as substituições, um para o momento ofensivo, outro para a defesa e ainda adjuntos para a gestão do quotidiano nos bastidores. Foi nesta base polivalente – na qual todos têm voz – que assentou a época inesquecível.

Uma peça fundamental, mas não a única. Recuemos ao princípio do processo.

Em 2020, Leon Rose – prestigiado agente – assumiu a presidência dos Knicks. Ao mesmo tempo, o “coach” Tom Thibodeau entrou no projeto. No médio-prazo, a direção pretendia relançar a carreira de jovens, aproveitar oportunidades no mercado e construir um plantel equilibrado – sem vedetas, se possível. Para esbanjamento de centenas de milhões de dólares já bastavam as décadas anteriores.

Paulatinamente, a ideia entranhou-se no ADN e o recrutamento de Mikal Bridges, OG Anunoby, Karl-Anthony Towns e de Josh Hart são exemplos disso.

Hoje aclamado como MVP das finais, o base enfrentou muitas críticas aquando da contratação em 2022 – os meandros do processo não ajudaram.

Meses antes de Jalen Brunson deixar os Dallas Mavericks – onde atingiu a final da Conferência Oeste na companhia de Luka Doncic – os Knicks contrataram Rick Brunson – o pai – para auxiliar Thibodeau, com quem havia trabalhado nos Chicago Bulls e nos Minnesota Timberwolves. Não era um acaso. O presidente Leon Rose agenciou Rick Brunson durante a carreira de atleta; Sam Rose – filho de Leon – é o agente de Jalen Brunson.

Ora, as críticas endureceram quando o valor do contrato de Jalen Brunson – reforço “free agent” – foi conhecido: 104 milhões de dólares (cerca de 89,5 milhões de euros). Mas o tempo deu razão a Leon Rose.

Jalen Brunson – de raiz um base virtuoso, talhado para os momentos decisivos – evoluiu para líder, foi nomeado All-Star (2024, 2025 e 2026) e, em 2024, terá abdicado de 113 milhões de dólares (cerca de 97 milhões de euros) para que o plantel fosse devidamente reforçado.

A subida ao Olimpo da NBA aconteceu na quarta temporada pelos Knicks, aos 29 anos, com médias de 27 pontos, sete assistências e três ressaltos em 94 jogos – mais partidas disputadas numa época só em 2021/22 pelos Dallas Mavericks (97).

É a estrela da companhia, o farol do Madison Square Garden – reduto dos Knicks.

Em outubro, o emblema de Nova Iorque não integrava o lote de candidatos ao anel da NBA. Surgiam – naturalmente – atrás dos Oklahoma City Thunder (campeões em 2025), Boston Celtics (campeões em 2024) e dos Denver Nuggets. Em todo o caso, as vitórias consecutivas deixavam os adeptos expectantes.

Para reforçar o entusiasmo, a turma de Mike Brown conquistou a NBA Cup, vencendo os Toronto Raptors (117-101), os Orlando Magic (132-120) e os San Antonio Spurs (124-113). Na final, a 17 de dezembro em Las Vegas, OG Anunoby (28 pontos) e Brunson (25 pontos e oito assistências) agigantaram-se.

O MVP do torneio? Jalen Brunson, claro. Antes da final, o base aplicou 35 pontos contra os Raptors e 40 ante os Orlando Magic.

Em contracorrente, 2026 arrancou com derrota no reduto dos Spurs, a primeira de nove em 11 jogos – dois blocos de quatro desaires consecutivos. Para muitos adeptos era o fim de núpcias para Mike Brown e o regresso à penosa realidade.

Ainda assim, o “boss” James Dolan não esmoreceu.

«Queremos chegar à final da NBA e vencer. É o desporto e este negócio funciona assim, tudo pode acontecer», disse o empresário de 70 anos à WFAN Sports em janeiro. E tinha razão. Os Knicks edificaram séries de oito, sete e cinco triunfos consecutivos, terminando a Conferência Este no terceiro lugar, somente atrás de Celtics e Detroit Pistons.

Os playoffs estavam ao virar da esquina e o emblema de Nova Iorque fixava-se na mó de cima. O arranque do “mata-mata” foi preocupante, com duas derrotas consecutivas contra os Atlanta Hawks (2-1), mas três vitórias resolveram a eliminatória (4-2). Seguiram-se os Philadelphia 76ers (4-0) e os “Cavs” (4-0).

A final contra os Spurs começou de feição, com triunfos fora de portas (105-95) e em casa (105-104). Apesar da derrota caseira (115-111), ninguém previu o que estava guardado para a madrugada de 11 de junho.

Num Madison Square Garden com mais de 19.800 espectadores, os Spurs estiveram a vencer por 29 pontos e alcançaram o intervalo com 76-49 no marcador. Num jogo para a eternidade, a reviravolta começou com parcial de 13-0, essencial para o 90-75 à partida para o derradeiro quarto. Em momentos plenos de tensão, Brunson escalou até aos 36 pontos e OG Anunoby vestiu a pele de herói. A 1,2 segundos da buzina, o inglês de 28 anos voou, deu um toque subtil na bola e soltou a festa.

Na primeira linha da euforia estavam, entre outros, Taylor Swift, Jimmy Fallon, Spike Lee, Larry David, Jerry Seinfeld e Ben Stiller. Estava aberto o caminho para a glória. Uma vitória bastava para confirmar o título. Estava predestinado.

Na madrugada de 14 de junho, enquanto Nova Jérsia assistia ao empate entre Brasil e Marrocos (1-1), Nova Iorque pintava-se de azul e laranja, com milhares nas ruas. Sentiam que o infortúnio havia terminado. No Jogo 5, Brunson aplicou 45 pontos e o grupo de Mike Brown – onde todos têm voz e uma missão – quebrou o jejum de 53 anos.

Em simultâneo, a geração 2025/26 vingou a final perdida em 1999 para os Spurs. Nessa campanha inglória esteva Rick Brunson, o pai de Jalen.

O tempo deu razão a Leon Rose. Por sua vez, James Dolan arrecadou uma rara época de sucesso. Depois de décadas a esbanjar centenas de milhões em falsas promessas, estrelas do passado e vedetas – num projeto sem identidade – a escolha de Leon Rose para a presidência permitiu definir um rumo. A partir da contratação de Jalen Brunson, o plantel foi pensado em redor do base e assente num treinador flexível, ora taticamente, ora na gestão do grupo.

A redenção é presente e não se exige menos para 2026/27. Por agora, os New York Knicks podem – e devem – festejar.

 

Fonte: TVI

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