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IEP De 28,01 Revela Mercado De Trabalho Preso À Baixa ProdutividadeIEP De 28,01 Revela Mercado De Trabalho Preso À Baixa Produtividade

Moçambique continua a revelar dificuldades para transformar actividade económica em emprego formal, produtividade e melhoria sustentada dos rendimentos, segundo o Índice de Emprego e Produtividade referente ao primeiro trimestre de 2026.

Elaborado pela Fundação para a Competitividade Empresarial, o indicador fixou-se em 28,01 pontos numa escala de 100, colocando o mercado de trabalho nacional na categoria “CC”, classificada como crítica pela metodologia utilizada.

O resultado sugere uma economia com alguma capacidade para abrir oportunidades de trabalho, mas ainda incapaz de assegurar que essas oportunidades sejam suficientemente produtivas, formais e remuneradoras para sustentar a competitividade empresarial e a inclusão económica.

O relatório considera que o problema nacional já não se limita à quantidade de postos disponíveis. A questão central reside na natureza do trabalho criado, no valor produzido por cada trabalhador e na capacidade das empresas para pagar salários mais elevados sem comprometer a sua sustentabilidade.

Um Índice Que Coloca A Produtividade No Centro

O IEP é construído a partir de seis componentes: taxa de emprego, taxa de desemprego, participação feminina, produtividade por trabalhador, produtividade por hora e taxa de oportunidades de emprego.

A estrutura de ponderação mostra que a FUNDEC pretende avaliar mais do que a simples presença de pessoas no mercado de trabalho.

A produtividade por trabalhador e a produtividade por hora possuem um peso de 30% cada. Juntas, representam 60% do índice total. A taxa de emprego possui uma ponderação de 21%, enquanto o desemprego representa 8%, a abertura de oportunidades 7% e a participação feminina 4%.

Esta composição significa que uma melhoria meramente quantitativa do emprego não será suficiente para elevar substancialmente o indicador. O País precisa de criar postos de trabalho e, simultaneamente, aumentar o valor acrescentado produzido por cada trabalhador e por cada hora trabalhada.

No primeiro trimestre, tanto a produtividade por trabalhador como a produtividade por hora registaram um desempenho normalizado de apenas 0,19. Foram os dois resultados mais baixos do painel e, devido ao seu peso elevado, exerceram uma influência decisiva sobre o índice final.

A taxa de emprego apresentou um desempenho de 0,30, enquanto a taxa de oportunidades se situou em 0,46. A participação feminina, com 0,67, foi o indicador relativamente mais favorável, embora a sua ponderação reduzida limite a contribuição para o resultado agregado.

Há Pessoas A Trabalhar, Mas Pouco Valor A Ser Produzido

A baixa produtividade significa que uma parcela considerável da força de trabalho se encontra ocupada em actividades que geram pouco valor por trabalhador.

Isso pode ocorrer em explorações agrícolas de subsistência, pequeno comércio informal, serviços de reduzida complexidade, actividades familiares sem remuneração regular ou empresas que utilizam processos manuais e equipamentos pouco eficientes.

A produtividade não depende apenas do esforço individual. É determinada pela combinação entre competências, tecnologia, equipamento, organização empresarial, infra-estruturas, acesso ao financiamento e qualidade da gestão.

Um trabalhador com formação limitada, sem ferramentas adequadas, sujeito a interrupções de energia e inserido num processo produtivo mal organizado terá dificuldade em produzir mais, mesmo que trabalhe muitas horas.

Por essa razão, a produtividade por hora é particularmente importante. O aumento das jornadas de trabalho não representa necessariamente progresso económico quando cada hora adicional produz pouco rendimento ou valor acrescentado.

O relatório identifica como causas da fragilidade a baixa mecanização, a limitada incorporação tecnológica, o reduzido investimento privado, a fraca digitalização e a insuficiente adopção de práticas modernas de gestão e produção.

Meio Milhão De Entrantes Para Cerca De 30 Mil Empregos Formais

A leitura da FUNDEC é corroborada por diagnósticos recentes sobre a estrutura do mercado de trabalho moçambicano.

O Banco Mundial estima que aproximadamente 500 mil pessoas entram anualmente na força de trabalho, enquanto a economia gera apenas cerca de 30 mil empregos formais por ano. Cerca de 70% dos trabalhadores permanecem concentrados numa agricultura de baixa produtividade, sendo comum o trabalho por conta própria, familiar não remunerado, informal ou subempregado.

Isto significa que, por cada posto formal criado, entram no mercado mais de 16 novos potenciais trabalhadores.

A maioria precisa, portanto, de procurar rendimento na agricultura familiar, no comércio informal, em pequenos serviços ou em ocupações temporárias que nem sempre proporcionam protecção social, estabilidade contratual ou possibilidades de progressão profissional.

Esta realidade ajuda a explicar por que razão uma taxa de desemprego aparentemente moderada pode coexistir com pobreza elevada e reduzida capacidade de consumo.

Num mercado marcado pela ausência de mecanismos amplos de protecção social, muitas pessoas não podem permanecer estatisticamente desempregadas enquanto procuram uma oportunidade. Precisam de desenvolver alguma actividade de sobrevivência, ainda que esta produza rendimento reduzido.

O próprio relatório da FUNDEC alerta que, em Moçambique, a leitura do desemprego deve ser feita com prudência, porque trabalho e emprego produtivo não são necessariamente equivalentes.

O Crescimento Económico Não Está A Produzir Emprego Na Escala Necessária

O resultado do índice surge num contexto de recuperação económica ainda frágil.

Depois de uma contracção estimada em 0,5% em 2025, o Banco Mundial projecta um crescimento de apenas 0,9% para Moçambique em 2026, apoiado principalmente pela retoma do projecto Mozambique LNG. A instituição considera que a expansão continua condicionada por pressões fiscais, escassez de divisas, efeitos das cheias e reduzida criação de emprego nos sectores não extractivos. 

Uma economia pode crescer sem criar emprego suficiente quando a expansão é impulsionada por sectores intensivos em capital.

Petróleo, gás, mineração e grandes infra-estruturas podem mobilizar milhares de milhões de dólares, aumentar exportações e gerar receitas públicas, mas utilizam relativamente menos trabalhadores do que agricultura comercial, manufactura, construção, turismo ou serviços empresariais.

O efeito sobre o mercado de trabalho dependerá, por isso, das ligações criadas entre os grandes investimentos e as empresas nacionais.

Quando equipamentos, serviços especializados e matérias-primas são importados, uma parte considerável do investimento circula fora da economia doméstica. Quando empresas moçambicanas recebem contratos, contratam trabalhadores, adquirem produtos nacionais e desenvolvem competências, o impacto sobre emprego e produtividade torna-se mais amplo.

A recomendação da FUNDEC de ligar megaprojectos ao conteúdo local e às cadeias nacionais de valor procura responder precisamente a esta limitação.

Participação Feminina É Um Sinal Positivo, Mas Incompleto

A participação feminina apresenta o melhor desempenho relativo entre os indicadores avaliados pelo IEP.

O resultado confirma o papel significativo das mulheres na actividade económica nacional, particularmente na agricultura, comércio, serviços, produção alimentar e pequenos negócios.

Contudo, uma elevada participação não significa necessariamente igualdade de rendimento, formalização ou acesso às posições de maior produtividade.

Muitas mulheres continuam concentradas em actividades informais, negócios de baixa escala e ocupações com reduzido acesso ao crédito, tecnologia, activos produtivos e protecção social.

O desafio identificado pelo relatório consiste em converter participação em rendimento, liderança empresarial, formalização, financiamento e presença em sectores de maior valor acrescentado.

Também persistem desigualdades na formação técnica. Segundo o Banco Mundial, as mulheres representam apenas cerca de 23% dos estudantes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, embora a sua participação geral na educação técnico-profissional se aproxime da paridade.

Esta concentração reduz o acesso feminino a oportunidades emergentes em energia, indústria, logística, tecnologias digitais, manutenção e engenharia.

A participação económica das mulheres produzirá maior impacto sobre o IEP quando for acompanhada por progressão para actividades formais, tecnológicas e de maior produtividade.

Formação Continua Desalinhada Da Procura Empresarial

O desalinhamento entre as competências oferecidas pelo sistema de formação e as necessidades das empresas figura entre os sete desafios prioritários apresentados pela FUNDEC.

O problema possui duas dimensões.

A primeira é quantitativa. O sistema de educação técnico-profissional formal possui menos de 125 mil estudantes, uma escala ainda limitada face às centenas de milhares de jovens que entram anualmente no mercado.

O IFPELAC graduou aproximadamente 19.075 formandos em 2024, número importante, mas insuficiente perante a dimensão das necessidades nacionais.

A segunda dimensão é qualitativa. Nem sempre os cursos, equipamentos, currículos e experiências práticas acompanham as transformações tecnológicas e as necessidades reais dos empregadores.

O Banco Mundial observa que apenas 20,7% das empresas formais oferecem formação estruturada aos seus trabalhadores. A aprendizagem no posto de trabalho permanece fragmentada e, em muitos casos, demasiado curta para assegurar uma transição eficaz para funções técnicas.

A formação precisa de ser concebida a partir da procura concreta dos sectores.

Isso implica mapear antecipadamente as competências necessárias em energia, agro-indústria, turismo, logística, manufactura, construção e economia digital, envolvendo empresas na definição dos currículos, certificação e realização de estágios.

O objectivo não deve ser apenas aumentar o número de certificados emitidos, mas acompanhar quantos formandos conseguem emprego, quanto aumenta o seu rendimento e se as empresas registam ganhos de produtividade.

A Fragilidade Das PME Limita A Absorção De Trabalhadores

A maioria dos empregos sustentáveis terá de ser criada pelo sector privado, sobretudo pelas pequenas e médias empresas.

Contudo, o IEP identifica a fragilidade das PME como uma das principais restrições do mercado laboral.

Muitas empresas operam com reduzida escala, contabilidade pouco estruturada, acesso limitado ao crédito, equipamento obsoleto, baixa capacidade de gestão e reduzida utilização de soluções digitais.

Estas condições restringem a produtividade e a capacidade para contratar formalmente.

Uma empresa que possui margens reduzidas e receitas irregulares tende a evitar contratos permanentes, formação interna e contribuições para a protecção social. Pode recorrer a trabalhadores temporários, relações informais ou mão-de-obra familiar.

O relatório propõe uma agenda de modernização empresarial assente em digitalização, tecnologia, equipamento, gestão, qualidade e inovação.

Entre os instrumentos sugeridos encontram-se linhas de modernização tecnológica com garantias parciais de crédito, incentivos à aquisição de maquinaria, soluções energéticas, consultoria co-financiada, fundos de certificação e apoio à inovação aplicada.

O efeito esperado não se limita à melhoria da eficiência das empresas. Uma PME mais produtiva poderá aumentar vendas, competir por contratos maiores, pagar salários superiores e criar postos formais.

Digitalização Deve Resolver Problemas Concretos

A digitalização surge como uma das respostas propostas para elevar o desempenho do tecido empresarial.

Para muitas PME, contudo, transformação digital não significa adoptar sistemas complexos ou tecnologias dispendiosas. Pode começar com facturação electrónica, controlo de existências, pagamentos digitais, gestão de clientes e registo organizado de custos e receitas.

Estas ferramentas permitem conhecer a rentabilidade de cada produto, reduzir perdas, melhorar a cobrança e produzir informação financeira necessária para solicitar crédito.

A FUNDEC propõe vouchers para software, formação prática em ferramentas digitais e a criação de um catálogo nacional de soluções acessíveis às PME.

O apoio deverá, porém, estar ligado a resultados empresariais. A aquisição de um programa informático sem formação, assistência técnica ou mudança dos processos internos poderá gerar custos sem aumentar a produtividade.

O indicador relevante será a redução do tempo gasto em operações, melhoria da qualidade, aumento das vendas, diminuição dos desperdícios ou formalização de postos de trabalho.

Formalização Precisa De Oferecer Benefícios Visíveis

A informalidade elevada é outro dos constrangimentos identificados pelo índice.

Formalizar uma empresa ou relação laboral permite ampliar a protecção social, melhorar a fiscalização das condições de trabalho, facilitar o acesso ao crédito e criar uma base tributária mais ampla.

Mas a formalização envolve custos de registo, impostos, contabilidade, licenças e cumprimento de obrigações administrativas.

Quando as empresas não reconhecem benefícios proporcionais, tendem a permanecer fora dos circuitos formais.

A estratégia recomendada combina simplificação dos procedimentos, incentivos à contratação e expansão da protecção social associada ao trabalho.

A formalização deverá funcionar como uma porta de entrada para financiamento, capacitação, mercados públicos, certificação e participação nas cadeias de fornecimento, e não apenas como uma nova fonte de encargos.

Do mesmo modo, incentivos devem ser temporários e condicionados à criação efectiva de postos de trabalho, evitando subsidiar empresas que formalizariam os trabalhadores mesmo sem apoio público.

Investimento Precisa De Ser Avaliado Pela Intensidade De Emprego

O relatório recomenda que Moçambique priorize sectores capazes de combinar crescimento, produtividade e absorção de mão-de-obra, incluindo agro-indústria, manufactura, turismo, economia digital, energias renováveis, logística e construção.

Estes sectores apresentam diferentes níveis de intensidade de emprego, competências e capital.

Na agro-indústria, o aumento da produtividade agrícola pode ser acompanhado pela criação de trabalho no processamento, embalagem, armazenamento, transporte e comercialização.

Na energia, os projectos criam procura por electricistas, operadores, instaladores, técnicos de manutenção, engenheiros e supervisores.

No turismo, os postos surgem em alojamento, alimentação, transporte, conservação, marketing, eventos e serviços culturais.

O Banco Mundial identifica energia, agronegócio e turismo como áreas com particular potencial para uma expansão do emprego, desde que o investimento seja acompanhado por competências técnicas, infra-estruturas, ambiente de negócios e participação do capital privado.

A política económica não precisa de escolher entre projectos intensivos em capital e sectores intensivos em emprego. Deve garantir que os primeiros criem procura, infra-estruturas, receitas e conhecimento capazes de impulsionar os segundos.

Assimetrias Territoriais Reduzem As Oportunidades

O IEP aponta também a concentração territorial do emprego e do investimento.

A actividade empresarial permanece fortemente polarizada em Maputo, nos grandes corredores logísticos, capitais provinciais e zonas associadas aos megaprojectos.

Nas províncias com menor densidade produtiva, a população enfrenta mercados reduzidos, infra-estruturas insuficientes, custos logísticos elevados e acesso limitado a financiamento, formação e tecnologia.

A consequência é uma distribuição desigual das oportunidades e a migração de jovens para os principais centros urbanos.

A redução das assimetrias exige políticas territoriais diferenciadas, ligadas às vantagens económicas de cada região.

Não se trata de replicar a mesma indústria em todas as províncias, mas de desenvolver cadeias produtivas baseadas nos recursos, competências, localização e procura de cada território.

A construção de estradas, energia, telecomunicações, sistemas de água, armazenamento e serviços financeiros precisa de ser articulada com projectos empresariais concretos. Infra-estrutura sem actividade produtiva poderá melhorar a conectividade, mas terá um impacto limitado sobre o emprego.

IEP Pode Tornar-Se Um Instrumento De Inteligência Económica

A criação de um indicador que combina emprego e produtividade representa uma contribuição para o debate sobre a qualidade do crescimento económico.

Ao atribuir 60% do peso à produtividade, o IEP recorda que a criação de postos de trabalho não é suficiente quando estes permanecem associados a baixo rendimento, reduzida tecnologia e limitada competitividade.

A publicação apresenta as fórmulas, os pesos e as fontes institucionais utilizadas, designadamente o Instituto Nacional de Estatística, o Ministério do Trabalho, Género e Acção Social e a Direcção Nacional de Emprego.

Contudo, as dez páginas divulgadas não apresentam uma série histórica, os valores brutos de cada variável, os parâmetros completos de normalização nem uma análise de sensibilidade dos pesos.

Por essa razão, os 28,01 pontos devem ser lidos como um diagnóstico sintético produzido segundo a metodologia da FUNDEC, e não como substituto das estatísticas oficiais do emprego.

A utilidade do índice aumentará se as próximas edições permitirem comparar trimestres, identificar a contribuição de cada sector e província e verificar se mudanças no resultado decorrem de mais emprego, maior produtividade ou alterações metodológicas.

Uma nota técnica detalhada também permitirá que empresas, investigadores, sindicatos e entidades públicas reproduzam e debatam os cálculos.

Criar Trabalho Que Produza Transformação

O IEP revela um mercado laboral em que a participação económica existe, mas permanece concentrada em actividades de reduzida produtividade e fraca protecção.

A resposta terá de actuar simultaneamente sobre a oferta e a procura de trabalho.

Do lado da oferta, será necessário melhorar competências, certificação, literacia digital e capacidade de adaptação tecnológica.

Do lado da procura, as empresas precisam de investimento, mercados, energia, financiamento, gestão e condições para crescer.

A política industrial, os programas de conteúdo local, a formação profissional, o apoio às PME e a atracção de investimento não podem continuar como agendas separadas. Devem convergir em metas de emprego produtivo, rendimento e competitividade.

O índice de 28,01 não descreve apenas uma insuficiência de vagas. Expõe uma estrutura económica que ainda cria poucas oportunidades formais e produz pouco valor por trabalhador.

A prioridade País parece indicar a necessidade de combinar escala e qualidade: absorver uma população activa em rápido crescimento e assegurar que cada novo posto contribua para elevar a produtividade, fortalecer as empresas e ampliar o rendimento das famílias.

Fonte: O Económico

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