Por: Alfredo Júnior
O reforço da recolha, organização e utilização de dados económicos pode tornar as empresas moçambicanas mais visíveis para o sistema financeiro, reduzindo um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do sector privado: o acesso ao crédito. A posição foi defendida pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), durante a quarta edição do Banking, Financial Services and Insurance (BFSI) Mozambique 2026, que decorreu em Maputo sob o lema “Transformar Actividades Económicas em Activos Financiáveis: O Papel da Integração Digital e dos Dados”.
Na sessão de abertura, o vice-presidente do Pelouro de Política Fiscal, Aduaneira e Comércio Internacional da CTA, Egas Daniel, afirmou que muitas micro, pequenas e médias empresas geram riqueza, criam emprego e dinamizam a economia nacional, mas permanecem praticamente invisíveis para a banca por não disporem de informação financeira estruturada que permita avaliar o seu desempenho e capacidade de pagamento.
Segundo o responsável, Moçambique possui vantagens competitivas relevantes, incluindo abundantes recursos naturais, uma população maioritariamente jovem, um sector empresarial resiliente e oportunidades de investimento em áreas como agricultura, indústria transformadora, turismo, pescas, energia, logística e economia digital. Contudo, considerou que esse potencial continua limitado por dificuldades persistentes no acesso ao financiamento, sobretudo para empresas que operam na informalidade ou sem histórico financeiro documentado.
A CTA defende que a produção de dados fiáveis sobre vendas, pagamentos, facturação, histórico de transacções e desempenho empresarial pode reduzir a percepção de risco por parte das instituições financeiras, permitindo que um maior número de empresas reúna condições para obter crédito e expandir as suas actividades.
A posição da confederação converge com a estratégia apresentada pelo Governo durante o mesmo fórum. A ministra das Finanças, Carla Loveira, sublinhou que a transformação digital constitui um dos principais instrumentos para ampliar a inclusão financeira, defendendo a utilização de pagamentos electrónicos, facturação digital, carteiras móveis e outras plataformas digitais como mecanismos capazes de criar históricos financeiros consistentes para empresas actualmente excluídas do sistema bancário formal.
Segundo a governante, a elevada informalidade da economia continua a dificultar a avaliação do risco de crédito, tornando mais oneroso ou mesmo inviável o financiamento de muitos operadores económicos. Nesse contexto, destacou reformas em curso, incluindo o reforço da identidade digital, a modernização do sistema electrónico de gestão financeira do Estado (e-SISTAFE), a criação do Banco de Desenvolvimento de Moçambique e novos instrumentos legais destinados a diversificar as fontes de financiamento.
Dados recentes do Banco de Moçambique mostram que o país continua a expandir a inclusão financeira. No primeiro trimestre de 2026, o número de contas bancárias aumentou para cerca de 6,7 milhões, enquanto os agentes de moeda electrónica cresceram 4,4%, reforçando a presença de serviços financeiros em praticamente todos os distritos do país. Apesar destes avanços, persistem desafios relacionados com o acesso efectivo ao crédito por parte das pequenas empresas.
A preocupação da CTA com a necessidade de criar melhores condições para o financiamento empresarial não é recente. Nos últimos anos, a organização tem defendido reformas destinadas a fortalecer as garantias mobiliárias, modernizar o enquadramento jurídico do crédito e facilitar a utilização de activos móveis como garantia junto da banca, medidas consideradas essenciais para ampliar o financiamento ao sector privado.
O debate realizado no BFSI Mozambique 2026 decorre num momento em que o Governo e o sector privado procuram acelerar a digitalização da economia e reforçar a competitividade nacional. A própria XXI Conferência Anual do Sector Privado (CASP) identificou a transformação digital, a melhoria das infra-estruturas, a logística e o fortalecimento do ambiente de negócios como pilares fundamentais para aumentar a produtividade das empresas e estimular o investimento.






