Resumo
As conclusões preliminares da análise realizada pelo grupo de trabalho liderado pelo antigo reitor da UC Fernando Seabra Santos foram apresentadas no esta sexta-feira colóquio “As Cheias do Mondego”, no Departamento de Engenharia Civil da UC.
Segundo um documento a que a agência Lusa teve acesso, a primeira e mais importante razão que explica a rutura do dique dos Casais, na margem direita do Mondego, “é o não funcionamento, ou funcionamento incompleto, dos órgãos de proteção”.
“Dos três diques-sifão instalados, apenas um funcionou em pleno”.
A segunda razão é “a colmatação parcial da secção, por efeito dos troncos de árvores acumulados nos vinte pilares da ponte da A1 [Autoestrada 1]”.
“Embora seja difícil avaliar este efeito, parece razoável estimar que, se a secção estivesse livre, o nível de escoamento teria sido, no pico da cheia, cerca de 30 cm [centímetros] inferior ao verificado, o que teria evitado o galgamento”, observou o grupo.
A terceira razão “é a floresta que se deixou crescer nos taludes interiores dos diques e nas galenas (plataformas entre o leito menor e o leito maior), que os fragilizam estruturalmente, que condenam a impermeabilização, aumentam a rugosidade das paredes e diminuem a capacidade de escoamento das secções”.
“Bastaria que um destes três aspetos tivesse sido acautelado para que a rutura tivesse sido evitada”, apontaram.
As conclusões, organizadas sob a forma de perguntas e respostas, indicaram ainda como causa mais provável para o não funcionamento do sifão “a degradação do betão que compromete a estanquicidade ao ar e impede a instalação de uma pressão negativa no interior”, que só a realização de testes pode comprovar.
“A ser verdadeira, a reparação é muito fácil”, adiantou.
Para os investigadores, existem “fundadas razões para suspeitar que o dique está fragilizado” na secção correspondente ao viaduto da A1, começando por referir que “são visíveis as bocas dos tubos de drenagem pluvial da autoestrada a verterem diretamente sobre a estrutura de aterro do dique”, desde 1982, quando o troço entrou em funcionamento.
Por outro lado, salientaram, o dique principal foi, em ambas as margens, destruído naquela secção para a construção do viaduto, e depois reconstruído, assinalando-se que “é sintomático” que a rutura de 2001, na margem esquerda, se tenha iniciado sob a ponte, e a de 2026, na margem direita, tenha ocorrido também sob a ponte.
“Por outro lado, estão à vista deficiências técnicas graves nas obras recentemente executadas que põem em causa a impermeabilização do dique”.
Para evitar futuras ruturas, o grupo de trabalho entendeu que não é necessário repensar toda a estratégia da obra, embora “algumas pequenas alterações possam ser introduzidas”.
“O que há a fazer é apenas reparar os estragos, executar o projetado, elaborar e respeitar um programa de manutenção da infraestrutura e criar uma equipa dedicada com vontade de o concretizar”.
O grupo de trabalho integra os académicos Alfeu Sá Marques, Cidália Fonte, Isabel Pedroso de Lima, Nuno Simões, Paulo da Venda Oliveira, Ricardo Martins e Rita Fernandes de Carvalho.
A sessão de abertura do colóquio contou hoje com participação dos vice-reitores da UC para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, e para o Património, Edificado e Turismo, Alfredo Dias.
Delfim Leão disse que as conclusões desta análise serão publicadas em livro, “em setembro/outubro”, para “dar aos decisores políticos, mas também à população em geral, informação trabalhada, densificada do ponto vista científico”.
Fonte: TVI






